quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ana Luísa Amaral

SONS, E ALGUMA VIDA
Nunca viveu a sintaxe
de coisa outra
que não fosse um caos
ameaçado

E a ordem
esteve sempre em recessão
desde o primeiro
acaso

Nunca as coisas
de dentro
entraram dentro
em tom propositado

E o sentido
foi sempre sentimento
mesmo quando
ensaiado

Nunca em suma
se obteve
a soma
concluída

Porque a soma
imperfeita
foi o metro
de que se fez a vida

PEQUENA ODE, EM ANOTAÇÃO QUASE BIOGRÁFICA
Bom dia, cão e gata,
por essa saudação e de manhã,
o corpo de veludo, a língua suave,
em simultânea tradução:
bom dia

Bom dia, sol, que entraste aqui,
me ofereces este espelho
onde me vejo agora, e tão de frente,
tornaste um pouco clara a folha de papel
e nela: em faixa transparente,
o tempo

Bom dia, coisas todas que brilham na varanda,
folha de japoneira, o nome cintilante,
o som daquele pássaro,
como se o mundo, de repente,
se fizesse mais mundo, e de maneira tal
que nunca mais se visse
escurecente o dia

Bom dia, gente pequenina
que não consigo olhar desta cadeira,
mas que está: formigas e aranhas,
minúsculos insectos
que hão-de morrer, mas aqui nascerão,
todos os dias

Bom dia, minha filha, igual a girassol,
quantas mais vezes te direi bom dia,
olhando o corredor,
tu, já não de baloiço, mas de amor
e pura filigrana,
eu, quase entardecendo

Bom dia, meu sofá,
onde me sento à noite, e devagar,
as flores que ora não são, ora às vezes
povoam esta mesa, a porta em vidro,
iluminada, em mais pura esquadria,
livros e quadros, curtas
fotografias em breve
desalinho

Bom dia, a ti também,
pelo perfume em fio que me trouxeste,
como se encera um chão rugoso de madeira,
os veios de uma planta desejosa de folhas,
ou mesmo as falhas na paz que me ofereceste,
e que desejo tua

Mesmo no tom cruel
que é acordar todos os dias
para um mundo sem sol em tantas mãos,
mesmo nesse desmando e tão violento curso
que é o mundo,
ainda assim, esta pequena anotação
de abrir os olhos e dizer bom dia,
e respirar de fresco o ar de tudo
em tudo –

DO JUSTO EXCESSO
OU DOS PEQUENOS FURTOS
Um dia, num poema,
ao servir-me do verso de um poeta,
cortei-lhe uma palavra

Não foi por mal que censurei o verso:
a distracção, a havê-la,
foi em puro desvelo,
um sentir-me tão quente e abraçada
que lhe errei o seu espaço
por amor

Não foi por mal,
não pensei que esse verso tinha tantas palavras a cobri-lo,
que uma palavra a menos:
ínfimo cobertor em noite
morna

Mas o espaço sem forma
de o verso lá não estar
podia de entre as pedras
fazer nascer a mais rasante cor,
o justo excesso, e mais por isso ainda,
a terra onde vivemos:

bater quase invisível
de haste de girassol,
abrindo brechas pelo chão
do mundo

Não foi por mal o corte da palavra
no verso do poeta,
nem quem depois olhou o meu poema
viu crime de maior

Mas hoje ainda
o roubo me persegue:
pensar num cobertor de sílabas tão leve
sustendo uma paisagem
com sons e gente
ao fundo

OS MOMENTOS INTACTOS
Recursos de marítimo conforto.
Verde e azul. O voo das gaivotas.
Degraus barrocos, velha habitação
que me utilize os móveis e mantenha
intactas as sombras, alguns cantos.
E por arritmados decassílabos,
todavia correctos na contagem,
limitar a gaivota a sete letras
e o mar a três. Em antiga cabala.

E OUTROS, MENOS INTACTOS
Em torno das ideias, elas dançam
num compasso feroz, descompassado
e belo de sentir. De entre a magia
contundente e clara, anunciam doeres

antecipados. São pequenas clareiras
do instinto, são caminhos de sol
cumprindo o sortilégio da paixão.
E em torno das ideias por fazer

dançam com passos leves e doentes.
Comungadas do fogo que se escoa,
tombam por fim, exaustas e descalças,
aligeiradas dos tambores da mente.

