domingo, 29 de setembro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

se eu voltar será vestida de clarões em honra à morte mais doce pela regra das rosas secas e dos anjos mistos de hera e de sangue caídos à tua porta em vértice dilatado como um cálice suspenso sobre os teus cabelos cor de lírios com cheiro a chuva. se eu voltar entre as rugas da tua boca será para te ser um monólogo de facas e um sopro de vinho quente a escorrer-te nos flancos onde me farás nua como um espinho de ouro crucificando-te a garganta. e nada de muralhas nada de estrelas nada de barcos nada de portos. tudo em sílabas calcárias e ácidas e morrentes aos teus pés.
se eu voltar será apenas uma herança de silêncio ou de papel rasgado sobre a cama que nunca desfizemos mas asfixiamos. lúcidos loucos devotos e predadores. restam as aves e o cardo mais rosa que um dia te vi nascer ao som de todas as vertigens. se eu voltar será por vontade das feras. mas o tempo é de cúpulas líquidas paralelas ao gesto de desfazer o rochedo. toma as minhas mãos. como precipícios. um dia o rosto será archote. e eu não volto.

(Isabel Mendes Ferreira -  Inédito, publicado com licença da autora)



Giacomo Leopardi

A SI MESMO
Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera 
A última vez. À nossa espécie o fado 
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza 
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera 
E a vacuidade sem final de tudo.

[In Alexei Bueno, Cinco século de Poesia, São Paulo, Record, 2013, p. 47]

Sobre Giacomo Leopardi


sábado, 28 de setembro de 2013

Seamus Heaney

1. O MINISTÉRIO DO MEDO 
Para Seamus Deane

Bom, como disse Kavanagh, vivemos 
Em lugares importantes. A solitária escarpa 
De St. Columb’s College, onde me aquartelei 
Por seis anos, sobranceava seu Bogside.
Encarei novos mundos: a inflamada garganta 
De Brandywell, a iluminada pista de corrida 
De cães, a goela da lebre. Na primeira semana 
Senti tanta saudade que nem sequer comi 
A sobra de biscoitos para suavizar meu exílio. 
Joguei-os sobre a cerca certa noite 
Em setembro de 1951 
Quando as luzes das casas de Lecky Road 
Eram âmbar na neblina. Era uma ação 
Furtiva.
            Depois Belfast, depois Berkeley.
Nós dois sob disfarce,

A cometer versos até se transformarem 
Numa vida: de gordos envelopes que chegavam 
Nas férias a magros volumes
Despachados “com os cumprimentos do autor”.
Aqueles poemas a mão, arrancados da espiral
De seu caderno de exercícios, deixavam-me perplexo —
Vogais e idéias jogadas soltas
Como as sementes que o vento levava dos sicômoros. 
Tentei escrever sobre os sicômoros 
E inovei uma rima do sul de Derry 
Com bushed e lullede ecoando pushed  e pulled.
Aquelas chancas ferradas de além da montanha 
Andavam, por Deus, pelos primorosos 
Campos da elocução.
         Terão nossos sotaques
Mudado? “Católicos, em geral, não falam 
Tão bem como os alunos das escolas protestantes.” 
Lembra-se daquela essência? Complexos 
De inferioridade, essência de que os sonhos eram feitos. 
“Qual é o seu nome, Heaney?”
               “Heaney, padre.”
                                          “Está
Bem.”
No meu primeiro dia, a correia de couro
Estalava epiléptica na sala de estudos,
Os ecos salpicando sobre nossas cabeças curvas,
Mas ainda assim escrevia para casa que a vida
De internato não era tão ruim, retraindo como sempre.

Nas férias longas, então, eu revivia
No banco de beijos de um Austin Dezesseis
Parado junto a uma empena, o motor ligado,
Meus dedos firmes como hera nos ombros dela,
Uma luz acesa a esperá-la na cozinha.
E a caminho de casa, a liberdade
Do verão minguando noite após noite, o ar
Todo luar e odor de feno, policiais
Brandiam as lanternas carmim, rodeando
O carro como gado negro, a apontarem
A boca da automática para meu olho:
“Qual é o seu nome, motorista?”.
                                                “Seamus...”
                                                                      Seamus?

Certa vez leram minhas cartas num bloqueio
E luziram os fachos sobre os hieróglifos,
“Dicções esbeltas” em letra bem floreada.

Ulster era britânica, mas sem direitos
À lírica inglesa: a nossa volta, embora
Sem mencioná-lo, o ministério do medo.

Sobre Seamus Heaney

In Poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, pp. 130-132.





sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Miguel Torga

Coimbra, 6 de Julho de 1963. 
Poesia
Não te quero trair 
Com palavras cansadas.
Abstracta presença
No seio da concreta natureza,
Voz de pureza
No silêncio imundo,
Luz que nas madrugadas 
Anuncias mais luz,
Rigor da imprecisão,
Nenhum verso traduz 
Sequer
A doce melodia do teu nome.

Por isso, quando todos os sentidos 
Te desejam visível, figurada,
Rasgo dentro de mim o véu 
De não sei que lonjura,
E fico a namorar a curvatura 
Da linha desenhada 
Pelo gume do céu 
A cortar a planura 
Imaginada...

