segunda-feira, 31 de março de 2014

T. S. Eliot

UM CÂNTICO PARA SIMEÃO
Senhor, os jacintos romanos estão florindo nos vasos
E o sol do inverno resvala sobre as colinas de neve.
Rendeu-se a quadra obstinada.
Minha vida é luz, à espera do sopro da morte,
Tal uma pluma no dorso de minha mão.
A poeira entre os raios de sol e a memória nos cantos
Aguardam o vento que esfria rumo à terra morta.

     Concede-nos tua paz.
Muitos anos caminhei nesta cidade,
Guardei fé e jejum, poupei para os pobres,
Dei e recebi honra e conforto.
Ninguém jamais de minha porta repeli.
Quem se recordará de minha casa, onde viverão os filhos
[de meus filhos
Quando vier o tempo do infortúnio?
Buscarão eles a trilha da cabra e a toca da raposa,
Esquivando-se às faces e às espadas forasteiras.

     Antes do tempo das cordas e dos flagelos e dos lamentos
Concede-nos tua paz.
Antes das estações na montanha da desolação,
Antes da hora certa da aflição materna,
Agora, nesta quadra em que morte se avizinha,
Possa o Infante, o Verbo inexpresso e impronunciado ainda,
Conceder a consolação de Israel
A quem tem oitenta anos e nenhum amanhã

     Conforme tua palavra.
Eles Te haverão de exaltar e de sofrer em cada geração
Com glória e escárnio,
Luz sobre luz, galgando a escada dos santos.
Não para mim o martírio, o êxtase do pensamento e da
[prece,
Não para mim a última visão.
Concede-me tua paz.
(E uma espada trespassará teu coração,
O teu também.)
Estou cansado de minha vida e da vida dos que virão depois
[de mim,
Estou morrendo de minha morte e da morte dos que virão
[depois de mim.
Deixa partir teu servo,
Após ter visto tua salvação.

[In Poemas de Ariel, Poesia, T. S. Eliot, Tradução, apresentação, introdução e notas de Ivan Junqueira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 150-151].

Rembrandt van Rijn


domingo, 30 de março de 2014

Ingeborg Bachmann

MANOBRAS DE OUTONO
Não digo: foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gôndolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e miríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo de ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pores-de-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

[In O tempo Aprazado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 35-37]


Jacob Epstein

sábado, 29 de março de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

DE ESQUECER
Demorei-me muito tempo ao pé de ti.
As portas fechadas por dentro, como se encerrasses
o amor e a lei. Demorei-me demais. Ao fim da tarde,
nesse mesmo dia que já morreu,
olhámo-nos devagar, mas distraídos. Diria até que anoiteceu
Nunca falámos do amor que chega tarde.
Nem o interpelámos (como se já não pudesse
ter nome). Fingia ter esquecido o teu corpo
nas muralhas. Nas areias.
Vês aqui alguma figura? Ninguém vê.
Repara no ponto preto que alastra na margem do quadro
nas minhas lágrimas desse tempo.
Relê.

[In Modos de Música, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, p. 307]

Claude Monet


sexta-feira, 28 de março de 2014

Edmond Jabès

SEMIABERTA, MINHA MÃO
Semiaberta,
minha mão
insensível à fadiga.
Signos e seus sons
buscam se embrenhar
no estreito espaço
prometido à pena.
Em breve, a respiração
não se fará mais.
A mão se achatará
sobre a folha.
Abusada.

[In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MAO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, pp. 77-79]




quinta-feira, 27 de março de 2014

Seamus Heaney

OSTRAS
Nossas conchas craqueavam nos pratos.
Minha língua era um estuário se enchendo.
Meu palato curvado de estrelas:
Enquanto eu degustava as Plêiades salgadas
Órion mergulhava o pé na água.
Vivas e violadas,
Jaziam nos leitos de gelo:
Bivalves: o bulbo partido
E o suspiro galanteador do oceano.
Milhões delas rompidas, arrancadas, dispersadas.
Fôramos de carro àquela costa
Através de flores e calcários
E lá estávamos, brindando à amizade,
Depondo uma lembrança perfeita
No frescor do colmo e da louça de barro.

[In Poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 141]




quarta-feira, 26 de março de 2014

Adélia Prado

SONHO E LEMBRANÇA — I
UMA BRUMA DE CHUVA escurecia a manhã, lentíssima em clarear. Uma de nós precisava sair: minha mãe ou eu? Fui eu, com uma sombrinha preta. Desci na porta da rua os dois degraus e abri a sombrinha há muito tempo fechada. Saíram de dentro ciriricas grandes. Eu ia abrindo a sombrinha, abria junto o sol. Uma coisa desatava-se, a semente da claridade. Distinguia no ar, com a luz aumentando, muitas ciriricas, alguém me esperava para a alegria do corpo, tal qual nesta lembrança antiga que eu possuo: sol com chuva, de tarde. No caminho atrás da fábrica vai uma dona gordíssima de cabelo “à-demi”, exibindo sombrinha e ancas. É uma dona feliz, é uma dona engraçada, sem saber. É boa, boa, usa pó-de-arroz e vai me visitar com presentinhos. É igualzinho sol com chuva casamento de viúva. Na minha lembrança essa dona caminha firme até uma casa e depois não sei mais o que acontece. É retalho de vida, desenho de almanaque, é sonho? O que seja, é do céu que vem. Não pode vir de outro sítio, o que me deixa assim, picando de felicidade. É mais poderosa que o tempo a coisa orgasmática. Vige no sonho, em vigília, põe o corpo radioso, mesmo velho. É pré-cristã, não pagã. É assim: Deus é multívoco.