SENTIDOS
De vez em quando,
uma emoção em falso,
a ferida abre-se:
e eles entram solenes,
os meus mortos

Migram dos sítios quentes
onde os tenho de cor,
e as folhas do arbusto na varanda
em frente à minha cama
trazem as suas vozes

E quanto mais a luz é sobre a ferida,
mais eles aí estão

Cobre-as, às folhas,
o cortinado da janela larga,
e o que avisto daqui
é só um gume a verde,
de nem fotografia
porque em dança

Não me assustam
nem gritam, os meus mortos,
só me lembram que a chuva
que agora se insinua devagar
lhes foi tempo e morada,
e eles a mim

Que alguns deles olharam
nesta mesma varanda
as mesmas folhas,
mais jovens e mais verdes,
ou que outros deles viram outras folhas,
mais jovens, mas sem cor

Neste tempo de agora que os não tem,
aos meus mortos,
cresceram pouco as folhas,
e a emoção em que os tropeço, e a mim,
não os fazem nascer

(Tomara o lume
que as mantém em vida
fosse o gume na ferida
de os não ter)


CRESCIMENTO
As minhas duas horas da manhã
transformaram-se
em séculos
de tanto as desejar,
de tanto que as cantei

deixaram de ser minhas
e como filho grande
entram incontroladas pelo tempo,
namoram outros tempos,
outras vozes.

Somadas meias horas,
Dizem-se às vezes três:
súbito casamento consumado
e a casa cheia
em séculos.
 
PEQUENA FÁBULA
DA MORTALIDADE
E lava os dentes como bom mortal,
que a riqueza não paga esse cansaço.
E os olhos eriçados de ambição
confunde-os ele a azul iluminado.

Toma um pequeno almoço que será
um pouco menos torto que os demais,
café, meia toranja, quiçá um sumo
leve de laranja e curtos cereais.

Verá a névoa a desprender-se, suave,
da erva, como pálido vapor?
E ficará em espanto nessa névoa,
como o outro, em esplendor?

Provavelmente, não, mas não se sabe,
sabe-se só que nesse dia sai
e volta aos seus assuntos imortais,
astutos e preclaros e enxutos.

E um dia qualquer, como qualquer
mortal em frente aos dentes e ao espelho,
há-de passar a estado de erva quente,
ou fria, consoante for estação.

Outro virá, noutro espelho em função
menos ou mais acesa. Só a erva,
feliz por ser só erva, ficará,
não se sabendo ela também mortal.

Como de resto tudo o que se encontra
abaixo de uma linha estranha e torta,
que em nós: ausente de definição.
Mas a suspeita existe, se a escutarmos

de um reduto de som. E esse: comum
ao pequeno fulgor que a sustentou.
Dele sobram as folhas enceradas.
Do resto, só o verde. Enquanto existe –

(Em E TODAVIA, Assírio & Alvim, Abril 2015)


DANIEL CHESTER FRENCH


domingo, 26 de abril de 2015

Jorge Luis Borges

O OURO DOS TIGRES

Até a hora do ocaso amarelo
Quantas vezes terei contemplado
O poderoso tigre de Bengala
Ir e vir pelo predestinado caminho
Por detrás das barras de ferro,
Sem suspeitar que eram seu cárcere.
Depois viriam outros tigres,
O tigre de fogo de Blake;
Depois viriam outros ouros,
O metal amoroso que era Zeus,
O anel que a cada nove noites
Engendra nove anéis e estes, nove,
E não há um fim.
Com os anos foram me deixando
As outras belas cores
E agora só me restam
A vaga luz, a inextricável sombra
E o ouro do princípio.
Oh, poentes, oh, tigres, oh, fulgores
Do mito e da épica,
Oh, um ouro mais precioso, teus cabelos
Que estas mãos almejam.

East Lansing, 1972

(In O OURO DOS TIGRES, 1972, tradução Josely Vianna Baptista)


sábado, 25 de abril de 2015

Ana Luísa Amaral

A VOZ
Confundem-me os degraus destas escadas:
serão de inferno ou céu,
ou porque espero aqui,
se nada me visita, nem me espreita:
só este lenço embainhado
a branco

E tudo em esquecidíssima aquarela,
como eu esquecido estou,
menos em verso —

Se pudessem escutar-me em fio de lume,
se do fundo do tempo
me trouxessem,
e às memórias de mim,
dos que comigo olharam o horror
de ter nascido, para morrerem
nem sequer inteiros —

Se a prenda inteira
que nesse dia a minha mãe me deu
fosse sentida pelas mães a ser
como coisa tão delas
que a dor se adiantasse à dor
do desperdício

Talvez se sossegassem estas vozes,
que me enchem de reparos e de fumos,
e não se calam, não se calam
nunca

E eu saberia enfim como estas malhas
podem ser destecidas
como os tempos,
veria onde me levam os degraus

E deitava-me enfim,
e podia dormir,
além dos versos —

[In ESCURO, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, pp. 57-58]


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Attila József

O INVENTÁRIO ESTÁ PRONTO
Confiei desde o começo em mim se bem
que isso não custe muito para quem
nada possui – não mais, em todo caso,
do que para o animal morto ao acaso.
Fiquei, mesmo com medo, em meu lugar:
nasci e mesclei-me até me destacar.
Paguei a cada qual conforme o preço
e, a quem me deu de graça, com apreço.
Se mulher me iludia com sua fala,
deixava-a me iludir para agradá-la.
Lavei convés e enchi baldes – não raro,
em meio aos sabichões, eu fui o otário.
Vendi brinquedos, pão, livros, jornais,
poesia – sempre o que rendesse mais.
Embora ainda prefira um fim no leito
à guerra ou corda – como for, aceito.
O inventário está pronto e aqui registro
que vivi. Muita gente morreu disto.