In Diário IX, In Poesia Completa, Vol. II, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 239

konstantin Kornakov



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Daniel Faria

DO LIVRO DO APOCALIPSE
Onde há uma estrela há um homem nocturno
Um homem hemisférico que pensa na luz.
Ele sabe que a lâmpada é o cordeiro. Sabe que a cidade
Não precisa do sol nem da lua. O homem acende na cidade
O pensamento.
O cordeiro está em pé como que degolado e o sangue
Corre da ferida viva como um braseiro. A lâmpada
Abre uma constelação no chão: o livro
Que nomeia e nutre os ressuscitados.
O homem põe a estrela na direcção da vida
Um astrolábio celeste. Não precisa do sol nem da lua
Porque tem o cordeiro em pé e de frente.
Ele sabe que o cordeiro é pedra que está ferida
E roda-a devagar até ele próprio ser a fonte.
O homem junta as duas mãos como quem bebe
E queima-se nas mãos, na boca, nas entranhas
Com o lume muito novo da bebida.

DO LIVRO DOS ACTOS DOS APÓSTOLOS
A luz de Damasco é um grito
Para a ovelha que regressa

A luz de Damasco é um tombar do trigo, um cair
Do grão – cega tanto como os olhos
De um homem perseguido quando se volta
Para nós

A luz de Damasco golpeia. É circuncisão
Que abre, limpa, a luz de Damasco
É dura. Da dureza

Das pedras que um mártir junta com as mãos
Com que empedra o caminho para a morte. A luz
De Damasco é esse lume

Da oração de um mártir ao morrer.

In “ Dos Líquidos” Fundação Manuel Leão, Porto, 2000


Hubert Jan van Eyck



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Hilda Hilst

17
Se possível se fizer o merecê-las
Peço-te dálias, senhor, altas e austeras
Como convém a mim vivendo em estupor.
Dirás que me concedes a cássia ferrugínea
Araucária excelsa, mais sombra e mais altura
Como convém a mim, vivendo nas planuras,

Mas peço-te dálias. De frêmito contínuo
Calcinadas de vento, como convém a mim
Aturdida de amor e pensamento.
Verás. É dádiva melhor. E se possível
Uma de rubro cerne. De parca simetria.
Vendo-a, verei a mim mesma cada dia.

In Exercícios, São Paulo, Globo, 2002. p. 63

Henri-Jean-Guillaume Martin


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Eugenio Montale

Quisera ter-me sentido tosco e essencial
assim como esses seixos que revolves,
comidos por salsugem;
lasca fora do tempo, testemunho 
de uma vontade fria que não passa. 
Outro fui: homem fito que repara 
em si, nos outros, a efervescência 
da vida fugaz — homem demorado 
nos atos que ninguém, depois, destrói. 
Quis procurar o mal 
que corrói o mundo, a pequena torção 
de alavanca que para 
o engenho universal; e vi a todos 
os eventos do minuto 
prestes a desjuntar-se num abalo.
Na trilha dum caminho eu quis o rumo
inverso, convidativo; e talvez
precisasse do gesto incisivo,
da mente que decide e se determina.
Eram-me necessários outros livros,
não tua página estrondosa.
Mas nada posso lamentar: teu canto
desata ainda os nós interiores.
O teu delírio então sobe aos astros.

In Ossos de Sépia, p. 123




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Rainer Maria Rilke

ELEGIA A MARINA TSVÉTAÏEVA
Estas perdas no Todo, Marina, estas estrelas que desabam!
Onde quer que nos lancemos, qualquer que seja a estrela, nós
Nada alcançamos: a conta já está fechada.
Assim, quem cai não diminui o número sagrado.
A queda que renuncia escolhe na origem e, ali, se cura.
Não será tudo afinal um jogo, mudança do Mesmo ou transferência,
E em lugar algum um nome, o mínimo lugar de um ganho íntimo? 
Nós ondas, Marina, e mar! Nós profundezas, e céu!
Nós terra, Marina, e mil vezes primavera, estas cotovias 
Cujo canto ao irromper as lança na invisibilidade!
Entoamo-lo em alegria, mas ele já nos ultrapassou 
E de súbito o nosso peso transforma em pranto o canto.
Mas o pranto? Não é ele uma alegria nova, inversa?
Os deuses cá em baixo também querem ser louvados:
Tão ingênuos que esperam, como o menino de escola, o elogio! 
Deixa-nos então ser pródigos no louvor!
Nada é nosso. E dificilmente podemos pegar com a nossa mão 
O caule de flores não colhidas, fá vi isso à beira do Nilo,
Em Kôm-Ombo. Os reis, renunciando, vazam desse modo as libações. 
Como os anjos marcam o portal de quem deve ser salvo,
E assim, aparentemente ternos, tocamos isto ou aquilo.
Mas já levados para tão longe, Marina, tão distraídos, mesmo sob 
O mais profundo pretexto. Fazedores de signos, nada mais.
Este comércio ligeiro, quando um de nós 
Já não se contenta e decide investir
E se vinga e mata. Que ele tenha o poder de morte, com efeito,
Já todos nós tínhamos compreendido ao ver a sua tema discrição
E a força estranha que faz de nós viventes
De sobreviventes. Não ser. 
Sabes tu quantas vezes
Uma ordem cega através da antecâmara gelada
Nos trouxe dum novo nascimento? Nós? Um corpo feito de olhos
Sob pálpebras inumeráveis dizendo não? Trará o coração
Abatido por toda uma raça que há em nós? Para que fim de migração
Transporta o voo, a imagem aérea das nossas mutações.
Os amantes, Marina, não deveriam, não têm o direito 
De saber de mais sobre o seu declínio. Eles devem continuar jovens. 
Só o seu túmulo é velho. Só o seu túmulo, cada vez mais sombrio, 
Sob a árvore que soluça, se lembrará para sempre.
Só o seu túmulo deve quebrar-se; eles são flexíveis como o vime,
O excesso que os verga entrança-os numa rica coroa.
Como desvanecem no vento de Maio! Do centro de Sempre 
Em que adivinhas, respiras, são excluídos pelo instante.
(Como vos entendo, ó femininas flores sobre o silvado 
Sempre o mesmo. E me inflas de força no ar da noite 
Que irá aflorar-vos.) Os Deuses aprenderam cedo 
A simular metades. Nós, inscritos na órbita,
Tornamo-nos plenos como o disco da lua.
Mesmo na fase decrescente, ou nas semanas do que se revolve,
Nada há que nos possa devolver à plenitude, a não ser 
Os nossos passos, só eles, por cima da paisagem sem sono.

oo00oo

Janela distante das nossas paredes há muito já transposta 
Entre os astros, festeja e reina;
Tu, sobrevivente ao Cisne e à Lira, tu derradeira 
Imagem lentamente divinizada.