[Adélia Prado, in Solte os Cachorros, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1979, pp. 99]




Torquato da Luz, 2004





terça-feira, 25 de março de 2014

Al Purdy

SOBRE SER-SE HUMANO
Quando a minha mãe foi parar ao hospital
após ter caído sozinha no quarto
eu estava a vinte e oito quilómetros de distância
a tentar construir uma casa

Fui visitá-la mais tarde
e algo no meu rosto a fez dizer
"Achei que fosses sentir-te pessimamente"
referindo-se ela a eu ficar destroçado
com aquilo que lhe tinha acontecido
— eu não andava a sentir lá grande coisa
por essa altura e julgo que terá transparecido
o simples pensamento de que teria de percorrer
aqueles vinte e oito quilómetros todos os dias
para a visitar e o resmoneio para mim mesmo
Nesse instante
ela tinha visto para lá das portadas
que normalmente se fecham sobre o rosto humano
e apercebeu-se de repente
que pouco ou nenhum afecto
por si havia no meu rosto
e essa percepção
foi pior do que os seus ferimentos

Porém não há como voltar atrás no tempo
para agora fazer algo a esse respeito
se nada foi feito então
e nada foi feito
Ela morreu não muito tempo depois
desorientada da cabeça
esquecida daquilo que lhe tinha acontecido
mas eu lembro-me dessas últimas palavras
coloco-as em primeiro lugar
na lista das coisas de que me envergonho
tão intoleráveis como apercebermo-nos
de que toda a nossa vida foi desperdiçada
— lembrando as palavras da minha prima
sobre o seu irmão bêbedo:
"Teria sido melhor
se ele nem sequer tivesse vivido"

Lembro-me dessas últimas palavras
antes de a febre lhe arrebatar a ideia
e a única coisa positiva agora
é pensar nessas palavras
e ela ver-se imediatamente
restituída de vida
no meu pensamento
para repetir as mesmas palavras
"Achei que fosses sentir-te pessimamente"
uma e outra e outra vez
e eu continuo envergonhado
e eu continuo vivo

Al Purdy foi um grande poeta canadense (30/12/1918 - 21/04/2000)

[Tradução de Vasco Gato]


segunda-feira, 24 de março de 2014

Hélia Correia

22.
E como que o ouviam,
Esses atenienses, quando os louros
— Não eram também louros os Aqueus
Que tão saudosamente recordamos?
Capitães do império os fuzilavam.

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 28]

24.
O que não sabe
De cor poemas como os que salvaram
Literalmente os soldados que, vencidos
E condenados a morrer à míngua
Ou a serem vendidos como escravos —
Atenienses contra Siracusa —,
Deram aos inimigos, mais valioso
Do que ouro podia ser, versos de Eurípides,
E em troca disso foram libertados.

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 30]

25.
Sim, falamos de sombras. Vendo bem,
Incendiámos tudo: Alexandria
E os sábios, as mulheres. Incendiámos
O grande coração. Temos aos ombros
O apetrecho dos destruidores,
Não a pólvora, não: essa arrogância
Pela qual o ocidente se perdeu.

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 31]

26.
Humilhado lugar, empobrecido
Palácio de colunas, vitoriosa
Atena a qual se inclina para atar
Os fios da sandália e assim perdura
Na austera opulência, sem que algum
Visitante se cale a contemplá-la. 

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 32]

27.
Oh Grécia que chamaste Byron como
Incestuosa irmã, tu que lutavas
Contra visíveis com visíveis armas,
E invisíveis também pois não lançou
Zeus o seu raio contra os ocupantes
Que fizeram do Pártenon paiol
E foram, no entanto, incendiados,
Tu, Grécia, semelhante a heroína
Sujeita a vilipêndio, tu a quem
Acorreram os jovens da Europa,
Os de linhagem, como impacientes
Por qualquer boa espécie de jornada,
Tu, que também chamaste por Friedrich
Tarde de mais, pois ele cortara com
Toda a noção de possibilidade,
Parecias levar tudo tão a sério
Que tu própria quiseste matar Byron
Deitando-o devagar, adoecendo-o,
Poupando o ao confronto e à derrota,
Porque derrota houve uns anos mais. 

