quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Henry Miller

Excerto de "A hora dos Assassinos"
Os signos e símbolos que o poeta usa constituem uma das provas mais seguras de que a linguagem é um meio de lidar com o inexprimível e o insondável. Assim que se tor­nam compreensíveis em todos os níveis, os símbolos per­dem validade e eficácia. Pedir ao poeta que fale a linguagem do homem da rua é como esperar que o profeta esclareça seus vaticínios. Aquilo que nos fala de esferas superiores, mais distantes, vem envolto em segredo e mistério. O que é constantemente expandido e elaborado pela explicação - em suma, pelo mundo conceitual - está ao mesmo tempo sendo comprimido, sintetizado, pela caligrafia estenográfica dos símbolos. Nós nunca podemos explicar, a não ser em termos de novos enigmas. O que pertence ao domínio do espírito, ou do eterno, escapa a qualquer explicação. A linguagem do poeta é assintótica; corre paralela à voz in­terior quando essa se aproxima da eternidade do espírito. É através desse registro interior que o homem sem linguagem, por assim dizer, entra em comunicação com o poeta. Não se cogita aqui de educação verbal, mas de desenvolvimento espiritual. Nada deixa mais evidente a pureza de Rimbaud que esse diapasão intransigente que manteve em toda a sua obra. Ele é compreendido pelos tipos mais diversos e tam­bém se presta aos maiores equívocos. Seus imitadores po­dem ser detectados imediatamente. Nada tem em comum com a escola dos simbolistas. Nem com os surrealistas, pelo menos a meu ver. E pai de várias escolas, sem ter criado nenhuma. O atestado de seu gênio reside no uso extraordi­nário do símbolo. Simbologia moldada em sangue e angús­tia. Simultaneamente protesto e tergiversação da desoladora difusão de conhecimentos que ameaçava sufocar a fonte do espírito. E também janela que se abria para um mundo de relações infinitamente mais complexas para as quais a velha linguagem de signos não mais servia. 

[In A hora dos Assassinos (Um estudo sobre Rimbaud), Tradução de Milton Persson, Porto Alegre, L&PM Pocket, 2010, p. 46]


MURAT

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

sentei-me na folhagem deste dia sem muralhas, desfiei o pólen do teu abraço imaginário, decantei o sorriso como cerzideira dos ramos, fendas que são os dedos sobre a palavra a esvoaçar qual pétala que te colho do chão. e depois sobra-me um vulto, a ser ordem do afecto, desordem dos flancos fosfóricos, coisas incisas e indóceis onde o tempo se demora e eu me atraso a ser ressalva, como se chagall fosse mais lírico que onírico ou nervo estridente, é que no chão de hoje a rosa que era só pálpebra fez-se presença latejante. por isso esta mensagem ou apenas carta de narrar, andamento heterónimo de todas as pausas.

[In As Lágrimas Estão Todas Na Garganta do Mar, Lisboa: Arcádia, 2010, p. 389]


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Cristina Campo

[...] O modo que tem um poeta de extrair do seu trabalho passado novas iluminações para a sua consciência, é parecido com o de Münchhausen para alcançar a lua: cortando a corda por baixo de si para a alongar por cima.

A pura poesia é hieroglífica: só decifrável em termos de destino. Durante anos tornar extáticos à beleza dos gansos, dos archeiros, dos deuses com cabeça de cão ou de milhafres, sem suspeitar sequer da sua fatal disposição. Quantas vezes não repeti para mim mesma certos versos ou versículos: «Ó cidade, eu escrevi-te nas minhas palmas das mãos», «This day I breathed first, time is come round...», «O estar morto não nos dá o sossego». Mas em torno da sua posição secreta, enquanto a minha própria sorte não me deu a sua chave, corri eu cegamente: como que em volta de uma coluna historiada de que fosse descobrindo só uma figura de cada vez: o escriba, a serpente, o olho.