Usamos-te ainda, forma das nossas casas engastada 
Levemente, que nos promete a infância.
Mas as janelas da terra, mesmo a mais abandonada 
Imitava as tuas decantações!

O Destino lá em cima enlaçou-te, com a sua medida usual 
De perdas e declínios.
Janela de astros estáveis, sujeito ao movimento ele emerge
por cima daqueles que escolhem.

In Correspondência a Três, Trad. Armando Silva Carvalho, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 191-194

Wassily Kandinsky


domingo, 22 de setembro de 2013

Antonio Gamoneda

Vi lavandas submersas na tigela do pranto e a visão ardeu em mim.

Para lá da chuva vi serpentes doentes — belas nas suas úlceras transparentes —, frutos ameaçados por espinhos e sombras, ervas animadas pelo orvalho. Vi um rouxinol agonizante e a sua garganta cheia de luz.

Sonho a existência e é um jardim torturado. Diante de mim passam mães encanecidas na vertigem.

O meu pensamento é anterior à eternidade, porém não existe eternidade. Gastei a minha juventude dian­te de um túmulo vazio, extenuei-me em perguntas que ainda percutem em mim como um cavalo que galopasse tristemente na memória.

Ainda giro dentro de mim embora saiba que vou cair no frio do meu próprio coração.

Assim é a velhice: claridade sem descanso.

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 237]


Jiǎnshìzhé

sábado, 21 de setembro de 2013

Ana Luísa Amaral

SALOMÉ REVISITADA
Deixa-a lá dentro, cortada, na cozinha,
e traz-me só café. Pousa a bandeja
ali, e depois vai. Não quero o seu olhar:

recorda-me a prisão que ele habitou
(sem ser por mim) e a outra
em que eu morei, e onde fiquei,

lembrando o seu olhar. Bolo de figos
e de mel, conchas de som — mas não é
Salomão que eu sinto em sonhos

nesse corredor, mas Salomé, a outra,
a mesma que aqui está. E o seu olhar:
amputado de mim não pela espada,

mas por gume maior: o tempo
a insistir que eu nunca fui: multiplicada
pela sua íris. Agora, sai: é largo o corredor,

está certo o quarto, e eu decerto fiz bem.
Tão brilhante e tão quente. Como
sabe a vermelho este café —

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 31

GASTON BUSSIERE

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Paul Celan

PRESSÃO DA LUZ (1970)

UMA VEZ, a morte era corrente,
tu te escondeste em mim.

o0o

PRÉ-CIENTE SANGRA
duas vezes atrás da cortina,

Consciente
pérola

o0o

QUANDO ME ABANDONEI EM TI, 
eras pensamento,

algo
murmura entre nós dois: 
do mundo a primeira 
das últimas
asas,

em mim cresce
a pele sobre
tempestuosa
boca,

tu
não chegas
até
ti.

o0o

COMO TE EXTINGUES em mim:

ainda no último
e gasto
nó de ar
estás lá com uma
faísca 
de vida. 

o0o
OS DESAPARECIDOS
papagaios-cinza
rezam a missa
em uma boca.

Ouves chover
e achas que também agora
seria Deus.

In CRISTAL, trad. Cláudia Cavalcanti, São Paulo, Iluminuras, 2011,pp. 137-145

richard toveen




quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Rainer Maria Rilke

LEDA
Quando o deus revestiu sua figura, 
surpreendeu-se de achar tanta beleza 
no cisne e se deixou perder na alvura. 
Mas logo se aprestou à sua empresa,

antes ainda que da sua presa 
provasse as sensações. A que se abria 
compreendeu quem no cisne se encobria. 
Soube que demandava com presteza

algo que a resistência de sua mente 
não pôde mais deter com arma alguma. 
O deus, vencendo a mão desfalecente,

cingiu a amada num coleio-abraço, 
sentiu o próprio corpo, pluma a pluma, 
e só então foi cisne em seu regaço.

In Augusto de Campos, Coisas e Anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 205

LEDA E O CISNE
Leonardo da Vinci

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Gerard Manley Hopkins

A LANTERNA LÁ FORA
Às vezes, no meio da noite move-se uma lanterna 
Que atrai nosso olhar. Quem vai lá? quem a conduz?
Fico pensando, meditando de onde e para quê e aonde,
De quem, escuridão adentro, a tateante luz?

Por mim passam os homens, cujo brilho e beleza 
De índole ou de mente, ou do que seja, torna-os raros;
E, até que a morte ou a distância os trague, esparzem 
Em nosso denso ar palustre ricos raios.

Distância ou morte cedo os consome. E se perdem,
No fim, de todo o revolver de minha vista a persegui-los 
Em vão — e, longe dos olhos, longe do coração.

Perto do coração de Cristo, cujos passos os seguem —
Seu olhar e cuidado amoroso em confirmá-los, corrigi-los — 
Fiel primeiro e último amigo, resgate, salvação.