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 33]

28.
«Acorda — a Grécia não, que está desperta —
Acorda tu, meu espírito», disse ele.
Cavalgava na chuva, cavalgava
Distante dos amigos, de mãos nuas,
Prevendo a glória e acordando o chão
De Missolonghi, um chão esfaimado há muito.
Um chão onde ele esperava repousar. 

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 34]





domingo, 23 de março de 2014

Murilo Mendes

HOMENAGEM A JORGE DE LIMA
Inventor, teu próprio mito, Jorge, ordenas,
E este reino de fera e sombra.
Herdeiro de Orfeu, acrescentas a lira.

À mesa te sentaste com os cimeiros
Dante, Luís de Gongora, o Lusíada,
E Lautréamont, jovem sol negro
Que inaugura nosso tempo.

O roteiro traçando, usaste os mares.
A ilha tocas, e breve a configuras:
Ilha de realidade subjetiva
Onde a infância e o universo do mal
Abraçam-se, perdoados.
Tudo o que é do homem e terra te confina.

Inventor de novo corte e ritmo,
Sopras o poema de mil braços,
Fundas a realidade,
Fundas a energia.
Com a palavra gustativa,
A carga espiritual
E o signo plástico
Nomeias todo ente.
O frêmito e movimento do teu verso
Mantido pela forte e larga envergadura.
Poder da imagem que provoca a vida
E, respirando, manifesta
O mal do nosso tempo, em sangue exposto. 
Aboliste as fronteiras da aparência:
No teu Livro, fértil se conjugam
Sono e vigília,
Vida e morte,
Sonho e ação.

Nutres a natureza que te nutre,
Mesmo as bacantes que te exaurem o peito.
Aplaca tua lira pedra e angústia:
Cantando clarificas
A substância de argila e estilhaços divinos
Que mal somos.

[In Poesia Completa e Prosa, Ed. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, pp. 555-556].

Alexandre Seon

sábado, 22 de março de 2014

Eloy Sánchez Rosillo

DAQUI
Esta estranha ladeira pela qual vou descendo
avança entre a névoa. Já não recordo bem
se houve sol matinal na subida,
nem se era aquele cume onde então estive
o exacto centro da luz. Agora
dou passos prudentes; tudo aqui é confuso.
Perdi-me no tempo. Avanço e retrocedo,
e não consigo segurar as formas puras
de existir em que me apoiava
quando era firme o mundo e as coisas tinham
princípio e fim, definição, contornos.
Não existe ontem, nem hoje, nem amanhã.
Em que lugar do tempo se vai estendendo
a bruma que me envolve? O antes é depois,
o que passou não aconteceu, o que ainda
há-de vir talvez ocorra agora.
Quem sou? Quem desde dentro de mim me desconhece?
Fui criança um dia, ou fabulei uma história
Que me ajudasse a viver nos maus momentos?
Entrevejo ao longe um verão
que não teve começo e não termina
(é sempre verão quando rememoro
na obscuridade a luz primeira):
uma casa no campo; brinco junto
da acácia que dá sombra à porta;
minha mãe cose ou lê perto de mim e fita-me
com os olhos mais doces e límpidos
que jamais vi. E de súbito não existem
aquela casa branca, as amendoeiras, a vinha,
as galeras carregadas com sacas de trigo
sob o fulgor de agosto, nem minha mãe
me fita já. Um rapaz escreve num caderno
seus primeiros poemas; é de noite; a lua
entra pela janela do seu quarto;
observai-o a trabalhar: que emoção no seu peito,
como em suas mãos arde a vida que deseja
transpor para o papel. Mas vai chegando
pouco a pouco a aurora à cidade,
e o quarto que tínhamos visto está vazio;
parece que jamais terá estado
nesta habitação aquele adolescente
que escrevia de noite. Uma rapariga passa
perto de mim, e detém-se; seu sorriso,
seus olhos, tão azuis, estão cheios de ilusão. Começamos
a andar por um caminho. Aonde nos leva?
De súbito, passam-se muitos anos.
De onde surge o amor? Quando se extingue?
Um menino está sentado nesse tapete; brinca
com seus brinquedos; grita e bate palmas
ao contemplar a tropa inumerável
de ferozes bonecos que dispôs
ante si em rigorosa formação de combate.
E eu assisto ao milagre da sua infância; rimo-nos
com o riso mais franco, e, abraçados,
pai e filho rolamos pelo chão
enquanto principia lenta, lentamente,
uma manhã de primavera.
Mas num só instante cerrou-se a noite;
crescem as sombras, é inverno, chove,
e não há ninguém em minha casa. Que aconteceu?
Que é feito do menino cujo riso
me unia a uma verdade tão verdadeira?
E o que é feito de mim, das seguras
certezas que me sustinham?
Um estranho habita-me. Nos espelhos vejo
o olhar perplexo, interrogativo,
de um rosto alheio, de alguém que em nada se parece
àquele fui alguma vez. Não sei se estou a sonhar,
não sei se estou desperto, se imagino ou lembro.
Quiçá sonhemos sempre. Vivo na incerteza.
Perdi-me no tempo. Dou passos na névoa,
desço tacteando a ladeira insegura.
Tudo acontece agora depressa, muito depressa;
imagens, acontecimentos, enteléquias,
apagam-se, iluminam-se, vão e vêm.
O que é antes? O que é depois? Quem entretece,
ordena e desordena as horas da minha vida?
A realidade e o sonho e a memória,
onde começam e acabam?

