sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sebastião Uchoa Leite

EXERCÍCIOS NUMA MESA METAFÍSICA
Inclinado, numa cadeira entrançada,
fixava absorto o emaranhado da mesa
como se pretendesse adivinhar,
na permanência das fibras,
algo impermeável à sua vista.
Talvez a própria mesa se dissolvesse no tempo,
as tranças do assento, o mosaico xadrez,
a obsessão do finito.
Talvez um excesso de luz ou de sombra
o privasse da visão final
e uma profunda morosidade
o acolhesse.
A tarde era cheia de carícias.
Absorto numa mesa de cantina,
com lascivo pendor para objetos
fixados na imobilidade.
Em tudo um espírito erradio, mas
um ser engarrafado
com a própria liquidez
que toma a forma das coisas.

[In Obra em Dobras, São Paulo, Duas Cidades, 1988, p. 167]


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Inácio Quinaud

ORAÇÃO AO GRANDE RIO

Sobre o teu dorso, São Francisco imenso,
arfa o vapor, gemendo, trepidante,
num arrojo sem fim que, às vezes, penso
ver lutar um anão contra um gigante.

Tuas águas brilhantes como espelho,
que a mão de Deus poliu para um Titã,
refletem, tontas, o clarão vermelho
do sol que espalha as luzes da manhã.

Galhos secos de palma e de mamona,
troncos fortes, capim, velhas ramagens,
fazem, sempre, aos magotes, mil viagens,
em ziguezagues pela tua tona.

E louco brames e sussurras manso,
na agonia medonha de um forçado,
fertilizando este sertão talado,
numa canseira que não tem descanso.

Segues, rindo e chorando, estranhos trilhos,
enchendo vales e cortando serras,
mas deixas, pronto, na aridez das terras,
o pão que mata a fome dos teus filhos.

No barranco das margens, vilarejos
branqueiam, tristes, o verdor da penha,
e labutam, calados, sertanejos,
em longas filas, arrumando lenha.

Longe em longe, na mata, eis as taperas,
de que nos contam esquisitas lendas,
aventuras sublimes e tremendas,
que se passaram em remotas eras.

Marinheiros, soturnos, em voz baixa,
sufocando, no peito, infinda mágoa,
a beber grandes goles de cachaça,
contam cousas terríveis da “Mãe d’Água”.

O Mistério e o Pavor voam, contentes,
batendo as asas, ao sabor do rio,
deixando atrás de si chocar de dentes,
c à flor da pele estranho calafrio.

Soprando o vento há uivos e gemidos,
preces de dor e gritos de revolta,
a matilha infernal que a Noite solta,
a chocalhar os seus grilhões partidos.

Foge o rio tremendo e os afluentes,
como filhos que voltam para o lar,
tombam, cegos, no rio, a soluçar
queixas distantes de distantes gentes. 

O lamento longínquo dos cocais,
que moram, longe, nas estreitas trilhas,
anda a correr, sem rumo, nestas ilhas,
rememorando os nossos ancestrais.

O tormento sem fim das gerações
que primeiro sulcaram estas águas,
vive agora nas grotas e nas fráguas,
na tristeza saudosa dos sertões .

Mas, esta dor das gerações primeiras,
rompendo a crosta da melancolia,
há de morrer e terminar, um dia,
no ribombo imortal das cachoeiras.

E o rio seguirá, de ora em diante,
levando a vida, por ai além,
na expectativa de um Supremo Bem,
que lhe premie o seu labor constante.

***

São Francisco, ó tu, que embalaste o sono
do meu berço risonho de criança,
dá-me paz, dá-me fé, dá-me esperança,
tu, que vives, também, ao abandono.

Quisera que meu corpo, liquefeito,
rolasse junto com as tuas águas,
despedaçando este montão de mágoas,
que oprime a mente c que me entulha o peito.

Não ser e não sentir, emoliente,
gigantesco, sublime, pardo, informe,
a distender o meu perfil enorme,
na paz segura de quem nada sente.

São Francisco, meu São Francisco-rei,
meu grande rio a que eu adoro tanto,
teu filho volta mergulhado em pranto ,
atrás de um sonho que eu aqui sonhei.