Poesia hieroglífica e beleza: inseparáveis e independentes. Sentir a justiça de um texto muito antes de ter compreendido o seu signifi­cado, graças àquele puro timbre que pertence apenas ao estilo mais nobre: o qual por sua vez nasce da justiça. «A mente minha tres­passada e roubada / pelos ladrões meus pensamentos / que me pro­meteram o tempo e não esperaram...».

Tal como na natureza, que só é bela por necessidade real, tam­bém na arte a beleza é um suplemento: é o fruto inevitável da necessidade ideal. [...]

[In Os Imperdoáveis, tradução de José Colaço Barreiros, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pp. 151-152]. 



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ruy Belo

I
QUASI FLOS
A morte é a verdade e a verdade é a morte

Tão contente de vento, ó folha que nomeio 
como quem à passagem te colhesse, 
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim 
do alto da tua inatingível condição

De muito longe vinda, inviável lembrança 
indecisa nas mãos ou consentida 
por alguma impossível infância 
E a alegria é uma casa recém-construída

Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá

Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida

(O PROBLEMA DA HABITAÇÃO - Alguns Aspectos)

In Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. ed., 2009, p. 139.


Pyotr Konchalovsky

sábado, 26 de outubro de 2013

Dora Ferreira da Silva

NOITE ESCURA
Eras tu atravessando o semáforo de sinal fechado 
entre noite e neblina? Bem sei que não mudas apenas 
o jeito dos cabelos e o modo de acentuar os olhos 
e nem é só outro o vestido de tua feminilidade 
ou tua força contida de homem e de sol.
Não é a lua que altera teu humor 
nem os móveis que te circundam 
e o jardim nu ou com flor. 
Mas é meu o medo de não reconhecer-te 
ao dobrar a esquina, ao virar para o outro lado 
na cama fixando a mancha na parede.
É a hora do medo que antes de mim desapareças 
deixando a dúvida de tua prisão ou morte.
Partiste sem deixar bilhete.
Foste todas as coisas esplêndidas
e as banais: Deus e a rua
a folha e o pó. Chamo-te de muitos nomes
e a nenhum respondes. Procurei nos muros (em vão)
o grafito de tua morte. Continuarei chamando
não a Deus (que as palavras violentam)
mas o Poema entre noite e neblina
e principalmente te suplico:
não morras antes de mim.

In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 1999, pp. 337-338.


SERVANDO CABRERA MORENO

Mário Faustino

O SERVO NOVO AO SOM DE CUJA LIRA
O servo novo ao som de cuja lira 
Agora dormes, Rei, aqui maldigo 
E invejo; neste burgo forte e quieto,
Em plena primavera de oliveiras,
Venho sonhar contigo e teus perigos, 
Teus combates, teu riso, teu pecado; 
Vestido, farto, amado, longe, ah, longe 
Do teu flamante outono de granadas, 
Verme seguro, salvo, tremo, ao ver-me 
Mendigo de loucura, medo e crime;
À sombra deste lírio duro, lívido,
Canto a flexível flor de fogo, amável 
Embora amarga e irmã da que sabíamos 
Lamber os muros roxos de outro inferno.

In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 155.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Maurício Ferreira

O QUE ISAÍAS DISSE A MADALENA E TOMÉ NUM BAR DA FREI CANECA
1
Essa é uma cidade de desesperos controlados.
Os prazeres permanecem intrínsecos à lógica da metrópole, 
coroando-nos com espinhos trançados em ponto-cruz, 
branca a pele de nossa textura de mártires.
Feridas em sangue e glicose; tabaco e anilina vermelha, 
groselha de gente nas festas de dezembro.
Libertinagem de vazios.
Teu amor, Maria,
a morfina ideal para simular um coração no oco do peito.
E quando em ternuras de conhaque e anfetamina
te toco os lábios abertos de manticore, 
afilados para meu corpo 
como que ereções do diâmetro do mundo;
Quando eu te toco,
vêm à mente a noção exata do quanto de prisão 
existe nas profecias.
II
Poderia um gemido sincero sacudir a cidade.
Mas somos fracos, falsos sofredores.
Ferro e vidro recheando pele de espelhos, 
não nos importa as dores não existirem de fato.
Afinal de contas,
o que existe além do alcance dos teus olhos, Tomé?
Tua língua já experimentou o próprio gosto?
Nos fartamos de carne moída com trigo e mostarda,
a benção do Símio fugindo enquanto pulávamos sob luzes 
mecânicas e movediças.
O horizonte como uma profecia perdida 
entre blocos de concreto.
III
Mas não vos assusteis.
Um dia sete lobos descerão arcanjos.
Entoarão hosanas e mantras durante três dias e três noites.
Rasgarão o celestial das vestes e nus, afiados dentes, 
mastigarão o cérebro dos entediados.
Mas se não vierem,
por favor, não me perguntem.