BELEZA MATIZADA
Glória a Deus pelas coisas de cor variada —
Céu pintalgado, como novilha malhada; 
Pintas-rosas salpicando a truta que nada;
Castanhas que caem, como carvões-em-brasa;
Asa de pintassilgo; paisagem de vária 
Nuance — terra de aprisco, arada, baldia;
Ofícios do homem, sua equipagem e indumentária.

Tudo que é raro, original, estranho, oposto; 
Variável, variegado (por que o seria?) —
Lesto, lento; doce, azedo; faiscante, fosco — 
Aquele cuja beleza é imutável os cria:
Louvai-o.

In Poemas, trad. e introd. de Aíla de Oliveira Gomes, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 91 e 95



terça-feira, 17 de setembro de 2013

Stefan Zweig

EXCERTO DE “O MUNDO QUE EU VI”

Stefan Zweig e Rilke em Paris

De todos esses poetas talvez nenhum haja vivido mais modesta, misteriosa e invisivelmente do que Rilke. Mas sua solidão não era voluntária, forçada ou artificialmente sacerdotal, não era como a de Stefan George na Alemanha; a tranquilidade, por assim dizer, surgia em torno dele, onde quer que ele se achasse. Porque ele fugia a todo ruído e mesmo à sua própria fama — essa “soma de todas as desinteligências que se reúnem em torno de um nome”, como certa vez disse ele de maneira tão elegante – a onda da curiosidade, que em vão se lançava contra ele, só molhava o seu nome, e nunca a sua  pessoa. Era difícil encontrar Rilke. Ele não tinha casa, endereço, onde pudesse ser procurado, não tinha lar, morada fixa, emprego. Estava sempre a viajar pelo mundo, e ninguém, nem mesmo ele próprio, sabia de antemão para onde iria dirigir-se. Para sua alma extremamente sensível toda resolução firme, todo plano e todo aviso já eram incômodos. Por isso só casualmente era possível encontrá-lo. Alguém se achava numa galeria italiana e percebia, sem saber ao certo de quem vinha, um leve e afável sorriso. Só então reconhecia os olhos azuis de Rilke, que quando olhavam para alguém, com sua luz interior lhe animavam os traços fisionômicos, que verdadeiramente nada tinham que chamasse a atenção. Mas precisamente esse não ter nada que chamasse a atenção era o íntimo segredo da sua personalidade. É possível que milhares de pessoas tenham passado por esse jovem de bigode louro e caído e de formas de rosto um pouco eslavas e que não eram dignas de nota por nenhum traço, sem suspeitarem ser ele um poeta e um dos maiores do nosso século. O que ele tinha de especial só se revelava no trato mais íntimo: a extraordinária reserva do seu temperamento. Rilke tinha uma maneira suave e indescritível de aproximar-se, de falar. Quando entrava numa sala onde estavam reunidas várias pessoas fazia-o de modo tão silencioso que quase ninguém notava a sua chegada. Ficava então sentado a escutar, sem querer erguia às vezes a fronte, logo que alguma coisa parecia interessá-lo, e quando falava, fazia-o sempre sem qualquer afetação e sem ênfase. Narrava com a naturalidade, singeleza e carinho com que uma mãe narra ao filho um conto; era admirável ouvi-lo e perceber como ele tornava claro e atraente mesmo o assunto menos interessante. Mas, logo que notava que num grande grupo de pessoas se tornava o objeto da atenção geral, recolhia-se ao seu silêncio e limitava-se a escutar. Todo movimento, todo gesto seu tinha essa suavidade; mesmo quando ria, fazia-o com um tom apenas perceptível. A suavidade era para ele uma necessidade, nada podia perturbá-lo tanto quanto o barulho e, no domínio do sentimento, qualquer veemência. “Essas pessoas que cospem os seus sentimentos como sangue, esgotam-me", disse-me ele certa vez, “por isso russos, já só os suporto como licores, em quantidades bem pequenas". Não menos do que serenidade no proceder eram para ele necessidades absolutamente físicas a ordem, o asseio e o sossego; andar num bonde muito cheio e estar sentado num local barulhento perturbavam-no por algumas horas. Não suportava tudo o que é vulgar e, embora vivesse com recursos parcos, seu vestuário mostrava sempre o máximo esmero, asseio e gosto. Seu vestuário era uma obra prima bem analisada e bem imaginada, de discrição, e apesar disso, acompanhada de uma nota insignificante,  inteiramente pessoal, um pequeno acessório no qual ele tinha um prazer secreto, por exemplo, uma delgada pulseira de prata. O seu senso estético para perfeição e simetria ia até as coisas mais íntimas, mais individuais. Vi-o uma vez em sua morada arrumar a mala para viajar. Com razão foi o meu auxílio recusado, por ser julgado incompetente. A sua arrumação parecia uma colocação de mosaicos, cada peça era posta, quase carinhosamente no espaço cuidadosamente reservado; senti que teria sido um crime perturbar com o meu auxílio essa arrumação tão perfeita. Esse seu senso estético instintivo acompanhava-o até o detalhe mais acessório; escrevia originais mui cuidadosamente no mais bonito papel, com sua bela letra arredondada, deixando entre as linhas distâncias iguais; mesmo para a carta menos importante usava papel seleto, e sua bela escrita regular, limpa arredondada chegava exatamente até a margem. Nunca Rilke deixava sair de suas mãos alguma coisa que não estivesse inteiramente perfeita.       ;