Se eu pudesse, também, banhar minha alma,
como banho meu corpo na corrente,
talvez que um dia me voltasse a calma
e a esperança para a minha mente.

E o tumulto incessante que me mata,
talvez cessasse, como cessa o grito,
do cão-de-caça, quando se desata
a peia atroz que o segurava, aflito.

E eu seguisse, de novo, já liberto
da mágoa infinda que carrego em mim,
na tentativa de alcançar um fim,
de que, às vezes, — quem sabe? — estive perto.

São Francisco, meu grande São Francisco,
lava meu coração, como costumas,
sob os raios do sol ou entre brumas,
lavar das margens os montões de cisco. 

Apaga no meu ser qualquer lembrança,
como quem sopra a chama de uma vela,
partindo tudo o que me prende a ela,
pois que ele é Luz e a Luz nunca se alcança.

Ouve o clamor medonho do meu ser,
já que um amor, como o meu, assim, ardente,
só a ti pode ter por confidente,
tu, rio imenso que me viu nascer.

Leva contigo, para o mar distante,
a mágoa oculta que te vim contar,
pois a dor que te conto, neste instante,
só cabe, toda, na amplidão do mar.

Na mesma unção de quem desfia um terço,
vim buscar, no teu seio, o Esquecimento,
ó rio que conheces meu tormento,
tu, que embalaste o sono do meu berço.

Não me deixes voltar cheguei,
alma plena de dor e de descrença,
faze que agora o meu orgulho vença,
meu Rio-Pai, meu São Francisco-Rei.

Ouve a prece dorida do teu filho,
que te vem procurar neste momento:
— mostra a meu coração o novo trilho,
onde se encontra o Grande Esquecimento!

[In OSCILAÇÕES, Pirapora, Minas, novembro de 46, pp. 183-187]



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Primo Levi

FRAGMENTO DE "A TRÉGUA"

Se em Szób embarcáramos um hóspede, depois de Munique percebemos que havíamos embarcado uma ninhada inteira: nossos vagões não eram mais sessenta, mas sessenta e um. No fim do trem, viajava conosco para a Itália um vagão novo, apinhado de jovens judeus, meninos e meninas, provenientes de todos os países da Europa Oriental.  Nenhum deles aparentava ter mais que vinte anos, mas eram pessoas extremamente seguras e decididas: eram jovens sionistas, iam para Israel, passando por onde podiam e abrindo caminho como podiam.Um navio esperava-os em Bari: haviam comprado o vagão, e engatá-lo ao nosso trem foi a coisa mais simples do mundo: engataram-no simplesmente , sem pedir permissão a mais ninguém. Fiquei assustado, mas riram de meu espanto: “Pois então Hitler não morreu?”, perguntou-me o chefe deles, com o seu olhar imóvel de falcão. Sentiam-se imensamente livres e fortes, donos do mundo  e de seu destino.

Chegamos de noite a Garmisch-Partenkirchen, ao campo de Mittenwald, entre as montanhas, na fronteira austríaca, numa extraordinária desordem.  Aí pernoitamos, e foi a nossa última noite de gelo. No dia seguinte, o trem seguiu para Innsbruck, onde se encheu de contrabandistas italianos, os quais, na ausência das autoridades constituídas, deram-nos os cumprimentos da pátria, e distribuíram generosamente chocolate, aguardente e tabaco.

Na subida para a fronteira italiana o trem, mais cansado do que nós, partiu-se em dois, como um fio demasiadamente esticado: muitos ficaram feridos, e essa foi a última aventura. No meio da noite, passamos o Brenner, que tínhamos atravessado para o exílio vinte meses antes: os companheiros menos sofridos, em alegre tumulto; Leonardo e eu, num silêncio transido de memória. De seiscentos e cinquenta, todos os que então partíramos, voltávamos três. E quanto perdêramos naqueles vinte meses? O que encontraríamos em casa? Quanto de nós fora corroído, apagado? Retornávamos mais ricos ou mais pobres, mais fortes ou mais vazios? Não sabíamos; mas sabíamos que nas soleiras de nossas casas, para o bem ou para o mal, nos esperava uma provação, e a antecipávamos com temor. Sentíamos fluir nas veias, junto com o sangue extenuado, o veneno de Auschwitz: onde iríamos conseguir forças para voltar a viver, para cortar as sebes, que crescem espontaneamente durante todas as ausências, em torno de toda casa deserta, de toda toca vazia? Logo, amanhã mesmo, devíamos lutar contra inimigos ainda ignorados, dentro e fora de nós: com que armas, com que energia, com que vontade? Nós nos sentíamos velhos de séculos, oprimidos por um ano de lembranças ferozes, esvaziados e inermes. Os meses transcorridos, embora duros, de vagabundagem às margens da civilização, pareciam agora uma trégua, um parêntese de ilimitada disponibilidade, um dom providencial, embora irrepetível, do destino. 

