terça-feira, 7 de junho de 2022

Arthur Rimbaud

 

O Barco Bêbado

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes — dilema
Lívido — um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Náufragos abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes…
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
e eu, como uma mulher, me punha de joelhos…

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
– É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

Arthur Rimbaud

Tradução de Augusto de Campos

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Alberto Bresciani

 

REFUGIADOS
 
No silêncio das florestas,
na solidão da cidade,
 
somos os refugiados
de um tempo em cinzas.
 
Desejamos tanto
e é pouco o que passou.
 
Sim, ouvimos vozes,
um certo rumor impreciso.
 
Chegamos a pensar
que não queremos mais,
 
apenas o sol onde está,
pássaros nos binóculos.
 
Este é um lugar
onde nada nos sobra.
 
(Em Hidroavião, 2020)


  • segunda-feira, 20 de setembro de 2021

    José Luis Peixoto


    CERTEZA
     
    Num momento, acerta-nos a certeza de tantas manhãs desperdiçadas.
    De repente, este inverno é o último e os nossos braços
    esticados não chegam
    ao fim de março. A criança que transportamos debaixo de
    tudo, dentro de tudo,
    pergunta: e agora? Agora, não há mais respostas do que
    esta grande resposta.
    E não nos podemos queixar de falta de aviso, sempre
    soubemos
    que todos os objetos possuem sombra. Tivemos férias
    de verão e idades,
    tivemos terças-feiras, semanas que passaram demasiado
    depressa. E agora?
    Agora, agarramo-nos a cada minuto deste entardecer e,
    num momento,
    sabemos por fim que aquilo que importa é pouco e raro.
     
    (Regresso a Casa, Porto Alegre: Dublinense, 2020, p. 30)
     
     
    ODISSEIA
     
    Eis Ulisses em seu longo caminho, avança pelas vagas,
    como avança pelos versos, como avança pela espera
    de quem olha o horizonte em ítaca. Eis Ulisses
    com seu humano propósito.
    A guerra de Troia é uma porta que fechou ao sair, saiu
    desalmado; também pode ser uma idade, ou a pessoa
    que Ulisses já não quer ser. Sim, a guerra de Troia é a
    pessoa que Ulisses já não quer ser.
    A embarcação de Ulisses pode ser uma bicicleta
    ou um táxi, não importa, pode ser um passeio a pé,
    de mãos nos bolsos.
    Os dez anos de viagem até ítaca podem ser dez minutos,
    podem ser um telefonema rápido, um vulto
    que se distingue ao longe ou, mais provavelmente,
    podem ser a vida inteira. Sim, os dez anos de viagem até ítaca
    são a vida inteira.
    E, claro, Ulisses és tu. Já tinhas percebido, não?
    Ulisses és tu, a guerra de Troia és tu, és toda a viagem,
    és ítaca também.
    Haverás de chegar. Na hora certa, terás de chegar.
    Já te esperam.
    ______________________________
    Este navio dispensa o leme. Estes marinheiros dispensam o mapa. Foram contratados pela forma do nome e do rosto, com mínimas habilitações literárias, ironia máxima. O mar sabe conduzir o navio. As correntes e as tempestades são a sua verdadeira tripulação. Destes marinheiros, apenas se exige nomes bons de citar, rostos bons de esculpir e, claro, um comportamento adequado, que oscile entre o apolíneo e o dionisíaco. Todas as sílabas dos seus nomes devem ser pronunciadas, de modo a que poetas elevados e pessoas de bom gosto possam dizer Euríloco da mesma maneira que diriam torneira, possam dizer Perimedes e iluminar uma frase, dar elegância a uma ideia. Estes nobres marinheiros são sobretudo arquétipos, desempenham essa função com bravura, navegam com destreza na origem etimológica das palavras. Aquela nuvem podia ser um arquétipo, uma pena levada pelo vento podia ser um arquétipo, mas faltava-lhe o valor do tempo acumulado: uma espécie de condensação, comparável ao processo que forma diamantes nos secretos segredos da terra. O mar que rodeia o navio é literalmente feito de diamantes, mas não é por isso que se dispensa leme e mapa nesta viagem. Ao longo de cantos identificados com numeração romana, o percurso já está definido, é único e inevitável. Ulisses foi atado ao mastro apenas para causar efeito dramático.
    ____________________________________
    Quem espera depende de quem chega.
    Mas quem chega, para saber que chegou,
    depende de quem espera. Penélope é
    Ulisses e, ao mesmo tempo, Ulisses é
    Penélope. Quem passa dias a fiar e
    noites a desfazer o que fiou cumpre
    o mesmo caminho de quem passa dias
    a navegar e noites também a navegar.
    Penélope tem barba, Ulisses tem útero,
    Penélope tem barba, Ulisses
    também tem barba; Penélope tem útero, Ulisses
    também tem útero. Orgulhamo-nos
    do século XXI e, por isso, sabemos
    que qualquer uma dessas opções é
    válida, o que conta é o paradigma,
    o que conta é a estrutura exemplar
    oferecida pelo paradigma: alguém
    venceu a guerra de Troia, alguém
    pariu Telêmaco.
     