Novembro/dezembro, 1936

(Tradução de Nelson Ascher)


quinta-feira, 23 de abril de 2015

D. H. Lawrence

O MAR, O MAR

O mar dissolve tanta coisa
e a lua leva embora tão mais
do que sabemos -
Assim que a lua baixa
e o mar se apossa de nós
as cidades se dissolvem como sal-gema
o açúcar funde fora da vida
o ferro some como velha mancha de sangue
o ouro se transmuda em sombra verde
o dinheiro sequer deixa um sedimento:
só o coração
cintila em seu triunfo salino
sobre tudo o que soube e agora foi-se
na salinidade do nada.

(Tradução de Leonardo Fróes)

SOBRE O AUTOR



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Adam Zagajewski

DERROTA

De fato conseguimos viver nas derrotas. As amizades aprofundam-se o amor esperto ergue a cabeça. Até as coisas se tornam limpas. As andorinhas brincam no ar instaladas sobre o abismo. As folhas dos álamos tremulam. As aparições escuras do inimigo projetam-se contra a base brilhante da esperança. A coragem cresce. Eles, dizemos deles, nós, de nós, tu, de mim. O chá amargo agrada como uma profecia bíblica. Tomara que a vitória não nos surpreenda.


(Tradução de Aleksandar Jovanović]


FALA MAIS SUAVE Fala mais suave: És mais velho do que aquele que por tanto tempo foste; é mais velho que tu mesmo e ainda não sabes o que é a ausência, o ouro, a poesia. A água suja inundou as ruas; uma breve tempestade sacudiu esta cidade plana, adormecida. Cada tempestade é um adeus, centenas de fotógrafos parecem sobrevoar-nos, imortalizando com flashes segundos de medo e pânico. Saibas que é sofrimento, o desespero violento que sufoca o ritmo e futuro. Entre estranhos choravas, em um armazém moderno onde o dinheiro, ágil, sem parar, circulava. Tu vistes Veneza e Sena, e nas pinturas, na rua, muito jovens, tristes Madonnas, que desejavam ser garotas normais a dançar no carnaval. Vistes pequenas cidades, nada bonitas, gente velha esgotada pelo sofrimento e pelo tempo. Olhos de santos morenos brilhando nos ícones medievais, olhos fumegantes de animais selvagens. Entre os dedos colhias seixos da praia La Galere, e de repente sentias por eles grande ternura, por eles e pelo frágil pinheiro, por todos que ali contigo estiveram e pelo mar, que apesar de poderoso, é tão solitário. Um ternura imensa, como se órfãos fôssemos na mesma casa, para sempre separados uns dos outros condenados a breves momentos de visitas nos cárceres frios da atualidade. Fala mais suave: tu não és mais jovem, o êxtase tem que fazer um pacto com semanas de jejum, Deves escolher e abandonar, engabelar e falar extensamente com embaixadores de países secos e lábios rachados, deves esperar, escrever cartas, ler livros de quinhentas páginas.

Fala mais suave. Não abandones a poesia.



terça-feira, 21 de abril de 2015

Seamus Heaney

O VEREDICTO DE PEDRA
Quando ele se põe de pé no tribunal
Com a bengala na mão e o chapéu largo
Ainda na cabeça, mutilado pela dúvida
E um antigo desprezo de lisonjas e escusas,
Não será justiça se a sentença for balbuciada.
Ele espera mais que palavras na corte mais alta
Com a qual contou na mudez de uma vida.

Que seja como o julgamento de Hermes,
Deus do monte de pedra, onde as pedras eram veredictos
Lançados com solidez aos pés, empilhando-se em volta
Até ele encerrar-se a meio-corpo no monumento
De sua apoteose: talvez um pilar de portão
Ou um muro em ruína onde a canabrás cobre o silêncio
Que alguém há de quebrar enfim para dizer: “Aqui
Subsiste seu espírito”, e terá dito muito.

[In Poemas, Tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 299]

sábado, 18 de abril de 2015

Sérgio Bernardo

QUERIDO ARREPENDIDO
Está parado ali
sob holofotes de néon
e a chuva tropical,
esperando que ela desça
com migalhas de comiseração
em um prato de plástico,
mas o elevador do prédio
é cúmplice do seu ódio
e não a traz ao solo.
Se descesse, veria que é real
esse embrulho com remorso e culpa
que traz preso ao braço,
mas não descerá.
E ele ficará ali
a madrugada toda
como elemento da paisagem.
                       