(In A trégua, Tradução Marco Lucchesi, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 210-211)



Nelly Sachs

Morte
cântico de mar
banhando-me o corpo em volta
uva salgada
a atrair sede na minha boca —

Feres as cordas das minhas veias
até que elas cantando rebentam
desabrochando das chagas
pra tocar a música do meu amor —

Os teus horizontes em leque desdobrados
com a coroa dentada do morrer
já posta em volta do pescoço
o ritual da partida
com o som regougado da respiração
começado
abandonaste como um sedutor
antes do casamento a vítima enfeitiçada
despida quase já até à areia
expulsa
de dois reinos
já só suspiros
entre noite e noite —

[In Poesias, Tradução de Paulo Quintela, Estudo introdutivo de Joseph Bernfeld, Ilustrações de Jean-Michel Perche, Rio de Janeiro, Ed. Opera Mundi, 1975, p. 160]


domingo, 25 de janeiro de 2015

Marguerite Yourcenar

FRAGMENTO DE "MEMÓRIAS DE ADRIANO"

Como toda gente, não disponho senão de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de si mesmo, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que se arranjam frequentemente para ocultar-nos seus segredos ou por nos fazer crer que os têm; os livros, com os erros peculiares de perspectiva que surgem entre suas linhas. Li quase tudo que nossos historiadores, poetas e narradores escreveram, embora estes últimos tenham reputação de frívolos. A todos devo talvez mais informações do que as recolhidas nas mais diversas situações da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a apreciar a voz humana, tanto quanto a grande imobilidade das estátuas levou-me a valorizar os gestos. Em compensação, e no decorrer dos tempos, a vida me fez compreender os livros.

Mas estes mentem, ainda os mais sinceros. Os menos hábeis, na falta de palavras e frases com que possam representá-la, traçam da vida imagem pobre e vulgar. Alguns, como Lucano, fazem-na pesada e obstruída por uma solenidade que ela não possui. Outros, pelo contrário, como Petrônio, fazem-na leve, transformando-a numa bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso. Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais suave, por isso mesmo diferente do nosso e, na prática, quase inabitável. [...]

[In Memórias de Adriano, Tradução de Martha Calderaro, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, 15a. ed,  p. 30]



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Cesare Pavese

VERÃO
Há um claro jardim entre muros baixos,
de ervas secas e luz, que aos poucos cozinha
sua terra. É uma luz que tem gosto de mar.
Tu respiras a erva tocando os cabelos
e espantando a lembrança.

                                     Eu já vi despencar
muitos frutos, doces, sobre a relva caseira,
com um baque. E assim tu igualmente estremeces
ao soluço do sangue. Balanças a testa
como envolta num denso prodígio aéreo
e o prodígio és tu. Há um mesmo sabor
na lembrança serena em teus olhos.

                                                    Escutas.
As palavras que escutas te tocam de leve.
Tens no rosto calmo uma ideia clara
que desenha em teus ombros o brilho do mar.
Tens no rosto um silêncio que aperta o peito
com um baque e lhe extrai uma dor antiga
como o suco dos frutos caídos outrora.


(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 165)


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Luís Filipe Pereira

Acendo o significado

E chego à escotilha nítida da treva fotográfica
Para ignorar-te como pássaro desmemoriado
Que viesse debicar nos versos a noite em elipse
E beber na varanda efervescente a moratória acrobática

Volteio na poalha inebriada do álbum insone
Do quarto inóspito
Que balança
No dorso das dedadas
De um barco matinal

Apago o sentido

E seguro o rumor dos teus ombros
Que obliquam nas vértebras do poema
Se afastam até às ossadas
De uma página ilesa.