    (Em Regresso a Casa, poemas, Porto Alegre: Dublinense, 2020)
     
     
     Escritor José Luís Peixoto estreia-se nos «palcos» de Nova ...

    terça-feira, 3 de agosto de 2021

    Nikos Kazantzákis

    “...Como os incrédulos conseguirão crer nos prodígios que a fé pode gerar? Esquecem-se de que a alma do homem torna-se onipotente, ao ser tomada por uma grande ideia. As pessoas assustam-se quando, depois de amargas provações, entendem que têm no íntimo uma força que pode exceder a força humana; assustam-se, porque a partir do momento em que entendem que existe essa força, não podem mais encontrar justificativas para suas ações insignificantes ou indignas, para suas vidas perdidas, jogando a culpa nos outros: já sabem que elas – e não a sorte, não o destino, nem mesmo os outros ao redor -, apenas elas têm integral responsabilidade, não importa o que façam, não importa no que se tornem. E aí então se envergonham de rir e de zombar se uma alma inflamada busca o impossível. ”

    [In O capitão Mihális (Liberdade ou Morte), trad. Silvia Ricardino, São Paulo: ed. Grua, 2013]

     


     

    sábado, 14 de novembro de 2020

    Ailton Volpato

     Finados

    A criança sobre o campo sagrado traça caminhos. Brinca, não sabe o que virá e vive o dia na graça. No campo está a história, a memória. Só. A vida já é outra via antecipada pelo amor. A criança é uma promessa, ponte a oscilar o tempo, entre riso e lágrima: um desejo de ser. E o que celebramos é passagem.

    2020 




    terça-feira, 13 de outubro de 2020

    Ailton Volpato

    Quando visitas a humilde morada
    É festa,
    e a riqueza é o anúncio
    Da vitória.
    Estás sempre presente,
    Em ronda silente,
    Renovando o entusiasmo
    De ir além.
    De ti, o que ouço é sempre cântico,
    Liturgia solene:
    Do ínfimo instante se estende
    O eterno.

     


     

    quinta-feira, 10 de setembro de 2020

    Wislawa Szymborska

     NADA É DADO

    Nada é dado, tudo emprestado.
    Estou atolada em dívidas até o pescoço.
    Serei forçada a pagar por mim
    gastando a mim mesma,
    dando a vida pela vida.

    É coisa já arranjada:
    tenho que devolver
    o coração e o fígado
    e cada dedo em particular.

    Tarde demais para quebrar os termos do contrato.
    O que devo me será tirado
    junto com a minha pele.

    Ando pelo mundo
    numa multidão de outros devedores.
    Alguns suportam o ônus
    de pagar pelas asas.
    Outros, queiram ou não,
    prestarão conta de suas folhas.

    Todo tecido em nós
    está na coluna Débito.
    Nenhum cílio, nenhuma haste
    a conservar para sempre.

    O inventário é minucioso
    e tudo indica
    que não vamos ficar com nada.

    Não consigo lembrar
    onde, quando e com que fim
    permiti que abrissem
    essa conta em meu nome.

    O protesto contra ela
    chamamos de alma.
    Esse é o único item
    que não consta do inventário.

    (Em [Para o meu coração num domingo], tradução: Regina Przybycien e Gabriel Borowski, Companhia das Letras, São Paulo, 2020)
     

    Arthur Rimbaud

      O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...