DEZOITO HORAS
A tarde compra
um lote
de sol inverossímil,

uns dormem, uns acordam,

no extremo da praça a bica
doura uma mistura
de limo e água,

o funcionário de uniforme laranja
produz:

varre com fúria
as margens do asfalto,
rio de automóveis.

HORIZONTE NU
Aqui o litoral seduz o corpo,
a água esconde um mar de sêmen
e a espuma lambe os pés com língua de sal.

Soubesse antes do horizonte nu,
teria me inaugurado na linha do oceano,
jamais entre as paredes de uma casa.

Casas degolam liberdades.
Mas ao vento marítimo todos os rumos são possíveis:
as algas ensinam caminhos múltiplos
aos passos indecisos do pensamento.

Soubesse antes da solidão atlântica,
o mofo dos dias submergiria nela
e a inquietude urbana viria para um banho de sol,
deixando vazias as ruas e as pessoas.
Ruas têm sempre esquinas
e pessoas sempre se impõem limites:
ambas não conhecem o dialeto infinito da distância.

Aqui, junto às ondas, se decifra o idioma dos náufragos.
Porque apenas vozes afundadas no desconhecido
narram com claridade a vida.

Lá atrás fica o fim do horizonte,
existe um cardume perdido com roupas sobre a pele.
Lá está a resposta que o sangue vomita.
Há mais casas que céu, mais poeira que gotas
e um chão sem areia morna nem cheiro de maresia.

Nesse lugar, o futuro é um peixe nascido sem nadadeiras.

 FONTE: BLOG DO AUTOR
                                               
SOBRE SÉRGIO BERNARDO:
Jornalista, poeta e contista, Sérgio Bernardo nasceu no Rio de Janeiro. Premiado em diversos estados do Brasil, várias cidades de Portugal e na Argentina. Figura em antologias no Brasil, Uruguai e Portugal. Publicou, em 2005, Caverna dos signos, a convite da Secretaria de Cultura de Nova Friburgo, onde mora. Em 2010, lançou Asfalto, pelo Selo Off Flip, em Paraty/RJ, durante a Off Flip 2010. Pertence à Academia de Letras do Rio de Janeiro.

Alison Johnson

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Flannery O´Connor

Meu bom Deus, somos tão estúpidos até Tu nos dares qualquer coisa. Mesmo ao orarmos, és Tu que tens de orar em nós. Gostava de escrever uma prece bonita, mas falta-me a matéria-prima. Há em volta de mim um vasto mundo sensível que eu deveria ser capaz de usar como instrumento em Teu louvor; mas não consigo. Todavia, num qualquer momento insípido em que eu talvez esteja a pensar em cera para o soalho ou em ovos de pombo, as primeiras palavras de uma prece bonita poderão emergir-me do subconsciente, levando-me a escrever um texto inflamado. Não sou filósofa, caso contrário conseguiria entender estas coisas.

Se eu me conhecesse plenamente, meu bom Deus, se conseguisse descobrir em mim própria todos os traços pedantes e egocêntricos, falhos de sinceridade, o que seria eu, afinal? Mas que faria eu em relação a estes sentimentos que ora são medo, ora alegria, que se encontram demasiado fundo para que o meu entendimento os alcance? Tenho medo das mãos insidiosas, oh, Senhor, que buscam às apalpadelas nas trevas da minha alma. Por favor, sê a minha sentinela contra elas. Por favor, sê a barreira no alto do desfiladeiro. Será que conservo a minha fé somente por preguiça, meu bom Deus? Esta, porém, é uma ideia que agradaria a alguém racional até à medula.

[In Um Diário de Preces, prefácio de Pedro Mexia, tradução Paulo Faria,  Lisboa: Relógio D´Água, 2014, p. 21].