*****

São fragílimas as aves do estio,
São puro segredo em suspensão no pericarpo do ar,
Duração de uma força tão leve
Que é fonte levitando
Nos triângulos cálidos dos telhados.

Asas dispostas sobre as asas
Quais sombras desarrumadas sob as sombras
Ou vogais que deflagram

Se visitam umas às outras
Numa imóvel profusão
De vozes polínicas
Pernoitando no silêncio fendido
Noutras bocas.

*****

Quando líamos na prosa dos nossos corpos
Volumes de melancolia do Bósforo nunca navegado
A minha atenção voltava-se,
Ígnea e azul,
Para as linhas da tua boca
Em dias de Outubro concentradas
Na ténue, fugidia,
Fosca carne do silêncio
Da tarde, dos remos da claridade,
Do amor.

Líamos como se durasse a exaltação das páginas lidas
Entre mastros e poros,
Pontes e salivas,
Como se durasse o desejo
Além do fim.

Quando líamos no presente dos corpos
O futuro incaducável
Procurávamos
A Istambul visitada
Em livros de Orhan Pamuk,
Um tempo emboscado,
Um sinal temido de viagem,
A fluvial essência do mistério
Ou uma desolação.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Nikos Kazantzákis

 EXCERTO DE "RELATÓRIO AO GRECO"

No Monte Athos, um monge pegou minha mão para, disse ele, ler a minha sorte; realmente, seu rosto era de um cigano, preto, redondo, grossos lábios de bode e olhos que lançavam chamas.
—    Não acredito em magia - disse-lhe rindo.
—    Não faz mal, eu acredito e isso chega.
Olhou as linhas de minha mão, suas estrelas, suas cruzes, suas linhas.
—    Não se meta, - disse depois de estudá-la bem - não se meta onde não é chamado; você não foi feito para a ação, fique longe; você não pode lutar com os homens; enquanto luta, vai sempre pensar que seu inimigo pode ter razão e, mesmo que não goste dele, vai sempre perdoá-lo. Entendeu?
—    Continue! - disse-lhe porque estava meio perturbado, pois, vi que esse monge, que me via pela primeira vez, tinha razão.
Observou atentamente a palma da minha mão;
—    Muitas preocupações o torturam, você pede muito, pergunta muito, consome o seu coração; pelo bem que te quero, não se apresse a encontrar a resposta; não é você que tem que ir buscá-la, é ela que deve vir a você; ouça o que estou dizendo, está vindo alguma coisa muito tranquila. Ouve mais uma palavra que, um dia, o abade me disse: um monge, durante toda a sua vida, ansiava por Deus e, apenas quando estava lutando com a morte, percebeu que era Deus que ansiava por ele.
Inclinou-se de novo, sobre a minha mão, arregalou os olhos e olhou para mim:
—    Você - disse - vai ser monge na velhice. Não ria, você vai ser monge.
Uma profecia mentirosa pode, num momento qualquer, se tornar verdadeira,
é só você acreditar nela. Lembrei-me da profecia da parteira no meu nascimento, olhou-me na luz e disse; “Essa criança, um dia, será bispo”. Assustei-me.
—    Eu não quero - gritei, e arranquei minha mão como se sentisse cheiro do perigo.
Com a passagem do tempo, esqueci-me disso, o mesmo aconteceu com as palavras do monge que, esta noite, de repente, vieram à minha mente, quis rir, mas, não consegui; ao que parece, elas trabalhavam em silêncio durante todo esse tempo e me empurravam para onde eu não queria ir; não podia mais rir.
Fechei os olhos para que o sono viesse e me salvasse.
Eu era, dizem, um rebelde, me perseguiam pelas ruas de uma grande cidade, pegaram-me,  julgaram-me, condenaram-me à morte. O carcereiro me pegou,  colocou-me à sua frente, ele vinha atrás com o chicote no ombro; eu corri. “Por que você está correndo?” perguntou o carcereiro, que já estava ficando ofegante. “Estou com pressa” respondi, “estou com pressa”. E, antes que eu tivesse terminado a frase, um ventinho fresco soprou e o carcereiro desapareceu. Não era um carcereiro, era uma nuvem negra que se espalhou. Eu queria prosseguir, mas não podia; uma montanha toda de pedras agudas apareceu na minha frente e fechou o meu caminho. No cimo da montanha, tinha uma bandeira vermelha. Eu disse: “Tenho que subir para poder prosseguir em nome de Deus!”. Fiz o sinal da cruz e comecei a subir; mas, os pregos dos meus coturnos batiam nas pedras e levantava faísca. Eu subia, subia, escorregava, caía, tornava a subir. E, quando cheguei perto do pico, vi, não era uma bandeira, era um chama. Subia e tinha meus olhos fixos no pico; não, não era chama, via-o claramente agora, era Deus, mas não o Pai, o outro, o terrível Jeová, que me esperava.
O sangue me gelou nas veias; por um momento, pensei em voltar; fiquei com vergonha. “Agora,” murmurei, “já era... Continue em frente!” “Você não está com medo?” ouvi uma voz feminina dentro de mim. “Sim, tenho medo!” gritei tão alto e com tanta angústia que acordei.
[In RELATÓRIO AO GRECO, tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão, introdução de Carolina Dônega Bernardes, Rio de Janeiro: Cassará, 2014, p. 244].