Do alto do fio elétrico cantará um pardal ao final das tardes.

In Inquietação-Guia 15 poetas em torno da Azougue, organização Sérgio Cohn, Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2009, pp. 159-160. 

MANTICORE


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Miodrag Pávlovitch

BOSQUE DA MALDIÇÃO
Bosque da maldição 
estandarde do crepúsculo 
destinos chegam 
para repousar

Coleções de cadáveres 
bóiam sob a terra 
nomes esquecidos 
brotam com as pedras

Dias perdidos 
sóis esparramados 
feito nuvens mortas 
afogam-se no rio

Os séculos conversam por telefone
apenas a mentira
imagina ter direito ao regresso

Miodrag Pávlovitch, Poetas do Mundo, Bosque da Maldição, Sel., Trad., Introd.,  Aleksandar Jovanovic, Brasília: Editora UNB, 2003, p. 67.

Camille Pissarro 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Maria Gabriela Llansol

Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te 
Chamas? Literatura. Nome estranho para um 
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto 
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se 
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo, 
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção, 
Sentir fome, estar com frio, respirar tubo de escape. Dei-lhe 
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o 
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome 
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria 
A própria escrita.

In O começo de um livro é precioso,  Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, p. 84

Katherine Ross Robinson



domingo, 20 de outubro de 2013

Paulo Leminski

ROSA RILKE RAIMUNDO CORREIA

Uma pálpebra,
mais uma, 
mais outras, 
enfim, dezenas de pálpebras sobre pálpebras 
tentando fazer 
das minhas trevas 
alguma coisa a mais 
que lágrimas

Sobre Paulo Leminski

In Melhores Poemas Paulo Leminski, seleção Fred Góes Álvaro Marins, São Paulo, Global, 2002, p. 133

Roberto van der Ploeg

sábado, 19 de outubro de 2013

Manuel António Pina

O medo
Ninguém me roubará algumas coisas, 
nem acerca de elas saberei transigir; 
um pequeno morto morre eternamente 
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente 
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte 
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada, 
nem de algumas palavras juntas?

In Nenhum Sítio, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 107. 

AGHA

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Stéphane Mallarmé

BRISA MARINHA
Triste carne, ai de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos 
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus! 
Nada, nem os jardins espelhados nos meus 
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade 
No branco do papel que o vazio rejeita 
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita. 
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga 
As amarras, demanda outra exótica plaga!
Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios 
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios 
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus...
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

SANTA
À janela onde se recolhe 
O sândalo velho e já gasto 
Da viola que muito outrora 
Brilhara, com mandolina ou flauta,

Está a Santa pálida, que mostra 
O livro velho desfolhado 
Do Magnificat, outrora esparso, 
na prece vesperal:

A essa vidraça de custódia 
Que rasa uma harpa formada 
Pelo Anjo em seu noturno voo 
Para a falange delicada

Do dedo que, sem o velho sândalo 
Nem o velho livro, ela estende 
Sobre a instrumental plumagem, 
Na música só do silêncio.

Sobre Stéphane Mallarmé

In Sthéphane Mallarmé - Poemas lidos por Fernando Pessoa, tradução e prefácio José Augusto Seabra, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, pp. 56-57.