SOBRE A AUTORA





Filipe Marinheiro

«Noutros Rostos» VIII
vou contando todas as vidas tristes que se amadurecem

no fundo dos meus olhos a passarem atrás das coisas gastas

em cada rua vazia espero pelo seu sabor mudo


e desapareço naquele estremecimento que sai virgem do chão

por onde caminho novamente sombrio


«Noutros Rostos» XII
em todo o andar doido dos pais

escorrega sempre um sorriso leve entre os braços puros

e as cabeças dos filhos deslocam-se

os corações ao alto

como tremem e tremem por dentro

como são tão silenciosos corações e deliciosos sorrisos

e os pais envolvem comovendo-se

os braços apaixonados

os rostos dos pais

inundam-se nos lados das suas bocas

pelas veias e sangue arterial desentupidos

e os filhos rodopiam nos dedos formosos

no chão escorregadio

os filhos abertos ao novo amor sentam-se nos colos calmos

dos pais sentindo todo aquele momento visceral

e eterno

movem-se em silhuetas vivas

atentas a tudo o que se passa e mexe à sua volta

procuram o manso amor a florescer

na cadência absurda das coisas inseparáveis e escorregam

nos pequenos corpos celestes

enquanto a paixão surge numa sombra uma paixão quente fria

os pais têm urgência

nesse amor são do dia para a noite

progressivamente maiores e mais fortes


todos os filhos a certa altura perdem-se

nas brincadeiras para que os pais os encontrem e dancem

a levitar junto ao tecto

junto às janelas que batem noutras janelas

que batem por cima nas cortinas loucas por voarem

com a brisa daquele minúsculo vento levíssimo

a transbordar de imagens suores

e flores deambulantes

mas amplamente perfumadas

e o vento a respirar

dos movimentos doidos dos filhos encavalitados nos ombros pérola

dos pais

são vestígios desse doce amor

a erguer-se dentro de todos os órgãos

até chorarem os corações e os sorrisos fora

os seus lábios estão na fímbria do andar pontual dos pais

mas os pais atravessam a morte desértica

pelos seus filhos

os pais são realmente heróis anjos de guarda que mergulham

no magma da terra adentro

e esmagam-se no seu interior por eles

os pais devem ser as coisas mais frágeis e dóceis do mundo

porque os filhos deformam a expressão

do próprio mundo

e alagam os pulmões e cabelos dos pais nos brinquedos de fogo

e nos jogos adúlteros um pouco mais tarde

os filhos sabem aos pais

andam à velocidade das ruas intermináveis

dos becos frios

contudo confidentes


e os pais os mais elevados Deuses

chegam a rachar os seus próprios ossos através da saliva

e lágrimas dos altos filhos

amor mortal

amor a desaparecer no lusco-fusco

todo esse triste amor atira-se precipício abaixo sem pressentir

o desassossego espiritual dos filhos e pais recalcados

pelas submersas infâncias

todas as palavras que os filhos escoam pelo ar negro

arrancam a doçura do mar do sol

mas também das casas

dos quartos intensamente alagados pela força anterior

das belas memórias

como a interromperem-se num vazio corajoso e recente passado

os pais desenterram essas lembranças

como escapam nelas também

filhos e pais a queimarem-se melancólicos

depois certo dia os filhos

numa rara homenagem

escavam de novo o chão da sua casa e penetram solitários

dentro dos quartos

engolem toda aquela água d’alfinetes pretos

para se entrelaçarem nos velhos sorrisos dos pais

vêm à superfície

com os pais às cavalitas

e como brilham o recente caminhar!

sentam-se hoje nas mãos uns dos outros partilhando o choro nu

os pais embrulhados nas roupas dos filhos de alto a baixo

tocam-se em ambas as peles

nos ligeiros poros esvoaçantes beijam-se

nas faces viradas ao avesso com o relevo da luz

a asfixiar os seus reflexos


e as luzes solares inclinam as estrelas cadentes equilibrando

filhos e pais

num sorriso possível sorriso amante

nos pensamentos magnificentes

nada há na morte

pensam filhos e pais pois a vida incha toda a matéria que se mexe

com toda uma violência e alegria certas

germinando por si

o incondicional amor que nas profundezas loucas dos filhos

desentranham o coração manso dos pais

que desliza no sorriso

saboroso dos filhos

que desliza na sua doçura

deslizando na força do amor

que desliza na violência sonâmbula do medo

e crê-se

que o amor entre pais e filhos por fora e por dentro

deve acontecer

e ao acontecer devemos acreditar

que por fora e por dentro está todo o nosso leal amor

e todo o leal amor acontece


«Noutros Rostos» XIV
porque durante o silêncio da noite tudo respira tranquilo

na mais breve insolvência musical

e na cama ouço a inocência das eternas servidões...

---------------------

Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, a 30 de julho de 1982, e atualmente reside em Aveiro. 
Publicou Um Cândido Dilúvio / Sombras em Derivas (2013), Silêncios (2013),  Noutros Rostos (2014), todos pela Ed. Chiado. 



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Rainer Maria Rilke

Estou no mundo tão só, e ainda não só o bastante
para cada hora sacralizar.
No mundo eu me vejo débil demais
e ainda assim não débil o bastante
para diante de ti ser uma coisa
obscura e esperta;
vontade eu tenho e quero acompanhar minha vontade
a caminho da ação.
Quero nos calmos e de certo modo irrequietos tempos
quando algo se aproxima
estar entre os que sabem,
ou sozinho.
Eu quero espelhar-me sempre em tua forma total
e jamais estar cego ou velho em demasia
para aguentar tua imagem oscilante e pesada.
Quero me desdobrar.
Em parte alguma quero estar curvado,
pois sempre que me curvo estou mentindo.
E quero que todos os meus sentidos
sejam, diante de ti, bem verdadeiros. Quero me descrever
como a uma imagem que eu tivesse visto
tanto de perto quanto de longe,
como uma palavra que eu compreendo,
como meu vaso de todos os dias,
como o semblante de minha mãe,
como um navio
que me conduzisse
através da mortífera tormenta.