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Helder Magalhães

pouco sabemos
guarnecemos o poema em papel
vegetal
na esperança que
as palavras amoleçam
ou o bolor
cresça entre as fendas

se o poema estiver quente
o tempo encarregar-se-á
de guardar as lágrimas

as nuvens carregam canções
ânsia de donzelas
ao parapeito da janela
como se antecipassem a chuva
pelos mancebos
que cavam na terra o destino
dos pés a caminho da guerra

pouco sabemos
embrutecidos pela ferrugem
e osso do silêncio
que sepultámos na tracção
da saliva
garganta abaixo

*****
na certeza das manhãs, alui-se-me
o sonho. os olhos
debruçados da janela para a rua
alcançam os pingos
de chuva a sumirem nas cabeças
sem chapéu. inunda-se-me
a alma entre a espessura baça
do vidro da janela e
o caleiro.
num instante do vazio, rio,
porque isso do choro é um soro,
que anestesia candida
-mente.
cérebros há que estão enxutos e
desertos, outros pântanos
de areias movediças. eu
comovo-me.

*****
que a voz da palavra te seja mosto
a fermentar na garganta
o vinho encarregar-se-á de ser corpo à boca

não receies a espera
o tempo que demora a ser
só os elefantes sabem o percurso da morte

faz o caminho
ainda que as faces ásperas
as mãos hão-de burilar a pedra
e o rosto luz.

noticiam a probabilidade de cair
neve
espero que não seja mais uma
precipitação
que ainda não me recompus
da última queda
e à poesia supus todos
os precipícios.

*****
dormes
o devir da respiração
no vale entre os teus seios
um rio
pele a luzir todas as estrelas

dormes
na cama a que nus nos entregámos
e te velava o sono
da aurora da noite
ao sol do amanhecer
e eu resistia a dormir
para me cobrir no lençol
que da tua boca
se tecia

dormes
sou um coração ao relento
apenas com o tecto dos teus olhos
e o choro do orvalho na madrugada.

Lilian Westcott Hale. Pinterest



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Marize Castro

AO CAIR DA NOITE
Se amo muito é porque tudo me falta. Transporto ouro, ostras, seixos, salivas, ânforas. O gozo dos leopardos leva-me para arriscados córregos. Lá, moças uivam, rapazes flamejam; cavalos voam; hóstias e granizos soltam-se de rochas perdidas. Ouço uma canção de ninar; sou eu quando criança, brincando com a grande baleia que me visitava quando o oceano enfurecia-se e os homens extraviam-se. Minhas guelras, ainda secretas, foram retiradas ao cair da noite. Tornei-me senhora de penhascos. De onde estou, ouço o choro do sol: neblinas exultam; amantes despedem se; crisálidas desnudam-se; pétalas caem — lentamente — sobre frágil mármore.
[In Esperado Ouro, Natal, RN: UNA, 2005, p. 111]

INTEIRA
Iluminada por oráculos
alimento anjos com asas quebradas.