MATISSE

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Zulmira Ribeiro Tavares

O ARQUITETO E A BAILARINA
Como um compasso 
as pernas de aço abertas

Primeiro uma perna no chão 
a outra perna na barra

Depois a troca das duas 
pontas da sapatilha

Com os pés em ponta ela faz
aquilo que ele lhe ensina

O compasso nas mãos que o seguram 
se abre e desenha um círculo

No umbigo ele a beija com a língua 
como ajusta um parafuso

Sem exasperar a pressão 
insiste e abre caminho

Avança seguro e cego — 
na reta o ponto de fuga

Depois com mãos que arquejam 
desenha a planta do mundo.

[In Vesúvio, São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pp. 66-67]. 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

T. S. Eliot

IV
Eis os que pretendiam edificar o Templo,
E os que desejariam edificado ele não fosse.
Nos tempos de Neemias, o Profeta,
Quando exceção alguma à regra se fazia.
No palácio de Susa, no mês de Nissan,
Ele o Rei Artaxerxes fez regalo de seu vinho
E aflito se mostrou pela cidade derruída, Jerusalém;
E o Rei deixou então que ele partisse 
Para que fosse a cidade enfim reconstruída.
E assim ele seguiu, com uns poucos, rumo a Jerusalém,
E lá, ao cruzar a fonte do dragão, sob a porta da fossa,
Sob a porta da fonte, junto ao açude do rei, divisou 
Jerusalém que devastada se prostrava, consumida pelo fogo; 
Nenhum lugar havia que uma besta ali trilhasse.
A sua vista os inimigos se alinhavam em desafio,
E à sombra rastejavam os espiões e oportunistas
Quando ele e os seus principiaram a soerguer o muro. 
Assim edificaram eles como devem edificar os homens.
A espada numa das mãos, na outra o aço do ofício.

In Coros de "A Rocha", Poesia, T. S. Eliot, Tradução, apresentação, introdução e notas de Ivan Junqueira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 192-193.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Maria Lúcia Dal Farra

V
BÍBLICAS DE SANTA TERESA D’ÁVILA

I
Era uma vez uma mulher 
que foi tocada pelo amor celeste.
O Senhor fez nela o seu piano
— a maneira íntima de deitar as mãos sobre o humano. 

Que forte sopro é este que se infunde em mim?

Com sua vara
Ele arranca água deste ermo 
sulcado em marfim.
Com o polegar no sol 
põe-me dentro da luz — 
sou solista da sua voz.

E porque leio os sinais
na clave bem temperada do corpo,
solfejo freneticamente as esferas.

Ah oratório dos meus pecados!
II
Procuro nas trevas tua voz 
enquanto lanças sobre mim a espada. 
Fustigas no meu corpo tempestades más 
— não reconheço nelas teu espírito.

Por que me abandonaste, ó Senhor, 
se debaixo da tua vindima 
mitiguei tua sede, 
se pelos campos afora 
me abri ao teu agrado?

Apóia em mim tua face 
transborda em mim tua carne 
e
acima do céu ou do inferno 
dá-me o prazer eterno, amém!
III
E o Senhor criou a mulher!
Deu-lhe crina de fogo ondulante 
regiões da mais delicada força 
uivos arrebatados na treva 
coisas de incontida beleza.

Sou um sacrário prenhe de palpitações do espírito 
onde o cálice se reserva para o festim.
E (clara) uma luva está sempre prestes 
a ascender em mim a pomba que enaltece.

Voo de guerra que atravessa as plagas 
do desde baixo até a mais profunda ascese, 
exército urdido na solidão 
para o clarim do dia primevo!

É quando a espada rasga o corpo 
é quando (pelos dons do Senhor) 
me reverto em seu espelho.
Imagem e semelhança.
IV
És tu que tens na mão a minha parte!

Que se alevante então 
a montanha encoberta 
e que os incensos inundem de cheiros 
a entrada das cavernas mais secretas!

Meu peito é o horto da paixão, 
oliveiras no aguardo do vento forte!
Honra esta casa
 — esta lareira — 
sobe a escarpa 
atiça o vulcão!

Dos teus olhos só vem o que é reto!
Por isso te peço:
desce sobre mim o raio piedoso.