 [In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Al Berto

6
é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva
de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais,
e no ventre impossível das cidades nocturnas
a solidão tem dias mais cruéis
tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro... quis ser grande e morrei
contigo
enfeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda..,
cantar-te os gestos com ternura
mas não
águas, águas inquinadas pulsando dentro de meu corpo, como um peixe
ferido, louco
em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome de
ma, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém
na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te can-
tam


7
a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas
paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo

não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo

em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.

[In O medo, 4a. ed., Lisboa, Assírio&Alvim, 2009, pp. 160-161]



terça-feira, 14 de abril de 2015

Alejandra Pizarnik

NESTA NOITE, NESTE MUNDO

Para Martha Isabel Moia

Nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que queremos dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não é o da re-surreição
de algo parecido com negação
do meu horizonte de maldoror com o seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(todo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

não
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se esconde
a pedra da loucura
corredores escuros
eu os percorri a todos
oh fica um pouco mais conosco!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem sacou uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais conosco!

as degenerações das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os comi e me engasguei
não posso mais de não poder mais

palavras dissimuladas
tudo se desliza
para a negra liquefação

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais desnecessário
                que não sirva nem para
                 ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras

nesta noite neste mundo

[In Poesía Completa, Barcelona: Editorial Lumen, 2000, pp. 398-400]. 

VALENTIN SEROV

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Leandro Rodrigues

1
ISADORA DANÇA
Isadora Duncan
mesmo morta
ainda dança na contra-luz
da Lua.

Isadora ousa precipita-se
num passo solto
e profundo
padedê-precipício

Então salta num voo
livre tênue
em slowmotion-pasodoble
frágil-infinito.

2
A POETA
              Para Ana Cristina César

Dizem que esta noite
é póstuma/ compulsória
Em sua fragrância
e Invento.
Na armação metálica
de desilusão e medo.
Nas asas do anjo parafusadas
manchadas de sangue a óleo
Apoiadas sobre os ciprestes
ou parapeitos.

Dizem que esta noite
é mórbida/ tísica/ essência
Nas palavras atadas
ao limbo/ ao vento
No clamor do sexo
exposto/ de chumbo
na prateleira dissolvida/ resolvida.

Dizem que esta noite
uma poeta súbita
se atirou
de uma centena de métricas
Numa cidade longínqua
sem escadas
entre a chuva que caía torpe
e os sinais pontuais de trânsito:
Um filete de versos
ácidos escorria
pelo canto de sua gengiva.

3
AO MEIO
meio-dia
a vida ao meio
o sol ardendo inteiro.




domingo, 12 de abril de 2015

Marina Tsvétaïeva

Negra, como pupila, como pupila sorvendo
A luz - amo-te noite elevada.

Dá-me voz para cantar-te, ó mãe de todas as canções
Cujo canto é levado pelos quatro ventos.

Louvando-te, chamando-te, sou apenas uma
Concha onde ainda não cabe o oceano.

Noite! Já cansei de mirar na pupila dos homens!
Incinera-me, negro sol - é noite!

9 de agosto de 1916

(tradução de Verônica Filippovna)

sábado, 11 de abril de 2015

Antonio Gamoneda

PROMETEU NA FRONTEIRA

I
Talvez passemos pelo mesmo tormento.
Um deus caído na dor vale tanto
quanto a dor se esta supera o pranto
e se levanta contra o firmamento.

Um deus imóvel é um deus sedento
e a mim cobrem-me com o mesmo manto.
Eu tenho sede e o que levanto
é a impotência de levantamento.

Oh que dura, feroz é a fronteira
da beleza e da dor; nem um Deus
pode cruzá-la com seu corpo puro.

Ambos estamos de igual maneira
a ferro e sede da solidão; os dois
acorrentados ao mesmo muro.

II
E este dom de morrer, esta potência
degoladora da dor, de onde 
nos vem? Em que deus se esconde
esta forma sinistra de clemência?

Uma única divina descendência
a esta zona de sombra corresponde.
Se falas a um deus, quando responde,
vem a morte por correspondência.

Se não fosse cobarde, se, mais forte,
num raio pudesse pela boca
expulsar este medo da morte,

como este imortal acorrentado
seria puro na dor. Oh, rocha,
meu mundo de sede, mundo olvidado!

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, pp. 31-33].