Não é de vendaval que eu preciso
mas da língua do amor guardada à beira-mar.

Não entendo de círios
mas de verões e sargaços bailarinos.

Acolhida pela província,
arrisco-me a enlaçar orquídeas em árvores.

Sempre sofri.
Sempre tive febre.
Sempre estive inteira em todos os infernos
Nunca quis ser abandonada.
Mas aprendi a perder.

O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.

[In Esperado Ouro,  Natal, RN: UNA,  2005, p. 99]


Hiram Pascal - Pinterest

domingo, 18 de janeiro de 2015

Leandro Rodrigues

POEMAS DE LEANDRO RODRIGUES

A LENDA DA VITÓRIA-RÉGIA
A lua refletida no lago
Uma índia vem e com um dedo
                                [a conquista
Muito antes dos americanos.


HAICAI A VIOLETA PARRA
Estranho o teu canto
Tua voz dissonante
Teu falsete em pranto

ORBITAL
O menino abriu
o livro
Lá estavam as palavras

Os olhos do menino
se abriram
incandescentes - Sol

E tantos outros planetas
já gravitavam
em torno dele.

POEMA PARA A MINHA MORTE
Senhora, abreviarás a madrugada
e em meu corpo o nada:
Uma tristeza que se esqueceu

Virás assim, nua, numa nudez pálida
Nenhuma carta, nenhuma explicação
Apenas o nada.

Senhora, me procurarás, sei
Quando eu menos esperar, estarás
Em frente ao espelho, sem retoques, nem maquiagem

Nenhum não, nenhuma rusga, nenhuma elegia
Apenas tu, Senhora, sem aparência,
                                                nem nostalgia.


A VALSA DOS MORTOS

As nuvens cinzas passam
a tarde é comovida
               - consumida.

São Paulo - Mário de Andrade
e suas avenidas.

a morte é um anúncio na tv
dois homens de bigode e paletós
                         conversam na tarde

Chove!
São Paulo: comoções, aparentes.

O Vazio. Do Trianon à Praça Clóvis
Vazio absoluto.
Nem todos os subúrbios,
todas as misérias pedintes
        preencherão tal vazio.
              (absoluto!)

Do projeto interminável,
os escombros de uma noite,
de um dia que não se fez
(esquecido na memória
ou na ladeira da saudade)

PSICOGRAMA
O poeta finge.
A mulher finge.
Fingem as palavras.
Fingimos-nos todos.
Todos fingidos anônimos marchamos:
para o cadafalso do fingimento
onde a corda balança
ao gosto do vento 
                             -  fingido.

RELÓGIOS ANTIGOS
Dizem que antigamente
quando morria alguém na casa,
paravam os ponteiros do relógio
naquela hora,
Naquele minuto-instante.

E assim permaneciam
dias, semanas...
Como guardando intactos
o momento crucial.

Então, uma  boa mão mais velha
acertava os ponteiros.
E o tempo voltava a correr
irrestrito-incondicional.

Belos relógios antigos,
não apenas contavam as horas, mas
demarcavam o tempo e as existências.


SOBRE O AUTOR:
Leandro Rodrigues, nasceu em 06/01/1976 em Osasco-SP, onde ainda hoje reside. Formado em Letras - Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. Professor de Literatura Brasileira. Leciona Língua Portuguesa e Literatura em Osasco – SP.
Poemas publicados em sites e Revistas:
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/a-golpes-de-martelo/

http://www.vidraguas.com.br/leandro-rodrigues-soneto-ao-cavaleiro-da-triste-figura/
entre outros;
É colaborador do site Zona Da Palavra:
http://zonadapalavra.wordpress.com/2014/02/09/poemas-de-leandro-rodrigues/
Páginas do autor:

http://www.recantodasletras.com.br/autores/leandrorodrigues
http://www.nauseaconcreta.blogspot.com.br/
Autor do livro Digital: A T O N A L OU DAS DISTÂNCIAS DA APRENDIZAGEM CINZA, em:
http://www.nauseaconcreta.blogspot.com.br