Senta-te à mesa, dá-me o teu fruto, 
indica-me (desde a direita) quais as delícias. 
Devolve do teu arbusto a minha seiva!
E dentro da tua mais excelsa indulgência 
faz de mim tua serva — e serventia tua!
V
O Senhor partiu para seu monte 
e as regiões se quedaram desabitadas 
como a solidão mais antiga!

O tempo ruiu-se sobre a manhã...
Nenhuma aragem fina
vem deitar sua mirra sobre este leito de morte!

Onde os cardos para o meu diadema?

[In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, pp. 73-77].


O ÊXTASE DE SANTA TERESA - BERNINI
igreja de Santa Maria della Vittoria -  Roma.





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Juan Ramón Jiménez

VENDAVAL
Ó sino de França, choras 
pelas amadas de Espanha? 
Todas mortas... Todas vivas, 
enterradas em minh´alma.
Comigo estão todas, ai!
E eu, tão só entre tantas.
E como choras, com elas, 
por mim, ó sino de França.
Estala abril. As glicínias, 
como almas, se levantam 
para o céu; minhas tristezas 
se levantam como almas; 
minhas almas, todas olhos, 
azuis e negras... Ó sino, 
sino, sino, sino, chora 
pelas amadas de Espanha.
Ah, como olhavam; e como
beijavam, como falavam!
E seus olhos se fecharam, 
suas bocas já não falam, 
já não beijam; pois se voltam 
para outros, seus olhares, 
pois inflamam outros lábios 
e dizem outras palavras.

In Carlos Drummond de Andrade - Poesia Traduzida, São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 189


Hendrick van Anthonissen



domingo, 13 de outubro de 2013

W. H. Auden

ACALANTO
Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas 
Tempo e febres consomem lentamente 
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras 
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia, 
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para 
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam 
No seu declive indulgente e encantado, 
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda 
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado; 
Enquanto uma abstrata intuição desperta, 
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam 
Quando bate meia-noite o relógio 
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar — 
Assim o prevê o baralho mofino —
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento, 
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar.

A beleza, a meia-noite e a visão morrem: 
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram 
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja 
Nutrida pela força involuntária 
E permita-te ir a noite adversária 
Guardada pelo amor universal.
(J. M.J.)

Sobre W. H. AUDEN 

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, pp. 45-47]

                 Rio Villegas 

sábado, 12 de outubro de 2013

Mariana Ianelli

A FÁBULA DE SÉRAPHINE
Séraphine Louis tinha treze anos quando partiu de Arsy, onde pastoreava ovelhas, para trabalhar na casa da condessa de Beaumini, em Paris. Mas Paris não era lugar para Séraphine, ela voltou. Aos dezoito, foi empregada no convento Charité de la Providence, em Clermont. Passou ali vinte anos. Partiu novamente. Foi trabalhar nas casas dos burgueses de Senlis, na casa de Mme. Mong, na casa de M. Chambard. Até que, em 1906, Séraphine com quarenta e dois anos, a Virgem lhe apareceu na catedral Notre-Dame de Senlis.

“Séraphine, você deve pintar!”

Obediente e devota como era, Séraphine começou a pintar. Inventava suas misturas usando Ripolin comprado na drogaria da praça do mercado. Pintava à noite, no seu quarto feito atelier na rua Puits-Tiphaine. Os de Senlis se divertiam com a empregada que pintava quadros. Debochavam da mulher sem instrução, que dizia ter visto a Virgem e pintava salmodiando os cânticos das freiras de Clermont.

Em 1912 apareceu na pequena vila, vindo de Paris, Wilhelm Uhde, um aristocrata alemão. Procurava um retiro não muito longe da cidade das artes e em Senlis encontrou esse lugar. A catedral gótica da vila o seduzia com suas histórias de Deus e de reis. Nessa época, Uhde já colecionava obras de Picasso e enfrentava a desconfiança dos marchands para expor artistas ainda à sombra da história e do mercado, como Henri Rousseau e Marie Laurencin.