ACASO
Não sei se me é outorgado novamente
o dom de escrever poemas – nunca se chega
a saber se é a verdade ou se é tão-só
o nosso desejo de encontrá-la o que
nos desperta a voz e remexe
as profundezas do coração –, mas deixo
sobre o papel estas palavras que hoje
vêm não sei donde e me aproximam
das coisas do mundo, dos afãs
do meu antigo eu. Tanto tempo
de sombras na minha vida, e de repente
chega outra vez a luz que me redime,
a misericordiosa claridade
que me salva por dentro e concede a meu peito
liberdade e consolo. Abro os olhos
e contemplo. Surge a aurora? Dir-se-ia
que finda a treva. E que amanhece.

A LUZ NÃO TE RECORDA
A luz entra hoje no quarto como
entrava na outra tarde. Mas não
nos encontra aqui juntos de novo: não vieste.
Posso recordar-te.
E recordo-te, sozinho, nesta casa
– agora cheia de nada – que outrora compartilhámos.
As palavras que dissemos, a música, teu riso,
e o que nessas horas entre nós sucedeu,
continuam a viver em mim.
Mas a luz não te recorda, porque
a luz ama o presente. Regressa sem memória
ao aposento vazio. E já não sabe
que se enredou no teu cabelo e brilhou em teus olhos,
que, ao mesmo tempo que minhas mãos minuciosas, percorreu
devagar o teu corpo.
Não, a luz não se recorda
de ter estado aqui, contigo, connosco.
Chega, alegre e dourada,
ao lugar em que ardera a vida naquela tarde.
E unicamente encontra em seu silêncio
um homem recordando, recordando-te:
Um homem triste e derrotado e só.

[In La Vida (1996)]
Tradução de João Albuquerque

Sobre Eloy Sánchez Rosillo







sexta-feira, 21 de março de 2014

Dora Ferreira da Silva

NARCISO (I)
Lampeja o olhar que antes a toda a beleza
se esquivara. És tu, Narciso,
teu reflexo nas águas, ou a irmã
de gêmeo rosto e forma?
Não, não te afastas, porque a unidade
em duas se faria e o mundo das sombras ulula
à espera de tal luto. Permaneces inclinado
e adoras, sem saber se és tu, ou quem queres ver
no exasperado amor que as águas refletem.
A Morte veio enfim buscar-te, consternada,
vendo os olhos do estranho amante
fixos na flor nascida de teu sonho.

NARCISO (II)
Folhas incandescentes fizeram da fonte
vale de fulgores. Bebia Narciso sobre a onda
quando uma face viu de tal beleza
que a luz mais viva se tornou.
E Amor — cujas setas jamais puderam alcançar
seu coração esquivo — nele reinou e jamais do jovem
se apartava, que a seu chamado às águas acorria.
Insidiosa veio a Morte para o levar consigo,
deixando numa flor a forma de Narciso.

[In Hídrias, São Paulo, Odysseus, 2004, pp. 38-39].



quinta-feira, 20 de março de 2014

Miguel Torga

FEDERICO GARCIA LORCA
Garcia Lorca, irmão:
Sou eu, mais uma vez...
Venho negar à humana condição
A humana pequenez
Da ingratidão.

Venho e virei enquanto houver poesia,
Povo e sonho na Ibéria.
Venho e virei à tua romaria
Oferecer-te a miséria
Duma oração lusíada e sombria.

Venho, talefe branco da Nevada,
Filho novo de Espanha!
Venho, e não digas nada;
Deixa um pobre poeta da montanha
Trazer torgas à rosa de Granada!

Indomável cigano
Dos caminhos do tempo e da ventura,
Sensual e profano,
O teu génio floresce cada ano...
Venho ver-te crescer da sepultura!

Bruxo das trevas onde alguém te quis,
Nelas arde a paixão do que escreveste!
Sete palmos de terra, e nenhum diz
Que secou a raiz,
Que partiste ou morreste!

Uma luz que é o oceano da verdade
Abre-se onde os teus versos vão abrindo...
A eternidade,
Na pureza da sua claridade,
Sobre o teu nome, universal, caindo...

E o peregrino vem.
Reza devotamente,
Põe no altar o que tem,
E regressa mais livre e mais contente...
Assim faço, também!

[In Poemas Ibéricos, In Poesia Completa, Vol. I, Lisboa, Dom Quixote, 2007, pp. 292-293]

Joaquin Sorolla



quarta-feira, 19 de março de 2014

José Paulo Paes

SOBRE O FIM DA HISTÓRIA
A pólvora já tinha sido inventada, a Bastilha posta abaixo
     e o czar fuzilado quando eu nasci. Embora não me res-
     tasse mais nada por fazer, cultivei ciosamente a minha
     miopia para poder investir contra moinhos de vento.

