sábado, 14 de novembro de 2020

Ailton Volpato

 Finados

A criança sobre o campo sagrado traça caminhos. Brinca, não sabe o que virá e vive o dia na graça. No campo está a história, a memória. Só. A vida já é outra via antecipada pelo amor. A criança é uma promessa, ponte a oscilar o tempo, entre riso e lágrima: um desejo de ser. E o que celebramos é passagem.

2020 




terça-feira, 13 de outubro de 2020

Ailton Volpato

Quando visitas a humilde morada
É festa,
e a riqueza é o anúncio
Da vitória.
Estás sempre presente,
Em ronda silente,
Renovando o entusiasmo
De ir além.
De ti, o que ouço é sempre cântico,
Liturgia solene:
Do ínfimo instante se estende
O eterno.

 


 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Wislawa Szymborska

 NADA É DADO

Nada é dado, tudo emprestado.
Estou atolada em dívidas até o pescoço.
Serei forçada a pagar por mim
gastando a mim mesma,
dando a vida pela vida.

É coisa já arranjada:
tenho que devolver
o coração e o fígado
e cada dedo em particular.

Tarde demais para quebrar os termos do contrato.
O que devo me será tirado
junto com a minha pele.

Ando pelo mundo
numa multidão de outros devedores.
Alguns suportam o ônus
de pagar pelas asas.
Outros, queiram ou não,
prestarão conta de suas folhas.

Todo tecido em nós
está na coluna Débito.
Nenhum cílio, nenhuma haste
a conservar para sempre.

O inventário é minucioso
e tudo indica
que não vamos ficar com nada.

Não consigo lembrar
onde, quando e com que fim
permiti que abrissem
essa conta em meu nome.

O protesto contra ela
chamamos de alma.
Esse é o único item
que não consta do inventário.

(Em [Para o meu coração num domingo], tradução: Regina Przybycien e Gabriel Borowski, Companhia das Letras, São Paulo, 2020)
 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Dora Ferreira da Silva


Moras num antiquário e nunca estás.
Um gato sonolento recebe instáveis visitantes
mas eu fico à espera. Conheço cada fresta da parede
suas manchas e os objetos estranhos que ninguém
pensa comprar: a pátina os cobre de suave indiferença.
Parecem meteoros expulsos de espaços
infinitos e eu sinto a esperança de ver-te
ainda que um só momento — ausente de ti mesmo
e a sós contigo. Aqui estou de joelhos. Imóvel.
Julgarias que lá estava — se tanto — uma pequena pirâmide
silenciosa. Ver-te-ia de pálpebras fechadas
teu modo de estar a sós tua possível neurastenia
debatendo-se no antiquário entre objetos.
E quando te fosses quem sabe desligarias
as pesadas correntes que me prendem.

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999]

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

José Agostinho Baptista

MAIS UM ANO
Mais um ano está cumprido.
De repente, implacavelmente, o tempo
arrancou as suas folhas,
a vertiginosa sucessão dos números.
Despenharam-se os relógios, as clepsidras, as
varas do sol.
Girei, contorci-me, explodi no ar como
as canas do fogo.
Mas não havia cor.
As sombras, a sombra do mal, a sombra do
medo,
a sombra da nostalgia,
adensaram os contornos da minha vida.
Desejei morrer tantas vezes.
Viajei entre baldios, colhi plantas sem nome,
quebrei os corais do último sonho,
debrucei-me em varandas que davam apenas
para a cidade das trevas.
Bebi todos os vinhos,
tudo o que nascia dos cactos, do absinto, das
juníperas alucinadas,
da cevada dos países frios.
Devorei palavras sem sentido, orações,
rosários de pérolas negras.
liturgias que jamais responderam à extrema
solidão do homem.
Abracei um corpo de inocência perdida e
estremeci,
e esse corpo estremeceu na inquietude da
minha vida desesperada.
Talvez fosse amor esse agitar de asas,
esse brilho de lantejoulas enlouquecidas.
Não sei.
Havia uma praça onde os cães adormeciam,
sem endereço, sem dono,
sem os antigos passeios pelos prados da alegria.
Aí estavas tu, josé,
meu amigo de desumana voz,
a guardar o meu sono, a angústia das suas praias.
Mas não dizias nada.
Eras o único caminhante desses planetas para
onde eu partia,
sempre que Deus me chamava,
com a sua urgência inexplicável.
Penso sempre no seu trono de jóias raras,
sob as árvores frondosas,
e procuro a sua mão sobre a minha fronte,
sobre o meu pensamento de casas puras.
Já não tenho casa.
Fiz do desabrigo um imenso campo de anis e
flores altas.
A minha cama é essa planície onde os
animais se deitam, sem pensar em nada.
Por isso não quero a mentira dos povos, as
estátuas de bronze,
as armas brancas atrás das costas.
Quero um barco de papel, um espelho de
água, um lago.
Mais nada.
(Epílogo Poesia reunida, Assírio & Alvim, 2019)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Murilo Mendes

MAPA

A Jorge Burlamaqui

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos canjerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
e os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

(Em Poemas, 1930)

domingo, 24 de novembro de 2019

Graça Pires


Um dia nos pátios das casas
hão-de acender-se fogueiras
para atrair a chuva
como uma crendice de tempos remotos.
Seremos, passo a passo,
errantes de longínquas viagens
ou peregrinos perseguidos em tempos de oração.

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Escavo no peito um declive de seara
para ceifar o pão e roçar o ventre
no aroma dos fenos, até que o fermento
levede o trigo por entre os dedos do estio.
As farpas de um arado podem sulcar-me a pele
porque é de terra o molde do meu corpo.

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Escrevemos mar como se fosse a palavra
única que nos circunda a fala.
Quando éramos crianças tínhamos os barcos de papel.
E havia traineiras em que os pescadores manchados
de sal e sangue enfrentavam a tormenta de cada dia.
Agora, de quilha inquieta, os navios ferem
as entranhas da água e cingem-nos no olhar
o negro das marés e dos limos
que morrem na praia, onda após onda,
num extenuado adeus ao apelo dos corais.

(Em Uma vara de medir o sol, São Paulo: Intermeios, 2012)

SOBRE GRAÇA PIRES

Ailton Volpato

  Finados A criança sobre o campo sagrado traça caminhos. Brinca, não sabe o que virá e vive o dia na graça. No campo está a história, a m...