Em Senlis, Uhde se instalou num apartamento na praça Lavarande. Todas as manhãs uma mulher que lhe haviam recomendado vinha fazer a faxina. Era Séraphine. A insignificante, insólita Séraphine. Quando Uhde viu pela primeira vez um de seus quadros, uma pequena natureza-morta com maçãs, não se conteve: “Cézanne ficaria feliz de ver essas maçãs”. Sob a vista sarcástica da gente da vila, Uhde encorajava Séraphine a pintar, comprava seus quadros, mostrava-os aos amigos parisienses.

Veio a Primeira Guerra, muitos debandaram de Senlis. Uhde, perseguido, despareceu. Mais de dez anos se passaram até o improvável acontecer. Desta vez, de Chantilly, Uhde vinha para uma exposição de pintura regional na prefeitura de Senlis. Percorrendo a grande sala, no meio de toda aquela arte provinciana, estacou diante de três telas: um ramo de lilás, uma cerejeira, uvas negras e brancas.

Lá estavam as cores da rosácea medieval, as flores semoventes de Séraphine, suas árvores estreladas, águas-vivas, borboletas-cauda-de-andorinha, peixes-mandarins. Três quadros, e lá a inteligência sensível, autodidata, que resolvia na pintura, com seu métier secreto, as questões de cor, equilíbrio e harmonia. Uhde pensou no Cântico de Salomão. Sentiu que badalavam juntos os sinos de Saint-Fraimbault, de Saint-Aignan, de Saint-Hilaire.

Nenhuma palavra sobre Séraphine na imprensa local que noticiava a exposição enquanto os jornais de Paris divulgavam a descoberta evocando a arte do Extremo Oriente. A velha empregada agora abandonava a faxina, pintava de três a quatro telas por semana, tinha de volta seu mecenas e colecionadores na Alemanha, em Londres, em Paris.

A bonança duraria pouco. Era o fim dos anos loucos na França. Começavam a irradiar os maus tempos da grande crise de 1929. Menos de dez anos depois explodia a Segunda Guerra. Uhde já não podia sustentar Séraphine, que, por sua vez, ia submergindo na loucura.

“Ideias de perseguição; alucinações auditivas; alucinações visuais”, assinalou o médico no documento de admissão de Séraphine no asilo de Clermont-de-l’Oise em fevereiro de 1932. Vieram os anos de miséria, alienação e nenhum quadro. A visionária que imaginava um cortejo iluminado no dia da sua morte foi enterrada numa vala comum no ano de 1942. Uhde viveria cinco anos mais.

Aquela pintura inspirada, magnificamente colorida, hoje pertence ao acervo de vários museus da França. Dizem que brilha como se ainda estivesse fresca. Essa pintura cuja técnica vem de uma mistura indecifrável. Algo que contém Ripolin, às vezes verniz, e o óleo santo da Notre-Dame da pequena vila de Senlis.

[Crônica publicada no dia 12/10/2013, na Revista Digital RUBEM]


Marianne Moore

POESIA
Também não gosto: coisas mais importantes que toda essa baboseira.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo,  a gente acaba descobrindo 
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.
Mãos que agarram, olhos
que se dilatam, cabeleira que se eriça
quando preciso, são coisas importantes, não porque se

lhes pode impor pomposa interpretação mas por serem
úteis. Quando se tornam tão derivativas que ficam ininteligíveis, 
o mesmo se pode dizer de todos nós, pois 
não admiramos aquilo que 
somos incapazes de compreender: o morcego
 pendurado de ponta-cabeça ou em busca de algum

alimento, elefantes em marcha, um cavalo selvagem a se espojar, um lobo
infatigável embaixo
de uma árvore, o crítico impassível a crispar a pele como um cavalo mordido
por pulga, o fã do
beisebol, o estatístico — 
nem é válido
ter preconceito contra “documentos comerciais e
livros didáticos” *; todos esses fenômenos são importantes. Contudo, a gente deve
fazer uma
distinção: se um semipoeta os realça à força, o resultado não é poesia, 
nem, enquanto nossos poetas não forem “literalistas
da imaginação” ** — acima
da insolência e da trivialidade — e não apresentarem

para inspeção “jardins imaginários com sapos de verdade”, teremos acesso a 
ela. Até lá, se exigir, por um lado, 
a matéria-prima da poesia em 
toda a sua primariedade e 
aquilo que é, por outro lado,
genuíno, então você tem interesse por poesia.