Eles até que foram simpáticos comigo e os de minha ge-
     ração. Fingiam de gigantes, davam berros horríveis só
     para nos animar a atacá-los.

Faz muito tempo que os sei meros moinhos. Por isso os
     derrubei e construí em seu lugar uma nova Bastilha.
     Vou ver se escondo agora a fórmula da pólvora e ar-
     ranjo um outro czar para o trono.

Quero que meus filhos comecem bem a vida.

[Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo:Companhia das Letras, 2010, p. 49]


Faruk Koksal



terça-feira, 18 de março de 2014

Ailton Volpato

À janela, respiramos turvando a imagem.

Disseram-nos que o fogo devoraria as lavouras destes sonhos urbanos. Mas o que fazer com as torrentes das comportas abertas nos céus?

À janela, respiramos turvando a imagem.

O pensamento é ainda labirinto em forma de ponte - às avessas, em travessias alagadas, sentamos nas caçambas das ideias a coser minutos nas vestes relojoadas do tempo.

do outro lado do rio, o destino em corredeira.

pois quando disseram-nos tempestade, fugimos para os antros seguros da casa - eis quando os desbravadores se apavoram, recolhendo-se na fragilidade dos músculos.

agarrados à janela, ainda respiram turvando a imagem.

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maternidades

A ponta da luz
aponta a lua
no dedo;
a mãe sorri
enquanto o filho
brota no canteiro
materno -
amor, leite e terra,
ternura no afago
de um incipiente
mundo -
abraços no seio
dos lábios.
eis que o regaço terreno
circunda o dorso celeste
da lua, palma de uma mão
branca, cândida epiderme
a mãe sorri
enquanto o filho
brota no canteiro
materno -
o amor e os seus múltiplos
apontam a luz:
a lua em seus dedos,
côncavo lago onírico
onde deitam apaixonados
o poeta e o poema -
o amor e o seus múltiplos
filhotes no ninho
voam na espera:
há ninho em todo sítio
quando o albatroz gera
o peixe e o poeta,
voos feitos a nados,
ainda ancorados na terra
a mãe sorri
enquanto o filho
brota no canteiro
materno -
amor ao céu e à terra,
ternura no afago
do recipiente-mundo:
tigela extensa onde correm
agitados o leite e o mel;
eternidades,
maternidades.

[Ailton Volpato nasceu em Jandira (SP), em 1991. Cursou Filosofia em Curitiba e  atualmente  é noviço da Congregação Sagrada Família de Bérgamo, naquela mesma cidade]. 


Paul Gauguin

segunda-feira, 17 de março de 2014

Yves Bonnefoy

SOBRE UMA PIETÁ DE TINTORETTO
Nunca uma dor
Teve mais elegância nessas grades
Negras, e devoradas pelo sol. Nem nunca
Elegância foi causa mais espiritual,
Um fogo duplo, em pé sobre as grades da noite.

Aqui,
Uma grande esperança foi pintor. Que é
Mais real: o amargor desejante ou a imagem
Pintada? O desejo rasgou o véu da imagem,
A imagem deu vida ao exangue desejo.

UMA VOZ
Tu que dizem beberes da água quase ausente,
Lembra-te de que ela nos escapa e fala-nos.
A frustrante teria, enfim cativa,
Outro gosto que o da água mortal e serás
O iluminado de palavra obscura
Bebida nessa fonte e sempre viva,
Ou a água é sombra só, em que teu rosto
Reflete apenas sua finitude?
— Eu nada sei, eu já não sou, o tempo acaba
Como a cheia de um sonho aos deuses ocultados,
E tua voz, também como uma água, apaga-se
Dessa linguagem clara e que me consumiu.
Sim, posso aqui viver. O anjo, que é a terra,
Vai em cada touceira surgir e queimar.
Sou esse altar vazio, e esse abismo, e esses arcos
E tu mesmo talvez, e a dúvida: mais a alva
E o refulgir das pedras descobertas.

ARTE DA POESIA
Dragado foi o olhar fora daquela noite.
As mãos secadas e imobilizadas.
Reconciliou-se a febre. Disse-se ao coração
Que fosse o coração. Há um demônio nessas veias
Que fugiu a gritar.
Há na boca uma voz tíbia e sangrenta
Que foi lavada e outra vez chamada.

[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 235-237]

Sobre Yves Bonnefoy




domingo, 16 de março de 2014

Ana Luísa Amaral

A CERIMÔNIA
Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,
mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,
em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.

Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.
Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.

Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.

A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um cetro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,

ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último, contei-lhe o caminho
de água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava
com as margens que havia deixado
para trás.

Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,
a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.

Antes lhe tivesse dito vezes sem conta
como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.

Uma prenda, porém,
me é boa na memória:
a do papel e das palavras.
Dispensaria o cetro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.

Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina,
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra
que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?

Onde ficaram as minhas tardes
molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?