Essa suavidade e concentração que o caracterizavam, não deixavam de exercer influência sobre toda pessoa que dele se aproximasse. Imaginar Rilke impetuoso era tão impossível quanto existir uma pessoa que na presença dele, pela vibração que emanava de sua calma, não perdesse toda exaltação e arrogância, pois sua reserva atuava como uma força que continuava a influir misteriosamente, uma força moral e educadora. Após toda longa conversa com ele uma pessoa se tornava incapaz  por horas ou mesmo por dias, de qualquer vulgaridade. Sem dúvida, por outro lado, essa sua constante reserva, esse nunca querer dar-se inteiramente, punha logo uma barreira que impedia toda cordialidade; creio que só poucos indivíduos se podem gabar de terem sido «amigos» de Rilke. Nos seis volumes de suas cartas quase nunca se vê Rilke tratar alguém por amigo, e parece que ele, desde seus tempos escolares, não concedeu a ninguém o tu fraternal e íntimo. Sua extraordinária sensibilidade não suportava que alguém ou alguma coisa se aproximassem muito dele, e em especial tudo o que era acentuadamente masculino, provocava nele um mal-estar absolutamente físico. Com as mulheres conversava com mais facilidade. Gostava de escrever-lhes, escrevia-lhes muito e mostrava-se mais desembaraçado em sua presença. Talvez fosse a ausência do caráter gutural em suas vozes que lhe agradasse, pois as vozes desagradáveis o faziam sofrer. Vejo-o ainda diante de mim em conversa com um grande aristocrata; durante todo o tempo manteve-se curvado e nem sequer levantou uma só vez os olhos, para que eles não revelassem quanto o fazia sofrer esse falseto desagradável. Mas como era bom ver Rilke junto de uma pessoa de quem ele gostava! Então se sentia sua bondade íntima, embora fosse ela parca em palavras e sentia-se a sua bondade interior como uma irradiação aquecedora, benéfica, que penetrava até as profundezas da alma.
Apesar de tímido e retraído, Rilke em Paris, nesta cidade que expande o coração, procedia com muito mais franqueza, talvez porque ali a sua obra e o seu nome ainda não eram conhecidos e ele, como anônimo, sempre se sentia mais  desembaraçado, mais livre e mais feliz. Visitei-o ali em dois quartos de aluguel; ambos eram simples e não tinham ornatos e, apesar disso haviam adquirido imediatamente estilo e tranquilidade graças ao seu senso estético. Ele jamais poderia morar numa casa grande, com vizinhos barulhentos; preferia uma casa velha, mesmo que fosse menos confortável, mas em que pudesse sentir-se bem, e, onde quer que fosse residir, sabia preparar imediatamente o interior da sua morada mediante habilidade no arranjo dos objetos, de acordo com a sua índole. Havia sempre só muito poucos objetos em torno dele, mas sempre havia flores num vaso ou numa floreira, flores talvez oferecidas por mulheres ou talvez carinhosamente levadas por ele próprio para casa. Viam-se livros em estantes presas à parede, bem encadernados ou cuidadosamente encapados, pois gostava de livros como de animais.  Sobre a secretária as canetas e os lápis achavam-se enfileirados, as folhas de papel em branco bem arrumadas; um ícone russo, um crucifixo que o acompanhavam, creio, em todas suas viagens, davam ao seu gabinete de trabalho um caráter ligeiramente religioso, embora seu espírito não estivesse preso a nenhum determinado dogma. Sentia-se que todo pormenor fora escolhido com cuidado e era mantido com carinho.  Se alguém lhe emprestava um livro que ele não conhecia, ele o devolvia envolto num papel de seda, e o embrulho era feito com muito esmero e atado uma fita de cor, como se fosse um presente de festas.  Lembro-me ainda de ele ter levado ao meu quarto uma dádiva preciosa um manuscrito da “Canção do amor e da morte» e hoje ainda conservo a fita que o circundava. Mas o que havia de mais encantador era passear com Rilke em Paris, pois isso era ver com outros olhos a coisa mais insignificante; ele notava toda minúcia e gostava de pronunciar em voz alta  mesmo os nomes das tabuletas das firmas se eles pareciam soar ritmicamente; conhecer a cidade de Paris até seus últimos cantos e recantos era para ele uma paixão, quase a única que nele notei. Certa vez em que nos encontramos em casa de amigos comuns a ambos, narrei-lhe que na véspera por acaso fora até a velha "Barrière", onde, no cemitério de Picpus haviam sido sepultadas as últimas vítimas da guilhotina, entre elas André Chénier; descrevi-lhe esse pequeno comovente campo com suas sepulturas espalhadas, as quais o forasteiro raramente vê, e contei-lhe que, no regresso, em uma das ruas vira através dum portão um convento com uma espécie de  beguina que calmamente, sem falar, fazia girar, como  num sonho piedoso, o rosário. Foi uma das poucas vezes em que vi quase impaciente esse homem tão suave, tão moderado: ele disse que tinha de ver a sepultara de André Chenier e o convento e perguntou-me se eu queria levá-lo lá. Fomos logo no dia seguinte. Ele ficou numa espécie de imobilidade extática diante desse eremitério solitário e o qualificou de «o mais lírico de Paris». Mas na volta viu que o portão do convento estava fechado. Pude então verificar a sua paciência, que ele na vida não dominava menos da que em sua obra. «Esperemos pelo acaso», disse ele e com a cabeça levemente abaixada postou-se de modo a poder olhar através do portão se ele se abrisse. Esperamos talvez vinte minutos. Uma religiosa que então ia chegando ao convento,  tocou a campainha. «Agora», disse ele baixinho e nervoso. Mas a religiosa percebera que ele espreitava — eu já disse que nele tudo se sentia de longe pela atmosfera — aproximou-se e perguntou-lhe se estava à espera de alguém. Ele sorriu para ela com aquele seu sorriso terno, que imediatamente despertava confiança, e disse francamente que gostaria de ver o convento. A religiosa, sorrindo, disse que sentia muito, mas não podia deixá-lo entrar. Todavia o aconselhou a dirigir-se para a casinha do jardineiro, que ficava perto e de cujo andar superior teria através da janela uma boa vista. E assim conseguiu ele isso, como tantas outras coisas; várias vezes cruzaram-se os nossos caminhos, mas sempre que penso em Rilke vejo-o em Paris, cuja hora mais triste ele não teve o desgosto de presenciar.