__________________________________________

* Diário de Tolstói: “Jamais serei capaz de compreender onde fica a fronteira entre prosa e poesia. Essa questão é discutida em manuais de estilo, mas não alcanço a resposta. Poesia é verso; prosa não é verso. Ou então poesia é tudo exceto documentos comerciais e livros didáticos".
** Literalistas da imaginação.  Yeats, Ideas of good and evil (A. H. Bullen, 1903), p. 182. “A limitação de sua visão derivava da própria intensidade de sua visão; era um realista da imaginação demasiado literal, assim como outros o são da natureza; e, como estava convencido de que as figuras vistas pelos olhos da mente, quando a inspiração as exaltava, eram ‘existências eternas’, símbolos das essências divinas, repudiava toda graça de estilo que pudesse obscurecer suas ca­racterísticas.”

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 168-169].


RENOIR




sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Emily Dickinson

Um certo Viés de luz,
Tardes Invernais
Que oprime, como o Peso 
De Sons de Catedrais —

Dá-nos Dor Celestial 
Não vemos cicatriz,
Mas diferença interior,
Onde os Sentidos, são —

Ninguém lhe ensina — Nada 
Seu Lacre, o Desespero — 
Aflição imperial 
Que nos envia o Ar —

Vem, e a Paisagem escuta-o 
Fica expectante — a sombra 
Parte, e é como a Distância 
Perante a visão da Morte —

In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 177. 

MONET

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Jorge Luis Borges

Eclesiastes, 1,9
Se passo a mão de leve sobre a fronte, 
se afago as lombadas desses livros, 
se o Livro das Noites reconheço, 
se giro a terceira fechadura, 
se me demoro no umbral incerto, 
se uma dor incrível me atordoa, 
se recordo a Máquina do Tempo, 
se recordo o tapete do unicórnio, 
se mudo a posição enquanto durmo, 
se a memória me devolve um verso, 
repito o ritual inumeráveis 
vezes em meu assinalado rumo.
Não posso executar um ato novo, 
teço e torno a tecer a mesma fábula, 
repito um repetido decassílabo, 
torno a dizer o que outros me disseram, 
as mesmas coisas sinto, sempre à mesma 
hora do dia ou da abstrata noite.
Noite após noite o mesmo pesadelo, 
noite após noite o austero labirinto.
Sou o cansaço de um espelho imóvel 
ou o pó de um museu.
Somente algo indesejado espero,
só espero esse dom, ouro da sombra, 
essa virgem, a morte. (O castelhano 
permite esta metáfora.)

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 310-311

Kyung Hoon Min

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Astrid Cabral

XXXVII
Ó Zenóbia, augusta rainha, 
pergunto pelas caravanas 
dos mercadores de tâmaras 
seus lerdos tardos camelos 
cargas de almíscar e sedas 
entre montanhosas corcovas. 
(Embalde caçar na areia 
os traços desses rastros)
O Zenóbia, augusta rainha, 
pergunto pelos exércitos 
de aguerridos soldados 
seus lépidos cavalos bravos 
sustentando justas lutas 
contra o império romano.
(A poeira apagou as pegadas 
e manchas de muito sangue)
O Zenóbia, augusta rainha, 
não mais correm as moedas 
que um dia cunhaste em 
atitude de sã rebeldia.
Neste deserto de Palmira 
tão eixo e coração da Síria 
até a necrópole está vazia.
Nas nobres torres funerárias 
e hipogeus desertos sequer 
os ossos testemunhos de gente. 
Ó Zenóbia, augusta rainha, 
os ovos que auguram a vida 
em tantos baixos-relevos 
jamais romperão das cascas.
Agora tudo o que em teu chão 
pulsa e corre são as negras 
veias de petróleo irrigando 
remotos aglomerados de homens 
onde carros mecânicos correm 
em vez de camelos e cavalos.
O sangue contudo escorre 
em outros corpos e guerras brutas 
e novo comércio ora se faz 
com moedas recém-cunhadas.
O Zenóbia, augusta rainha, 
atores novos em cenário insólito 
bisamos a velha História.