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Nydia Bonetti

1.
era manhã bem cedo e se julgava pássaro
quando caiu a tarde
se viu pedra
(e sua cota era apenas um dia)
vida de pedra deveria ter vivido
não viveu
sonhando asas
pássaros — teriam pousado e feito ninho


2.
teu rosto no retrato / os olhos fundos
perdidos
como quem busca vida
distantes
como quem sabe o tempo
verdes em sépia na fotografia
grafada face / sagrada grafia /
lábios cerrados como quem pressente
o grande silêncio


3.
no território imperfeito em que habitamos
a pele é fronteira
afetos são águas que fluem  / em fios
ou caudalosos rios
ausências / profundezas abissais
memórias são trilhas / que a mata densa
e invasiva da vida cotidiana
encobre lentamente


4.
o tempo insiste
em arrastar móveis pesados
há sempre um piano
que não passa na porta
notas suspensas
cordas frágeis
que sempre ruem
antes que o piano toque a rua
em áspero ruído


5.
e o homem se curva :-parece ser sina
trocar o fardo milenar das culpas
pelo pós-moderno fardo do vazio
há que se ter um peso a ser carregado
a leveza parece não ser humana
não se sustenta. enquanto barro:-pesa


6.
quando a noite me olha, na sua hora mais escura
e o silêncio me encara
com seus olhos de pedra
e murro
------------paraliso
pela vidraça
chuva negra de ferpas e granizo
estilhaços de vidro
e vento
tentam furar meus olhos
------------aquários vazios
onde o último peixe
morreu de sede e medo
do gato imaginário - olhos de fogo e faca - fera
que jamais existiu


7.
todas as vozes que um dia julguei
vindas do céu
vinham de dentro
de mim
julgo então não haver céu
ou — eu o contenho.


8.
que o sangue escoe
quente viscoso fosco no humano fosso
(indecifráveis delírios)
que fragmente a bomba. e fira
olhos e bocas
e que se rasguem bandeiras — inúteis
tecidos fronteiras
tudo parece arder — então por que
poetas só ousam tocar
nos visgos dos corpos do fogo das suas
próprias peles
(devassa inocência)
e dormem — imersos em seus silêncios

SOBRE NYDIA BONETTI
Nydia Bonetti, engenheira civil, nasceu em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Mantém o blog L o n g i t u d e s (http://nydiabonetti.blogspot.com). Colaboradora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados em revistas e sites literários e culturais: Revista Zunái, Portal Cronópios, Musa Rara, Eutomia, Germina Literatura, e outras. Faz parte da coletânea QASAÊD ILA FALASTIN (Poemas para a Palestina), Selo ZUNAI e da Antologia Digital Vinagre - Uma antologia dos poetas neobarrocos. Publicada em 2012, pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, na antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos), organizada pela poeta Marceli Andresa Becker. Publicada também em 2012 pelo Projeto Instante Estante, de incentivo à leitura, curadoria de Sandra Santos, Castelinho Edições. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajéuBR, numa iniciativa conjunta com o Portal Cronópios.  Autora do livro de poemas Sumi-ê.

BLOG DA AUTORA




quinta-feira, 9 de abril de 2015

Fernando Paixão

A noite é uma fruta costumeira
que sai das mãos maternas.
Aos poucos aparece crescida
nos hábitos da casa.

Certa vez entrou pela janela.
A passos largos distendeu
em vermelho tinto
um sem-número de cavernas.

Mas terminou resignada
igual às outras:
pálpebra escura e grave
sobre as casas.

 x.x

Sentado junto ao fogão
cúmplice da lenha que arde
assisto ao pé do fogo
os brotos infindáveis.

Observo chamas saltadas.
Sorvo delas um líquido boreal
derramado para cima.
As brasas me contam histórias
que logo esqueço.

Envelopes em bolhas de silêncio.

x.x

A candeia acesa sobre a cômoda
surpreende a visão
como o berro dos cães
aos ouvidos.

Chamas e latidos para o alto
despertam
um conhecimento miúdo
e rápido.

Como é grande o mundo...

Inseguro
recolho a atenção
nos frisos do assoalho limpo.

[In Poeira, São Paulo: Ed. 34, 2001]

Fernando Paixão nasceu em 1955 na pequena aldeia portuguesa de Beselga, vindo a transferir-se no início de 1961 para o Brasil. Formou-se em jornalismo pela USP, iniciou e interrompeu o curso de filosofia, e defendeu tese na Unicamp com estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro. Sua produção literária começou com o livro "Rosa dos tempos", de 1980, seguido de "O que é poesia", dentro da coleção Primeiros Passos, dois anos depois. O autor, no entanto, renega hoje estes dois primeiros livros, por considerá-los “adolescentes”, sem o apuro necessário. Em 1989, retornou com o lançamento de "Fogo dos rios" (Brasiliense), seguido de "25 azulejos "(Iluminuras, 1994). Publicou também "Poesia a gente inventa", voltado para as crianças (Ática, 1996).








quarta-feira, 8 de abril de 2015

Adonis

ESPELHO DE ORFEU
Sua triste lira, Orfeu
não altera o fermento
nem faz para a amada presa na
jaula dos mortos uma cama de amor, um par de braços,
                                                                          uma trança
quem morre morre, Orfeu.