1915 - Avenida Paulista. A direita na foto entrada do Parque Trianon - Pinterest

 

 



sábado, 17 de janeiro de 2015

Fernando Sernadas

POEMA EM VÃO

Foi tudo em vão incluído o sono
Todas as guerras todas as mortes
Homens sorridentes jogam a bola
Com a cabeça irreconhecível do inimigo
E o inimigo não existe
Nunca é nada exterior que nos invade a vida
O inimigo somos nós do lado da paz
Da paz que nos ilude
Da metafísica estúpida que nos ilusiona
Tudo em vão tudo tudo
Os tratados, os raciocínios de dor de cabeça
As noites intermináveis no café da esquina
O chão sujo de papéis e lama hoje mais ainda de sangue e vísceras
Precisamos de mais estórias para andarmos bem informados
Da insignificância de nossas vidas modernas e cosmopolitas
Que assim seja o excesso de papel escrito e desenhado
Sempre dá para limpar o cu numa hora de aperto
Tudo em vão tudo tudo tudo
A começar por este poema
E não há como recomeçar

Fernando Sernadas, 16/1/2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Karl Ove Knausgård

          Quando escrevo isso, já se passaram mais de trinta anos. Na janela diante de mim, mal posso divisar o reflexo do meu rosto. Exceto por um dos olhos, que brilha, e pela região imediatamente abaixo dele, que reflete um pouco da luz, toda a minha face esquerda está na penumbra. Dois vincos profundos dividem minha testa, há um vinco profundo em cada bochecha, todos preenchidos de escuridão, e com o olhar sério e perdido, e os cantos da boca pendendo para baixo, é impossível não considerar triste esse rosto.
          O que ficou gravado nele?
***
          A única coisa que não envelhece no rosto são os olhos. Têm o mesmo brilho no dia em que nascemos e no dia em que morremos. Seus vasos sanguíneos podem se romper, é verdade, e as córneas podem se tornar baças, mas sua luz jamais se modifica, Há um pintura em Londres que, toda vez que vejo, mexe comigo. É um autorretrato de Rembrandt velho. As pinturas tardias de Rembrandt em geral se caracterizam  por uma crueza sem precedentes, e nelas tudo se subordina à expressão do momento, a um só tempo reluzente e sagrado, e continuam sem paralelo nas artes, com a possível exceção do patamar que  Hölderlin atingiu nos seus poemas tardios, não importa quão diferentes  e incomparáveis sejam, pois naquilo que a luz de Hölderlin, expressa através da linguagem, é etérea e celestial, a luz de Rembrandt, expressa através da cor, é terrena, metálica e material, mas precisamente esse quadro, exposto na National Gallery, foi pintado com um certo realismo clássico, mais próximo da realidade, semelhante ao estilo do jovem Rembrandt. Porém, o que o quadro retrata é o Rembrandt velho. É a senectude. Todos os detalhes da face, todos os traços nela impressos pela vida, são mostrados. O rosto é enrugado, cheio de vincos, sem viço, maltratado pelo tempo. Mas os olhos brilham e, embora não sejam jovens, parecem imunes ao tempo que imprimiu sua marca no rosto. É como se outra pessoa olhasse para nós de algum lugar dentro do rosto, onde tudo é diferente. Aproximar-se mais que isso de outra alma humana é difícil. Pois tudo que concerne à pessoa de Rembrandt, seus bons hábitos e vícios, os odores e sons de seu corpo, sua voz e expressão, seus pensamentos e opiniões, sua conduta, suas características físicas e defeitos, tudo que distingue um ser humano de outros, já não está ali, o quadro tem mais de quatrocentos anos, e Rembrandt morreu no mesmo ano em que ele foi pintado, então o que o quadro retrata, o que Rembrandt pintou, é a essência desse ser, aquilo para o qual ele despertava a cada manhã, que logo ocupava seus pensamentos mas não era propriamente um pensamento, que ele sentia primeiro mas que não era exatamente um sentimento, e aquilo que a cada noite o fazia adormecer, até que certo dia para sempre. Aquilo que num ser humano o tempo não atinge e de onde provém o brilho dos olhos. A diferença entre esse quadro e os outros que o Rembrandt velho pintou é a diferença entre ver e ser visto. Isto é, nessa pintura ele se vê ao mesmo tempo que é visto, e sem dúvida só no Barroco, com seu jogo de espelhos, play within the play, a vida no palco e a crença na inter-relação de todas as coisas, quando o engenho humano atingiu um nível jamais visto, nem antes nem depois, é que tal pintura foi possível. No entanto, ela existe na nossa época, e é através de nós que ela vê. 