[In O Mundo que eu vi, trad de Odilon Gallotti, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1942, pp. 160-166].





segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Else Lasker-Schüler

VIVA!
Meu desejo ferve na nostalgia de meu sangue
como vinho selvagem que arde entre pétalas de
fogo.
Quisera que você e eu, nós, fôssemos uma
força,
fôssemos de um sangue
e uma consumação, uma paixão,
uma ardente canção de amor dos mundos!
Queria que você e eu, nós, nos
ramificássemos,
quando – louco de sol – o dia de verão clama
pela chuva
e nuvens de tempestade estalam no ar!
E que toda vida fosse nossa;
que arrancássemos a morte de sua própria
sepultura
e regozijássemos por seu silêncio.
Quisera que – de nosso abismo – se elevassem
massas
- como rochas – uma após a outra e desembocassem
Em uma cúpula, incansavelmente longínqua!
Que abarcássemos completamente o coração do
céu
e nos encontrássemos em cada brisa
e nos vislumbrássemos por toda a eternidade!
Um dia de celebração no qual murmuraremos
um no outro
no qual – nós dois nos fundiremos
m no outro
como fontes que manam da íngreme
altura rochosa
em ondas que escutem o próprio canto
e -  de repente – desabam rugindo e unem-se
em inseparáveis rebanhos de águas selvagens!


domingo, 15 de setembro de 2013

Ana Luísa Amaral

A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA
Se eu deixasse de escrever poemas em
tom condicional, e o tom de conclusão
passasse a solução mais que perfeita,
seria quase igual a Samotrácia.

Cabeça ausente, mas curva bem lançada
do corpo da prosódia em direção ao sul,
mediterrânica, jubilosa, ardente, leopardo
musical e geometria contaminada
por algum navio. A linha de horizonte:

qualquer linha, por onde os astros morressem
e nascessem, outra feita de fio de fino aço,
e outra ainda onde o teu rosto me contemplasse
ao longe, e me sorrisse sem condição que fosse.

Ter várias formas as linhas do amor: não viver
só de mar ou de planície, nem embalada
em fogo. Que diriam então ou que dirias?

O corpo da prosódia transformado em
corpo de verdade, as pregas do poema,
agora pregas de um vestido longo, tapando
levemente joelho e tornozelo. E não de pedra,
nunca já de pedra. Mas de carne e com
asas —

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 64

Sobre a autora



sábado, 14 de setembro de 2013

Antonio Gamoneda

Proponho a minha cabeça atormentada
pela sede e pela sepultura. Eu queria
expelir um som de alegria;
mas soo a matéria desolada.

Justifico-me na dor. Não há nada;
não encontro nos meus ossos a cobardia.
Em meu canto inverte-se a agonia;
é um caso de luz incorporada.

Proponho a minha cabeça para se houver
necessidade de suportar um raio.
Não falo apenas por mim. Digo, juro

que a beleza é necessária. Morra
o que deve morrer; o que calo.
Não toques, Deus, meu coração impuro.

In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 39


Sir Edward Burne-Jones




sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Walt Whitman

CANÇÃO PELO TEMPO DE LILÁS
Cantai para mim, agora, a alegria do tempo de lilás (voltando à
[memória),
Escolhei para mim, ó língua e lábios, em nome da natureza, souvenirs
[do princípio de verão, 
Juntai os sinais bem-vindos (como as crianças com ágatas ou conchas
[penduradas
Colocai em abril ou em maio, as pererecas coaxando nos açudes, o
[ar elástico,
Abelhas, borboletas, o pardal com notas simples,
O azulão e a andorinha que se arremessam, sem esquecer o buraco-
[alto cintilando suas asas douradas, 
A tranquila névoa solar, a fumaça que sobe, o vapor,
O tremeluzir das águas com os peixes dentro delas, o azul celeste
[acima,
Tudo o que é aprazível e brilhante, os riachos correndo,
As florestas de carvalho silvestre, os cintilantes dias de fevereiro e
[a fabricação de açúcar,
O pisco de peito ruivo no lugar em que dança, com olhos brilhantes
[e peito marrom, 
Com um chamado musical claro na alvorada e, novamente, no
[crepúsculo,
Ou esvoaçando entre as árvores do pomar de macieiras, construindo
[o ninho de seu par,
A neve derretida de março, o salgueiro emitindo seus brotos amarelos
[esverdeados,
Pois o tempo da primavera é aqui! O verão é aqui! E o que é isso
[em si mesmo e de si? 
Tu, alma, presa — a inquietação de ir atrás de algo que não sei; 
Vem! não nos atrasemos mais por aqui, que possamos subir e ir
[embora!
Ó se alguém pudesse apenas voar como um pássaro! 
Ó escapar, para navegar como em um navio!
Deslizar contigo, ó alma, sobre tudo, em tudo, como um navio
[sobre as águas;
Reunindo esses sinais, os prelúdios, o céu azul, a relva, as gotas de
[orvalho matinal,
O perfume de lilás, os arbustos com folhas verde-escuras em forma
[de coração,
Violetas, os pequenos botões delicados e pálidos chamados inocência, 
Exemplos e tipos não por si mesmos, mas para a sua atmosfera, 
Para agraciar o arbusto que amo — para cantar com os pássaros, 
Uma canção pela alegria do tempo de lilases, voltando à memória.

In Folhas da Relva, trad. Luciano Alves Meira, São Paulo, Martin Claret, 2006, pp. 372-373.