Por que outra noite trocaram
o meu escuro?

[In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, pp. 90-92]





sábado, 15 de março de 2014

Luís Miguel Nava

O CORPO ESPACEJADO
Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos
poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos
contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que,
isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular.
Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que
só por abstracção se chegava à noção de um todo come-
çavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre
elas não tardou que espumejassem as marés e a própria
via-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exer-
cia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que
em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de
quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo
brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele
mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas
cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto
detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pe-
quena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de
novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou 
pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés,
mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intes-
nos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava
em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído 
aterrador. 

A NOITE
A noite veio de dentro, começou a surgir do interior 
de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro. 
Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias 
entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros. 
Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las 
crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a pers-
pectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que, 
apesar de a noite também se desprender das coisas, havia 
nela algo de essencialmente humano, visceral. Como ins-
tantes exteriores que procurassem integrar-se na trama 
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde, 
num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das 
coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer 
pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que 
dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz 
e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos 
olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo 
a treva nasalada.

Christine Fogg Horton


quinta-feira, 13 de março de 2014

Wislawa Szymborska

ALGUNS GOSTAM DE POESIA
Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Josef Marian Chelmonski



quarta-feira, 12 de março de 2014

Antonio Gamoneda

Sinto o crepúsculo em minhas mãos. Surge através de um loureiro doente. Eu não quero pensar e não quero ser amado, nem ser feliz nem lembrar.

Eu só quero sentir esta luz em minhas mãos
e ignorar todos os rostos e deixar que as canções não pesem em meu coração.

e que os pássaros passem diante de meus olhos e eu não perceba quando sumirem.


buracos e sombras nas paredes brancas e logo haverá mais buracos e sombras e, finalmente, não haverá paredes brancas.

É a velhice. Ela flui em minhas veias como água perpassada por gemidos.

Cessarão todas as perguntas. Um sol tardio pesa sobre as minhas mãos imóveis e minha quietude a ele se une suavemente, como uma  substância única, o pensamento e seu desaparecimento.

É a agonia e a serenidade.
Talvez eu seja invisível e solitário sem sabê-lo.  De qualquer modo,

a única sabedoria é o esquecimento.

[In Esta luz, Poesía Reunida (1947-2004), Barcelona, Círculo de Lectores, S.A./ Galaxia Gutenberg, 2010]



segunda-feira, 10 de março de 2014

Fernando Sernadas

METADES 20
Escrever sempre também cansa
E a passividade da assistência requer
Dos actores mais trabalho clínico de persuasão
E a leitura a forma mais barata de adormecer
E o melhor sono nessa fronteira onde do palco
Se desce pelas pálpebras toda mentira escarrada

Toda cena depende da criação do ambiente
Uma cena não pode ser a isolação da imagem
Mas mais a actividade mental dos presentes
Disfarçada pela sua inércia de tentáculos
Pois não é pelos movimentos manuais do maestro
Que se pendura a orquestra do silêncio de quem escuta
Todo maestro é sempre o bobo da festa

Fernando Sernadas, 9/3/2014

© Fernando Sernadas, 2014
Todos os direitos reservados

Miriam Schapino

domingo, 9 de março de 2014

Ingeborg Bachmann

DESPRENDE-TE, CORAÇÃO
Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.

Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

[In O tempo aprazado  (Últimos Poemas 1957-1967) tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992].

Laura Knight

sábado, 8 de março de 2014

Paulo José Miranda

POEMA INÉDITO

Aos mestres e amigos António De Castro Caeiro e Mário Jorge Carvalho:

Caminhamos do fim ao fim
Porque não há princípio
Vamos do fim que nos deram
Ao fim que conseguimos
Entre estes dois nadas
Que mais que as nossas mãos são as nossas mães
Uma que nos expulsou
E uma outra que nos espera
Sempre se vai encontrando
Aqui e ali um ou outro remédio
Alguma coisa sem importância
Ou o que quer que seja para se fazer

9 de Outubro de 2011

 ©Paulo José Miranda 
Todos os direitos reservados


 Jacopo Pontormo

sexta-feira, 7 de março de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

TRÊS POEMAS DE VIAGEM
1.
Um museu abandonado
Tantos gestos de amor que se perderam
repousam nestes quadros, nestes gessos:
só uma dobra escusa da pintura
sugere o que de dentro foi regresso.
Tantos gestos de amor, tanta invenção:
como a morte perdida foi momento
de breve encontro, engano, sedução
de quanto em nós de pedra se fez vento.
Tantos gestos de amor que não perduram
foram nas árvores seiva interrompida
e no desenho oculto da pintura
são a raiz e o chão da nossa vida.
Mas ao vento, lá fora, duram árvores
nas folhas já de seiva renascida.

[In Outras Canções, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, p. 352]





quinta-feira, 6 de março de 2014

Antonio Gamoneda

A luz ferve debaixo das minhas pálpebras.

De um rouxinol absorto na cinza, das suas negras
entranhas musicais, surge uma tempestade. Desce o
pranto às antigas celas, observo chicotes vivos

e o olhar imóvel das bestas, a sua agulha fria no meu
coração.

Tudo é presságio. A luz é a medula da sombra: os
insectos vão morrer nas bugias do amanhecer. Assim

ardem em mim os significados.

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 217].

By Sergey Andriyaka


quarta-feira, 5 de março de 2014

Edmond Jabès

SEMPRE ESSA IMAGEM
Sempre essa imagem
da mão e da fronte,
do escrito rendido
ao pensamento.

Tal a ave no ninho,
minha cabeça está em minha mão.
Restaria a árvore a celebrar,
se o deserto não fosse toda parte.

Imortais para a morte.
A areia é nossa parte
insensata de herança.

Possa essa mão
onde o espírito se recolheu,
ser plena de sementes.
Amanhã é um outro termo.

Sabíeis que nossas unhas
outrora foram lágrimas?
Arranhamos os muros com nossos prantos
endurecidos como nossos corações-infantes.

Não pode haver salvamento
quando o sangue afogou o mundo.
Dispomos apenas de nossos braços
para alcançar, a nado, a morte.

(Para além dos mares, acima das cristas,
minúsculo planeta não identificado,
mãos unidas, redondas mãos plenas,
escapadas ao pesar.)


Quando a memória nos for rendida,
o amor saberá enfim sua idade?

Felicidade de um velho segredo partilhado.
Ao universo se agarra ainda
a esperança do primeiro vocábulo;
à mão, a página amarrotada.

Há somente tempo para o despertar.

[In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MÃO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, pp. 78-83].

By Fran Viegas


terça-feira, 4 de março de 2014

Mariana Ianelli

Nada foi feito que revivesse a coisa morta,
Mas no rosto do amante solitário
Uma tarde despontou dentre milhares
E quis do homem o seu prazer intenso
De sonhar o mesmo vulto sobre a cama,
O mesmo vínculo que se estabeleceu
Para ser rompido como os que o antecederam
E os que viriam raramente depois dele.
Cindiu a indiferença dos anos e voltou
Com sua fome, seu poder ambíguo de encantar
Pela eternidade do instante que floresce
Apenas quando a melancolia de tê-lo perdido
Também volta, agora com toda a sua beleza visionária.
Uma tarde cuja manhã já se esqueceu
No traço de tantas iguais que vêm e passam
Como para só cumprir o ato necessário;
Uma tarde cuja noite se tornou algum resíduo amortalhado.
Estava ilhada, suspensa no fluxo do tempo,
Era a relíquia do amante e era o seu trauma.

[In Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 81]

Berthe Morisot 

 Manet à l'île de Wight

segunda-feira, 3 de março de 2014

Giacomo Leopardi

FRAGMENTO DO GREGO, DE SIMÔNIDES
Todo o mundano evento
De Jove está nas mãos, de Jove, ó filho,
Que, por seu próprio intento,
Tudo traz já contado.
Mas de um lugar passado
Nosso cego pensar se alegra e apura,
Se bem que o humano rito,
Como prepara o céu nossa ventura,
De dia em dia dura.
Nutre a nós todos a bela esperança
De semblante bendito
Onde cada um se cansa:
Um busca a aurora mansa,
Um outro a idosa meta;
E nada em terra segue
Que nos anos a vir extraordinários
Com Pluto e os deuses vários
A mente não prometa.
Eis que antes que a esperança ao porto chegue
Um traz de velho a face 
Outro por doença o turvo Letes traga;
Este o ríspido Marte, aquele a vaga
Do pélago arrebata,- outro desfaz-se
De árduos cuidados, o outro, um nó atando
Ao pescoço, dentro do chão se encerra.
Assim de muitos ais
Aos míseros mortais
Bando vário e feroz dissolve e aterra.
Antes certo eu diria
Que um sábio, livre do vulgar error,
Sofrer não quereria
Nem poria na dor
E no seu próprio mal tamanho amor.

[In Alexei Bueno, Cinco século de Poesia, São Paulo, Record, 2013, p. 57]




domingo, 2 de março de 2014

Maria Gabriela Llansol

EXCERTO DE "CAUSA AMANTE"
VI —
Úrsula encontrou à entrada da porta uma mulher com uma cana na mão. Suspeitou que ela teria meia-idade, pois não lhe via o rosto coberto por um chapéu descido; observou-lhe as mãos queimadas, de quem frequentes vezes trabalha, e adormece ao sol.
vim a este país para reconhecer o que escrevo, e por onde andou Ana de Penalosa; faço à mulher a primeira pergunta, a que a mesma pergunta deve suceder-se, por não obter resposta; eu não me sinto a viver ao mesmo diapasão que este país, nem nesta região extensa com terras em que crescem sobreiros ou azinheiras, e onde podem pastar porcos; mas devo continuar a perguntar à mulher, único ser falante que encontrei nestes montes, o que ela ouviu dizer sobre Ana de Penalosa; nada me revela por meio de gestos, e o rosto quase caído sobre o peito, não se levanta; usa chapéu para armar a cabeça.