In Torna-Viagem, In De déu em déu -  poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 127-128.

Zenobia
 Harriet Hosmer

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ana Luísa Amaral

ESCRITO À RÉGUA
O poema sustenta o universo 
Como um equilibrista
Muito breve

Ancorar o sentir 
em instrumento certo e 
objetivo:
um quilômetro agora de palavra, 
depois a solidão enumerada, 
e em frente:
o quase abismo

Sem guia modelar,
subir a pulso
os mil degraus do verso,
e não voltar
atrás:

Pela última vez, 
medir periferia do olhar: 
quarenta mil centímetros, 
o mesmo que dizer 
quarenta metros 
de uma escala exata

No fim,
lançar a régua contra o vento, 
lançá-la em direção 
à nuvem mais distante

E ter aos pés 
coisas que tinha antes: 
mandrágoras, dragões, 
ligeiríssimo grifo arrebatado,

uivante
sílaba  

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 57

O COLOSSO
GOYA




domingo, 6 de outubro de 2013

García Lorca

TRÊS RETRATOS COM SOMBRAS

VERLAINE
A canção,
que nunca direi,
adormeceu em meus lábios.
A canção 
que nunca direi.

Entre as madressilvas 
havia um vaga-lume, 
e a lua feria 
com um raio a água.

Então eu sonhei
com a canção
que nunca direi.
Canção cheia de lábios
e de álveos distantes.

Canção cheia de horas
perdidas na sombra.
Canção de estrela viva
sobre um perpétuo dia.

BACO
Verde rumor intacto.
A figueira me estende os braços.

Como uma pantera, sua sombra 
espreita a minha lírica sombra.

A lua conta os cachorros.
Equivoca-se e começa de novo.

Ontem, amanhã, negro e verde, 
rondas meu cerco de lauréis.

Quem como eu te quereria, 
se me mudasses o coração?

... E a figueira grita para mim e avança 
terrível e multiplicada.

JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
No branco infinito,
neve, nardo e salina,
perdeu sua fantasia.

A cor branca anda 
sobre um mudo tapete 
de penas de pomba.

Sem olhos nem ademã 
imóvel sofre um sonho.
Mas treme por dentro.

No branco infinito, 
quão pura e longa ferida 
deixou sua fantasia!

No branco infinito.
Neve. Nardo. Salina.

In Canções (1921- 1924), In Obra Poética Completa, São Paulo, Martins Fontes, 1996, trad. Willian Angel de Mello, pp. 299-301



sábado, 5 de outubro de 2013

Murilo Mendes

Anti-Elegia N° 3
As magnolias avançam com um ímpeto inesperado 
São ombros nus é o luar o vidro de veneno 
Deve haver um homicídio uma pergunta à esfinge

Um ultimato ao sonho um arroubo do universo. 
À meia-noite em ponto bate o mar na varanda 
É impossível deixar de acontecer alguma coisa 
Há uma espera vã — raptaram as nebulosas.

Canção
Vejo as nuvens decotadas 
Ouço o murmúrio do mar 
Palpo a matéria de pedra 
Espero a amada voltar.

Desespero... espero em vão.
Este céu que não acaba 
E esta amargura que me faz viver,
Que vem soprando desde a eternidade.

Delírio Divino
O lirismo de Deus aumenta súbito 
Oscila o infinito nas bases 
Metafísica da física
Brota uma violeta nos anéis de Saturno 
Alguém desfolha um ciclone 
Os aeromoços corteses 
Penteiam a cabeleira das filhas do demônio 
Deus com fome 
Mata um homem e come.

In Os Quatro Elementos, Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 380-381].


Murilo Mendes

REVELAÇÃO Quando me inclinei sobre a água, a estrela saíra, O parque elaborando curvas a seu gosto. Um rumor de pássaros fixou-se na folh...