          O tempo tropeça em seus olhos
          a lira quebra em suas mãos.

Vejo você despontar nas margens
cada flor é uma canção
a água é como a voz
escuto
vejo você como sombra
que escapa de seu centro
e se põe a girar... 

ESPELHO DO GIRO
Extinto o fogo do giro depois do néctar da ferida e do
                                                                                   sonho
no leito da colheita
brilhou a paixão pelo mais alto, escalei meu anseio, subi
                                                                                 seu fogo, e saímos
do país do suor e do limo
no tapete diáfano da criação.

Hoje sou o aroma astral
me espelho, faço do tempo um espelho para captar meu
                                                                                 rosto adivinho
para captar o dia afiado, como o íntimo, para conquistar
para encantar as distâncias e as margens.

[ADONIS poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, seleção e tradução do árabe Michel Sleiman, pp. 130-131].


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Gleb Gorbóvski

&
Uma cobra apareceu na cabeceira de minha cama,
pertinho de meu rosto, pálido no escuro.
Eu sabia que, se piscasse,
a baba venenosa desse corpo
escamoso seria liberada. Por isso,
fica imóvel, eu me disse,
finge de morto. Até as quatro horas da manhã
ela ficou lá, suspensa.
Os passarinhos já tinham começado a cantar
e o sol já clareava tudo com seus raios
quando me deu vontade de explodir,
de gritar: dane-se, pare de me torturar.
...Mas a cobra, sem querer esperar por minha cólera,
foi-se embora.


CÉU
Só uma pitadinha dele em minha janela.
Oh, que miséria é esta cidade!
Ou um farrapo de nuvem que se esgueira,
ou a chuva que desaba qual lençol
ou a neve como fibra de lã
obstruindo
a saída de minha toca para o céu.
Lá em cima, as máquinas vão voando
e uma multidão de estrelas se aglomera.
Escura é minha janela e indistinta;
sento-me aqui, gastando os meus lápis,
e um céu secundário construo
na vastidão de minha alma.

&
Botas de borracha. O rio
chicoteia as minhas pernas.
Como estamos longe, você e eu,
como escapar dessa terrível desolação,
dois extremos de uma mesma estrada...

O BOSQUE
Não é feito de madeira
e sim de música -
sons que o atravessam.
Sento-me à sombra de um abeto,
como na cela de uma torre
e meu coração bate forte.
Voo de bétulas,
quietude dos cogumelos
e o sopro da vida em cada célula;
sopro e mais que isso - a luta
pela gota de umidade, como uma bolha,
no livre movimento das raízes.
As asas voejam para longe
de mim que não me movo.

PARA A MORTE DE PASTERNÁK
No meio do século XX
levaram-no à fogueira.
Foi queimado, feito cinzas
para que ficasse leve
como pó e compreendesse
toda a sua nulidade.

Atrevido e terrível era
aquele homem. Em sua testa,
como neve, derretia
a poesia. Mas o fogo desatava
novos versos em seu peito.

No corpo todo. A lenha inflamada
gemia. Em torno dançava,
como numa caverna primitiva,
com um ritmo errático,
toda uma geração.

No céu, a lua morria,
ferida por um foguete dos Urais.

[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp. 255-257]

Gleb Gorbóvski, nasceu em Komi, ao norte de Leningrado, em 4 de outubro de 1931. Começou a escrever poesia aos dezesseis anos, no exército. 



domingo, 5 de abril de 2015

Laura Riding

SONO TRANSGREDIDO
Uma hora do dia foi subtraída
Para fazê-lo durar mais uma hora.
O dia dilatado cresceu
No que tinha sido interrompido.
Mais uma hora do sono foi subtraída,
Até que todo o sono fosse transgredido,
Embora o curso do dia
Durasse mais, mais se adiasse.

E o sono, sumido.
E o mesmo dia nunca termina,
Um dia enorme, e a insônia,
Um gradual entardecer rumo a logo se deitar.

Logo, logo,
E o sono, esquecido.
Tipo: o que foi nascer?
E nenhuma morte até aqui, o fim tão lento,
Parecemos partir mas permanecemos.

E se permanecemos
Algo mais há de ser feito
E nunca termine embora muito termine.
Pois o muito mantém os olhos bem abertos,
Muito aberto é muito mais sono esquecido,
Sono esquecido é sono transgredido,
Sono transgredido é a mente durando bem mais,
Mais pensamento, mais dizendo,
Em vez de dormindo, piscado, piscando,
Piscando de pé e por causa de sonhos
Que são iguais a todas as coisas comuns,
As coisas comuns iguais a todos os sonhos.

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Murilo Mendes

MURILO MENDES O FILHO DO SÉCULO Nunca mais andarei de bicicleta Nem conversarei no portão Com meninas de cabelos cacheados Adeus vals...