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Herberto Helder

Porque ela vai morrer

Porque ela vai morrer.
Cai no sono a água fria, e ferve, no sono de cal a água 
fria:  ah, a brusca temperatura, a insensatez 
das imagens.
O pêlo negro das mães escorrega na sua cara 
de criança voltada.
Só ela tão longamente se voltaria
dormindo,
criança
que se desdobra. Dêem um nome à memória, uma 
arrumação sonora que se escreva 
e ofusque — um nome 
para morrer.
Porque a criança atravessa tudo e já toca no centro de si própria.

In Do Mundo, In Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim, p. 491

Hyatt Moore

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Elizabeth Bishop

PARIS, SETE DA MANHÃ
Viajo a cada um dos relógios do apartamento:
histriões, alguns ponteiros indicam uma direção,
alguns a outras, a partir de seus ignorantes rostos.
O tempo é uma Etoile;  as horas divergem tanto
que os dias são travessias ao redor dos subúrbios,
círculos ao redor de estrelas, círculos que se sobrepõem.
A pequena escala demi-ton dos climas do inverno
é uma asa de pombo aberta.
O inverno vive sob a asa de um pombo, de um pombo morto e com
[as plumas viscosas.

Olhe para baixo, no pátio. Todas as casas
estão construídas assim, com urnas ornamentais
no cimo das mansardas onde os pombos
passeiam. É como introspecção
o olhar para o interior, ou como retrospecção,
uma estrela dentro de um retângulo, uma recordação:
este quadrado vazio poderia ter estado lá.
— Os fortes de neve da infância, erigidos em invernos mais
[brilhantes,
poderiam ter assumido esta proporção e converter-se em casas;
os poderosos fortes de neve de quatro ou cinco andares,
se resistissem à primavera como os de areia às marés,
seus muros, sua forma, não se teriam dissolvido e morto,
mas somente teriam um se sobreposto ao outro, tornados pedras,
agora acinzentados e amarelecidos como são as pedras.

Aonde as munições, as bolas de canhão em pilhas,
com seus corações de gelo como estilhaços de estrelas?
Este céu não é um pombo-correio-guerreiro
que sabe safar-se da intersecçâo de intermináveis círculos.
É um céu morto, ou o céu do qual caiu um pombo morto.
Suas cinzas, ou plumas, estão guardadas nestas urnas.
Quando se fundiria a estrela, ou teria ela sido capturada
pela sequência de quadrados e quadrados, de círculos e círculos?
E os relógios, saberão? Estará a estrela lá embaixo,
a ponto de despencar sobre a neve?


Bishop, Elizabeth. Poemas. tr. e intr. de Horácio Costa, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, pp. 51-53 


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Adonis

CELEBRAÇÃO DE BEIRUTE, 1982.
O tempo avança,
na mão um cajado de ossos de corpos.

A lâmina da insônia
marca o pescoço da noite.

Crânios – uns servem sangue
outros se embriagam e deliram.

O fogo se suja?
o vento se infla?

Fumaça é nuvens.
Nuvens tem forma de cabeças.

Letras caídas
são impressas dispersas no chão
- pedaços de corpos.

Hoje o horizonte recomendou a seu filho
o vento que não saísse.

Como não se cansam as pedras do caminho?

Nem mesmo o sol consegue
iluminar este corpo que sangra sombra.

Dias cobertos de pó
tem feições de velhos.

Mariposas queimam
Subindo a escada do sono.

A cinza, princesa,
toma assento e recebe as honras.

O míssil, rei,
arrasta a cauda
sobre os corpos dos súditos.

O sol está prestes a dizer
à luz: ofusca meus olhos.

Será a vida um erro
que a matança corrige?

Onde está a cova aberta para acolher as lágrimas?
E o buraco que acolherá a alma?

A coisa elimina a coisa.

Não terá outro seio
este céu?

Esta rosa, de onde lhe vem tanta obstinação?
Está sempre lendo seu amor.

O dia tem medo do dia
e a noite se esconde da noite.

Agradeço
ao pó que se mistura com a fumaça e a abranda,
ao intervalo entre uma bomba e outra,
ao piso que sempre aguenta meus passos,
agradeço às pedras que ensinam a paciência.

Apagou-se a luz.
Vou acender a estrela dos meus sonhos.

Leva-me, amor,
e me mantém trancado.


ADONIS [poemas], São Paulo, Companhia das Letras, 2012, seleção e tradução do árabe Michel Sleiman, pp. 175-178.



CELEBRAÇÃO DA INFÂNCIA
Lembro a loucura
apoiando-se, pela primeira vez, no travesseiro do juízo:
eu falando com meu corpo.

Meu corpo era um pesamento
que eu escrevia em vermelho:
o vermelho era o mais belo assento do sol
e todas as outras cores rezavam
em cima de um tapete vermelho.

A noite era outro lampião.

Em cada galho havia um braço:
carta carregada pelo espaço
confirmada pelo corpo do vento.

O sol insistia, nesses tempos,
se vestia de bruma
em nossos encontros:
era reprimenda da luz?

Ah meus dias idos...
caminhavam sonâmbulos
e eu apoiado em seus ombros.

O amor e o sonho são parênteses
onde interponho o meu corpo
e nisso conheço o mundo.

Muitas vezes
vi o vento voar com pés de erva
vi o caminho dançar com pés de vento.

Meus desejos são rosas
manchadas por meus dias.

Cedo me feri
cedo soube
que as feridas me criaram.

Não paro de andar atrás da criança
que não para de andar dentro de mim.
Agora ela para no topo de uma escada de luz
à procura de um canto para descansar
e de novo ler o rosto da noite.