se a mulher fosse Ana de Penalosa, eu contar-lhe-ia até que ponto as beguinas perturbadas a esperam; sento-me à sua frente como só existisse a luz directa iluminando-nos; desço as pálpebras ao elevar o pensamento para a parede de cal; antes de voltar a mover-me pela palavra, reparo que a minha língua nem coincide com este país, nem com a sua linguagem; mas a mão de Ana de Penalosa, quando ela ma estende, coincide com a minha; trocamos o lugar e, na invocação que dirigimos uma à outra, fico a saber quem é a mulher, e quem eu não sou ainda.

continuo a não encontrar Ana de Penalosa que me deixou quase sozinha neste país que infunde temor; muitas das beguinas tornaram-se aves migratórias e eu, para recolher a experiência da transformação vegetal que sofreu o rei, não fui das que partiu com elas; quando subi ao mirante da casa que deve orientar-me, vi o último bando de aves pousado nas figueiras e nas alfarrobeiras, com as amendoeiras dispersas ao meio; quando se aquietaram nas diferentes árvores para passar a noite, escutei o som deste crepúsculo que se estendia pelas azinhagas próximas; como sucede quando alguém que eu amo está para partir, eu sentia-me já no deserto. Fosse de noite, ou já claro, o calor e a imobilidade eram os mesmos; tive receio de que dom arbusto, se naquele jardim estivesse plantado, morresse na terra, ou vogasse à deriva do que, sem mutação, estava a passar-se; o adeus das aves, e o seu regresso, davam um certo sentido àqueles campos em que a escrita cultivada pelas beguinas se tornara seca e atonal.

não quis ficar fora do círculo das beguinas, neste país onde só cresciam belezas excluídas. Tive o pensamento cruel de preparar armadilhas às aves que se dispunham a partir; mas lembrei-me da alegria de Eleanora, Margarida, Eulália, Alice, Marta, Clara Serena, da própria rapariga que temia a impostura da língua.

De manhã, sem ter dormido, reparei, perto de mim, no vulto enraizado de dom arbusto e deitei-lhe água, que tirei do poço; no espaço, ainda agitado pelo voo, as aves migratórias tinham deixado cair grandes ovos que, sem quebrar-se, pousaram na terra, e se transformaram nesta paisagem em que tinha vivido Comuns.

no regresso, ensinou-me a romper o silêncio, ou a falar nele; a ausência de Ana de Penalosa fez-me ver até que ponto uma paisagem se pronuncia sobre outra paisagem; só a névoa do Brabante me levaria a contar  como os arbustos desse país litoral ardem.

não consigo chegar a compreender a natureza das alterações da percepção de Sebastião, o dom, mergulhado no solo, ou na névoa; mas ele, dom arbusto, já se adaptou a esta visão singular das folhas que tinha encontrado no jardim de Psyché.

[In Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1994, pp. 151-153]

N.B.: Pela dificuldade de reprodução, não se respeita aqui a disposição gráfica original do texto.
John W. Waterhouse



sábado, 1 de março de 2014

Jacques Prévert

LAMENTO DE VINCENT
A Paul Éluard

Em Arles onde corre o Ródano
Na atroz luz do meio-dia
Um homem de fósforo e sangue
Solta um grito obsessivo
Como uma mulher que pare o filho
E o lençol fica todo vermelho
E o homem sai de casa gritando
Perseguido pelo sol
Pelo sol amarelo estridente
No bordel próximo do Ródano
O homem chega como se rei mago
Trazendo um absurdo presente
Tem o olhar azul e calmo
O verdadeiro olhar lúcido e louco
Dos que dão tudo à vida
Tudo e não têm ciúmes
E ele mostra à pobre mocinha
Sua orelha deitada no pano
E ela chora sem nada compreender
Sonhando com tristes presságios
E olha para ela sem ousar pegar
A terrível e terna concha
Em que os gritos do amor morto
E as vozes inumanas da arte
Se misturam com os murmúrios do mar
E vão morrer no assoalho
No quarto em que o edredom vermelho
De um vermelho súbito chocante
Mistura esse vermelho tão vermelho
Ao sangue ainda mais vermelho
De Vincent já meio-morto
E qual imagem piedosa
Da miséria e do amor
A mocinha nua sozinha sem idade
Olha o pobre Vincent
Fulminado pela sua própria tempestade
Que cai pelo chão
Em cima do mais belo quadro seu
E a tempestade se vai acalmada indiferente
Rolando diante dele os grandes barris de sangue
A fulgurante tempestade do gênio de Vincent
E Vincent fica ali dormindo sonhando rugindo
E o sol em cima do bordel
Como uma laranja louca num deserto sem nome
O sol sobre Arles
Rugindo gira em torno de si.

[In Poemas, Jacques Prévert, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p. 111]

Sobre Jacques Prévert

L´anglois Bridge at Arles
Van Gogh


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...