(Excertos de A morte do pai: minha luta 1, tradução do norueguês de Leonardo Pinto Silva, 1a. ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013)

SOBRE Karl Ove Knausgård


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Fany Aktinol

Somos filhos do tempo infinito,
de um tempo que traz sabedoria e leveza,
mas tornei-me criatura tão frágil -
qualquer um pode perceber -
que desmorono ao acaso,
a um lance de dados,
se não respondes
ao meu aceno
quando estás
a meu lado.

Por nada, eu sei, por nada
desmorono numa implosão silenciosa
flutuo ao sabor do vento
perdida de mim
desesperançada de ti
até que o sopro do vento
me carregue daqui.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Mário Cesariny

DE PROFUNDIS AMAMUS
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua    os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal    abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados    maravilhosos    únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

SOBRE MÁRIO CESARINY



                        

sábado, 10 de janeiro de 2015

Alda Merini

Os poetas trabalham de noite
quando o tempo não os aperta,
quando se cala o barulho da multidão
e termina o linchamento das horas.

Os poetas trabalham no escuro
como nocturnos falcões ou rouxinóis
de dulcíssimo canto,
temendo ofender a Deus.

Os poetas, no entanto, com seu silêncio
fazem bem mais barulho
do que uma cúpula dourada de estrelas.

SOBRE ALDA MERINI

[Fonte: blog Rua das Pretas]
Tradução: Albino M. 




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Giorgos Seféris

PRIMAVERA DEPOIS DE JESUS CRISTO

Com a primavera de novo
Ela vestiu cores vivas
E com um passo ligeiro
Com a primavera de novo
Com o verão de novo
Ela se pôs a sorrir.

Entre os renovos
Os seios nus até as veias
Para além da noite árida
Para além dos anciões brancos
Chicaneando em voz baixa para saber
Se não valia mais entregar as chaves
Ou esticar a corda e pendurar-se
E não deixar senão corpos vazios
Onde a alma não mais aguentaria
Onde o espírito faltaria
Onde os joelhos se dobrariam.

Na estação dos renovos
Os anciãos perderam a cabeça
E entregaram tudo absolutamente
Netos, bisnetos,
Campos profundos e montanhas verdes,
O amor e a abundância,
A piedade e o abrigo,
Os rios e os mares,
E partiram como estátuas
Deixando atrás de si o silêncio
Que nenhuma espada cortou
Que nenhum galope arrastou
Nem o grito dos adolescentes;
E veio a grande solidão
E veio a grande privação;
Ao mesmo tempo que essa primavera
Ela se estabeleceu, ela se estendeu
Como a geada da aurora
Suspendeu-se dos mais altos ramos,
Nas árvores insinuou-se
E revestiu nossa alma inteira.

Mas ela, sorriu,
Enfeitada de cores vivas
Qual amendoeira florida
Entre chamas amarelas
E foi-se com passo ligeiro
Abrindo janelas
Para o céu que ria
Sem nós, os infelizes.
E vi seu peito nu,
Suas ancas e seus joelhos,
Tal, subindo aos céus
Escapa às torturas
O mártir irredutível
Irredutível e puro,
Fora dos murmúrios confusos da multidão
Na arena desmedida
Fora da careta negra
E da nuca em suor
Do carrasco extenuado
De golpear cada vez em vão.

A solidão tornou-se um lago,
A privação tornou-se um lago,
Um lago virgem e sem rugas.

[Poemas Giorgos Seféris,  sel., trad. e notas de José Paulo Paes, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 143-144]. 

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...