Se a lua fosse uma casa
meus pés recusavam cruzar sua soleira:
eu seria tomado pela poeira
que me traz o vento das estações.

Caminho
ponho uma mão no ar
e a outra nas tranças que imagino.

A estrela é também uma pedrinha
no campo astral.

Só quem se misturou com o horizonte
pode abrir um caminho.

A lua, uma velha...
seu assento é a noite, seu cajado é a luz.

O que direi àquele meu corpo
que deixei entre as ruínas da casa onde nasci?
Não. Só poderão contar minha infância
as estrelas que cintilam em cima daquela casa
e pontilham com seus passos as direções da noite.

Minha infância ainda
nasce entre as mãos de uma luz
cujo nome desconheço e me dá nome.

Aquele rio.
Fazia dele um espelho
para perguntar-lhe sobre suas tristezas,
das tristezas fazia chuva
para imitar as nuvens.

Pequena aldeia tua infância
e apesar disto
não ultrapassarás suas fronteiras
por mais que te afaste a viagem.

Seus dias são lagos
suas lembranças corpos flutuantes.

Tu que caíste das alturas
nas montanhas do passado
como poderás subi-las
de novo?

Tempo: porta trancada
tento não consigo abri-la.
Meu encantamento está cansado
meus amuletos, dormentes.

Nasci numa aldeia
pequena, reclusa, como o útero
e ainda não saí dela.
Meu amor vai pelo oceano
não pelas praias.

Id. Ibid, pp. 179-183.







segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Murilo Mendes

Ideia Fortíssima
Uma ideia fortíssima entre todas menos uma 
Habita meu cérebro noite e dia,
A idéia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha 
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma idéia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma idéia que verruma todos os poros do meu corpo 
E só não se torna o grande cáustico 
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de
[Deus.

Companheira
Companheira, dou-te as sombras que me acompanham, 
Todas as sombras criadas pelos vivos.
Companheira, dou-te a alegria
Do que nada tem a esperar do esforço humano.
Dou-te a cantiga do asilado,
O suspiro do menino que olha em vão 
O velocípede do menino vizinho.
Dou-te a nostalgia de quem soltou papagaio 
Em épocas muito remotas.
Companheira,
Dou-te a tristeza do que nada achou na sua primeira comunhão. 
Dou-te o desconsolo do que está sendo destruído 
Pelos crimes que não cometeu,
Pelos crimes de outros em época distante.

Pastoral
Traze a sandália e o bordão para passearmos no campo sereno. 
Somos contemporâneos de raças extintas,
Viemos de torres golpeadas e de hóstias profanadas.
Até que desçamos para os rios invisíveis 
Convém dançar entre os humanos, comer o pão e o mel.
Os imortais nos aguardam nas esferas da música:
Muitos pássaros, muitas luas viajantes têm nostalgia de nós. 
Esquadrilhas de mitos são enviadas para nos protegerem. 
Hospedamos companheiros imprevistos,
O Máscara de Ferro, Nosferatu,
Ou então a Órfã do Castelo Negro.
As fontes esperam nosso sinal para murmurarem,
E os germes da peste se contêm ante a nossa benção.
Paz aos corpos insaciados de amor, aos membros genitais em delírio:

Suspendei de novo no azul a gaiola dos anjos,
Voltem de novo os lírios do vale em lugar dos fuzis.

In Metamorfoses, Poesia Completa e Prosa,  Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1994, pp. 316-317.


ISMAEL NERY

domingo, 8 de setembro de 2013

Emily Dickinson

Nunca me senti em Casa — Aqui —
E lá nos Belos Céus
Jamais me sentirei em Casa — eu sei — 
Não gosto do Paraíso —

Porque é Domingo — todo o tempo lá — 
E nunca — há Intervalo —
E o Éden é tão triste nas brilhantes 
Tardes de Quarta-feira —

Se Deus fosse em visita —
Ou fizesse uma Sesta —
De forma a não nos ver — mas dizem 
Que Ele é — um Telescópio

Que nos vigia Perene —
Eu fugiria D’Ele —
Do Espírito Santo — de Todos —
Mas há o dito «Dia do Juízo Final»!

In Cem Poemas, trad. Ana Luísa Amaral, Lisboa, Ed. Relógio D´Água, 2010, p. 71.



sábado, 7 de setembro de 2013

Henriqueta Lisboa

TRADIÇÃO
O Caraça tem diadema 
de ouro que ninguém conhece. 
— Mas o ouro puro da gema 
traz o signo de outra espécie.

Apagou-se o rastro andejo 
de Bento Godóis Rodrigues 
junto aos três almofarizes 
que ficaram de sobejo 
quando ele para haver água 
distraidamente cava 
e à flor da terra descobre 
mina que o salvou de pobre.

Não se sabe onde o artesão 
misterioso peregrino 
nos seus andrajos tão chão 
como seguro no tino, 
de passeios solitários 
pelas brenhas caracenses 
colhe barras, com a licença 
de dourar os relicários.

Em jazidas ou feitiços 
dorme o ouro do preto velho 
que matreiro por discreto 
desfruta filão maciço.
E no seu momento extremo 
quer revelar o sigilo 
pelos silenciosos reinos 
até hoje a persegui-lo.

Desapareceu de vez 
para dramático espanto 
dos construtores da igreja,
às ordens do padre santo, 
jorro de fulvo metal 
que das feridas da rocha 
aos estampidos da pólvora 
emergiu — talvez do mal.

O Caraça tem diadema de ouro 
que ninguém conhece.
—   Mas o ouro puro da gema 
traz o signo de outra espécie.

[In Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral,  São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 321-322].




Eugénio de Andrade

DO OUTRO LADO Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrej...