domingo, 30 de novembro de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

CARTA DE NATAL A MURILO MENDES

Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
— Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade —

E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
— Escrito mesmo na margem do jornal
Na Baixa — entre as compras do Natal

Para ligar o eterno e este dia

Lisboa, 22 de Dezembro de 1975

(In  O Nome das Coisas,  OBRA POÉTICA, Alfragide: Caminho, 2011, p. 649] 


sábado, 29 de novembro de 2014

Iacyr Anderson Freitas

ETTORE MAJORANA

é preciso partir
antes do apocalipse

em carta
diz que guardará a estima do amigo
pelo menos até
as onze horas daquela noite

nunca esteve tão só
como em Palermo
naquela noite

agora o mar o devolve
ao lugar onde talvez
outras embarcações o recusem

afinal trata-se de um homem
pesado de incertezas
um homem incapaz de flutuar
em resumo um homem
pesado demais

para o mar

(In Viavária, Juiz de Fora: Funalfa, 2010, p. 110)





sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Edmond Jabès

A  SOLIDÃO COMO ESPAÇO PARA A ESCRITURA

 “A aurora é uma gigantesca fogueira de livros.
Grandioso espetáculo do supremo saber destronado.
O amanhecer, então, é virgem”.

O ato de escrever é um ato solitário.

A escritura é  a expressão desta solidão?

Pode haver escritura sem solidão ou solidão sem escritura?
Haverá graus de solidão - assim como existem muitas praias, diferentes níveis de solidão - como há  intensidades da sombra ou da luz?

Poder-se-á, neste caso, sustentar  que há certas solidões dedicadas à noite e  outras ao dia?

Haverá, enfim,  várias formas de solidão: solidão resplandecente, redonda- como a do  sol - ou solidão plana, tenebrosa - como aquela das lápides; solidão da festa e a solidão do luto?

A solidão não se pode dizer,  a não ser que se pare imediatamente de existir.
Ela não pode ser escrita  sem a distância que a protege do olho que a lê.

O dizer será para o texto o que é a palavra oral  para a palavra escrita: o fim de uma solidão assumida para uma e o prelúdio de uma aventura solitária para a outro.
Quem fala em voz alta nunca está sozinho.O escritor reúne, pela intermediação da palavra, sua solidão.

Quem ousa,  no meio das areias, fazer uso da  palavra? O deserto só responde ao grito, o último, já envolto em silêncio do qual emergirá o sinal; porque ele jamais escreve senão os confins imprecisos do ser. Tomar consciência deste limite é, ao mesmo tempo, reconhecer como ponto de partida do que foi escrito, a linha irregular de demarcação de nossa solidão. Haverá então, bem como, pela solidão e pela escrita, fronteiras flutuantes que seguiremos,  a caneta na mão; fronteiras reconhecidas por nós e graças a nós.

A cada livro,  seus antros de solidão.

Sete paraísos reivindicam o céu.  O vazio tem suas etapas. Assim,  a solidão,  vazio do céu e da terra é o vazio do homem dentro do qual ele se agita e respira. Ligada à origem de tudo, a solidão em seu poder excepcional de romper o tempo, de limpar a unidade primeira; de fazer, de qualquer modo, o múltiplo indeterminado, o inominável.

Tentar escrever, nestas condições, consistirá,  então,  na margem da escrita, em refazer pela primeira vez, mas em  direção oposta, o caminho seguido pelo pensamento; a escrita, na palavra que a abrangia; seria, em suma, sair de sua própria solidão para esposar  a solidão inicial do livro na ignorância  de seu início e na qual o livro procurará seu nome; porque é sobre as ruínas de um livro, do qual se afasta, que o livro se constrói;  sobre a aterradora solidão de suas ruínas.

O escritor nunca abandona o livro. Cresce e cai  ao seu lado.   Escrever,  em primeira instância, seria apenas recolher as pedras  do livro desabado para construir uma nova obra - a mesma, sem  dúvida-; edifício onde o escritor será o infatigável mestre da obra: arquiteto e pedreiro; menos atencioso,  no entanto,  ao progresso da sua construção do que ao movimento interno, natural que preside sua conclusão; atento, sobretudo,  para escrever esta dupla solidão - a da palavra e a do  livro- que será progressivamente legível.

Em nenhum lugar  que não seja este retângulo de papel fino reservado ao indizível,  palavras e lugar tão fortemente integrados um ao outro e, ao mesmo tempo - oh paradoxo - tão remotas; porque nenhuma aliança é permitida à solidão, não há união ou associação; não há esperança de libertação comum.

Sozinha, ela se constrói,  é construída; sozinha, com a cumplicidade da escrita, organiza a lição dos orgulhosos cartazes dos tempos de seu esplendor ou de suas largas e profundas feridas, no momento em que a trabalho que ela coloca de pé, se torna túmulo empoeirado; onde o livro se parte na fratura infinita de suas palavras. Solidão à qual o escritor se submete; às vezes, dando mais do que tem, sem poder escapar  do compromisso com ela.

Mas por quê? A solidão não é uma escolha deliberada do homem? Então, quais são suas cadeias que ninguém forjou? Haverá, então,  uma solidão que escapa à sua vontade, que não possa, impotente, superar?

A demanda desta solidão da qual o escritor não será libertado é, precisamente, aquela que a palavra que a designa lha impõe; solidão do inconsciente de sua solidão, como se houvesse uma solidão mais solitária,  enterrada dentro da solidão, onde a palavra modela a imagem captada de si mesma, como uma criança no ventre materno.   

Doravante, tudo será organizado conforme uma ordem preestabelecida: porque o projeto do livro é, primeiramente, um  projeto audacioso da palavra. Não se pode escrever  o livro sem ter participado indiretamente deste projeto que será, talvez, mais do que a intuição que tivemos do livro, a partir daquilo que está escrito.

Solidão, então,  de uma palavra, solidão da palavra diante a palavra,  da noite ante a noite na qual, astro submerso, a palavra  brilha mais do que a solidão.

Mas, poder-te-ão objetar, como se pode, a partir do livro, ir-se à palavra? – Como dia vai ao sol, responderei. Livro não é uma palavra? Sempre retornaremos à palavra “livro”. O espaço do livro é aquele, interior, da palavra que o designa. Escrever o livro não será mais que designar este espaço oculto, que escrever dentro desta palavra.

Contudo,  esta palavra que reúne todas as palavras da língua - como a estrela da manhã reúne toda a luz do mundo - não é o lugar de sua solidão; o lugar onde ela se confronta com a nulidade; onde deixa de significar, onde não designa Nada.

"Você não pode ler  o que viu, mas pode viver o que  leu," ele disse.

-Quantas páginas tem seu livro?

-Exatamente noventa e seis superfícies planas de solidão. Uma ao lado da outra. A primeira na parte de cima e a última na base. Esta é a rota da escrita - ele respondeu.

E acrescenta: "O que me intriga não é, de forma alguma, ter descido, de folha em folha, todos os degraus do livro, mas saber como fiz para me encontrar, desde o início, sobre o mais alto, o primeiro”?

O fundo da água está cheio de estrelas.

A escrita é um desafio da solidão; fluxo e refluxo de inquietação. Ela é sempre o reflexo de uma realidade que se manifesta em sua nova origem e onde, no coração de nossos desejos confusos e de nossas dúvidas, nós temos sua imagem.

(Edmond Jabès, Le petit livre de la subversion hors de soupçon, en Anthologie de la poésie francaise du XXe siécle, Editions Gallimard, 2000). 

[Tradução de Antonio Damásio Rêgo Filho e Margarida Moura]

By Jean-Jacques Henner

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Jorge Emil

ME PERDOO POR ME TRAIR
Oco em mais de uma ocasião,
me deixei tragar pela areia, movediço.
Depois, a exaustão de emergir e emergir
com a sede dos renascidos. Não guardei forças
para julgar-me e punir-me. Por isso
fiquei forte para buscar solo firme.

LEMBRETES
Oi, morte. Vê lá se eu me esqueceria de ti.
Da loja onde entro — comprar o presente, embrulhá-lo —,
sai o corpo embrulhado em papel prata entre bombeiros,
sob a mesma chuva que ajudou a arrojar o avião sobre a
[cidade,
os que vinham do ar misturando-se aos que em terra
[mourejavam.
Esses são presentes e avisos, que me dás.
Nem era preciso, ó carente: por detrás
do conforto transitório, dos risos e distrações,
continuas ocupando o lugar dos oceanos no coração que
[vais comer.

[In O OLHO ITINERANTE, São Paulo: Record, 2013]

SOBRE JORGE EMIL
Mineiro de Caratinga. Formou-se pelo Teatro Universitário da UFMG. Participou de mais de 30 espetáculos e de quatro filmes. Premiado, em 2000, por seu desempenho como protagonista de Ricardo III, de Shakespeare. 


BY MARIA BONOMI



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Anna Akhmátova

NOITE
(Viétcher)
São Petersburgo, 1912

La fleur des vignes pousse, et j’ai vingt ans ce soir
André Theuriet

LENDO HAMLET
I
No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pó
e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste: “Então
vai para o convento
ou casa-te com um idiota...”
Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu me lembro dessas palavras:
deixem que elas flutuem por cem séculos
como um manto de arminho jogado sobre os meus
[ombros.

II
E como por engano
eu disse: “Tu...”
Iluminou-se a sombra com o sorriso
suave de meu amado.
Esse é o tipo de deslize da língua
que faz com que todo mundo fique te olhando...
Mas eu te amo, como quarenta
meigas irmãs.

1909
Kiev 

O REI DE OLHOS CINZENTOS
Glória a ti, inconsolável dor!
Ontem morreu o rei de olhos cinzentos.

A noite de outono era rubra e quente.
Meu marido, ao voltar, disse baixinho:

“Sabe, trouxeram-no da caçada,
acharam o corpo lá no velho carvalho.

Que pena da rainha. Tão jovem!...
Numa noite só ficou grisalha.”

Pegou o seu cachimbo na lareira
e lá se foi ele pro trabalho noturno.

Agora vou acordar minha filhinha
e olhar para seus olhinhos cinzentos.

Na janela, o álamo murmura:
“Teu rei já não é mais deste mundo”.

11/12/1910 
Tsárskoie Seló

Apertei as mãos sob o xale escuro...
“Por que estás tão pálida?”
- Porque hoje lhe dei a beber amargura
até que ele foi embora daqui embriagado.

Posso acaso esquecê-lo? Saiu daqui cambaleando,
sua boca torcendo-se dolorosamente...
Desci correndo, sem nem me encostar no corrimão,
corri atrás dele até o portão.

Angustiada gritei: “Tudo não passou
de uma brincadeira. Se fores embora, morro”.

Sorriu docemente e, com um muxoxo terrível,

disse-me: “Não fique no vento”.

8/1/1911
Kiev

[In ANTOLOGIA POÉTICA, Seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho, Porto Alegre: L&PM, 2014, pp. 54-56]

SOBRE ANNA AKHMÁTOVA





terça-feira, 25 de novembro de 2014

Isabel Mendes Ferreira

159.
e dizer-te que somos apenas selvagens na melhor das
asceses, inconfidentes do milagre assustado de ao
contrário da vida iludirmos a própria ilusão, nus e
desolados, inconfortados. ilhas sim como já te tenho dito
meu anjo sofrente das horas que nunca foram nossas,
nem outras.
afinal o espanto é mudo o poder uma fonte a secar no
verão e nada nos é amparo nos dias de assombrosas
intimidades._______________ sendo que agir ou
esquecer é tão volátil como o julgar julgamos a distância
e os flagelos como olhos dentro do tempo, inexplicável
aparição de uma palavra mensageira, ela mesma ilha
dentro de um continente, mortalha.___________
não me digas que os abutres são o coro peremptório das
ligações intoleráveis, as ditas do inferno,
desdirei que somos, e que o método de aceder ao
labirinto é mais profano e hermético que um texto
embaciado de sínteses e alegorias, sem ti____ anjo____
sou mais fora de mim. cegante de ensaios que os outros
ensaiam em nome de um impressionismo que é ponte
para lugar nenhum, sou desta dialéctica pronta a despir
em nome de uma asa que só tem o teu nome. fora desta
órbita é falível o voo? que seja. ondulante.

o tempo é renda no ventre plano da saudade

não espero nada. sou assim como a desintegração, evento
cardume película e animal de infância__________
cume e discrepância, gula e palha, ampla a memória
do que sendo ávido é recato, não tenho medo das
horas nem da gelatinosa aparência que se pretende luz
sendo sombra, mais ao longe tudo me fica brando e
enquanto me curvo convulsa e herege ergo-te a face da
multiplicação do verbo, é teu o livro que não escrevo,
é nosso o ventre plano da saudade, redondo só o
futuro._________________ peregrino em cada carta
que o fogo ateia.
enquanto lá fora se fazem teias de arame e pétalas
hipnotizantes as mãos são gruas tubulares de água. tudo
o que nos é condicionante, era verão, lembras? na mesa
do mar.
mas afinal o tempo é mesmo só r e n d a
que a saudade essa sim é plana rasa e arrasa, desfaz
o peito, curva o corpo, destroça a raiz. estala a
pele._______________ já macerada de luas que
arderam aos teus pés. concebo-te estio, sempre, mesmo
na linha espumosa deste inverno.

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, pp. 106-108]


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ana Luísa Amaral

ADAMASTOR
Havia nesse tempo uma espécie de sol,
E era ao cimo da água,
e eu no fundo do mar

E eu via aquele brilho sem saber que era sol,
só uma linha difusa a clarear
lugares do nunca

Eu habitava a mais funda fundura,
nela resplandecia
a minha escuridão

Feito entre limos, pedra e pesadelo,
eu era o pesadelo,
e não sabia ainda poder ser

o sustento de versos e de sonhos,
de línguas novas
a falar abismos

Inventaram-me ali,
naquele tempo,
nessa espécie de sol

Não chega o toque para dizer corpo,
e o meu era de pedra
a transformar-se

E disseram-me carne,
e eu fiz-me carne,
e disseram-me lama,

e a pedra no meu corpo fez-se lama,
e deram-me cabelos,
boca, olhar

E eu olhei lá do fundo,
da fundura mais funda onde vivia,
e gritei, descoberto,

e nu, e forte,
e ouviu-me
o mar

Mas o que dele rebentou, profundo,
foi a parte de mim
que nada era

A outra, que eu não sei,
por não ter voz,
ficou na escuridão

por inventar —

[In ESCURO, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, pp. 55-56]

DESENHO DO Mestre H. Mourato

domingo, 23 de novembro de 2014

Mar Becker

O LIVRO ESCURO (I)

isadora duncan aparece em meu espelho
no lugar de mim
então me olha
e mostra
a língua. demoro a perceber que é uma língua em forma de ponteiro de relógio
(o que falta em meu próprio relógio, na parede da cama)
*
vai até a cozinha
eu sigo
o gás atravessa a mangueira discreta e pacientemente, como um segredo entre gerações. lembro que esse é o gás com que sylvia plath se suicidou
e que sylvia plath é a poeta que cita a echarpe
de isadora duncan
num poema que se chama
"40 graus de febre"
*
o silvo: a válvula-vulva da panela de pressão
girando
*
o ponteiro nenhum do relógio, girando
o corpo e o sangue
a roda do conversível

By Tayete Garcia








sábado, 22 de novembro de 2014

Heitor Ferraz

ENTRE A DELEGACIA E O CONVENTO
Entre a delegacia e o convento de freiras
a intermitência de sirenes e rostos
(o que se banha na torneira de uma casa vazia
e o que não se banha na torneira de uma casa vazia
e esfrega o nariz na manga da camisa)
Esta rua tem olhos espessos
sob o arco complexo da sobrancelha
Talvez seja melhor não persistir
A duração de cada ato
de cada movimento de rosto é curta
A respiração é curta
A distância até a morte é curta
Todas essas horas são curtas e aguardam a invariável
[sirene
que estoura vermelha e azul no muro das casas

[In Hoje como ontem ao meio dia, Rio de Janeiro, 7Letras, 2002, p. 19]



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Andréia Carvalho

QUARENTENA PARA MURILO MENDES
minha cura é tua intoxicação
as convulsões do fogo
teu florilégio

superelâmpago âmago

artífice da bomba anticorpo
desbravador do covil
coagulado

antena entre anteras
teu verbo
transistor
instaura a
vanguarda do espírito
sobre a carne flácida
dos temporais

militante poliformo é
meu mestre na arte de
gerar
eletricidade sob
a massa atmosférica
do papel
leopardo

quarenta dias de reclusão em ti
e me renasço de cinzas
xantófilas
magnéticas

ama-de-tua-láctea
etérea
estática

AFORISMOS DE PAPÉIS PARDOS
para cruzar em um microssegundo
a idade média até a do ouro
é preciso a marcha
ondulada, o couro transparente,
os olhos de todos os bichos
no ventre felígneo

o fósforo branco dos ossos
em avalanche
somática

a ira de uma pena supersônica
no alfabeto do radar

fulgurito de boitatá
no invólucro do papel leopardo:
virá, virá

ps: decorar todas as cartografias,
antes de deitar, para se perder nos sonhos

Fonte: Revista Cult

Lesser Ury

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Silvina Ocampo

Envelhecer
Envelhecer é singrar um mar de humilhações diariamente;
É olhar para a vítima à distância, por uma perspectiva
que não diminui os detalhes,  mas os aumenta.
Envelhecer é não poder esquecer o que se esquece.
Envelhecer transforma uma vítima em culpado.

Sempre achei que todas as idades são  cruéis,
e que se compensam ou teriam que compensar-se
umas às outras. O que ganhei pensando assim?
Espero  uma revelação. Por que uma árvore
embeleza-se ao envelhecer? E um homem espera se redimir
Só com os despojos da juventude.

Nunca pensei que envelhecer fosse o mais árduo dos exercícios,
um tipo de acrobacia que é um perigo para o coração.
Todo disfarce repugna a quem o porta. A velhice
É um disfarce com anexos inúteis.
Se os velhos parecem  disfarçados, as crianças também.
Essas idades carecem de naturalidade. Ninguém aceita
ser velho, porque ninguém sabe sê-lo,
como uma árvore ou uma pedra preciosa.

Sonhei em ser velha para ter tempo para muitas coisas.
Não queria ser jovem, porque perdia tempo somente em amar.
Agora eu perco mais tempo  com o amor,
Porque tudo que  faço,  faço-o em dobro.
O tempo transcorrido nos encurva; parece-nos
que o que foi deixado para trás tem mais realidade
para reduzir o presente a um interessante precipício.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Wallace Stevens

TATUAGEM
A luz lembra uma aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha pelas margens da neve.
Penetra sob as tuas pálpebras
E espalha ali suas teias –
Duas teias.

As teias de teus olhos
Estão atadas
À carne e aos ossos teus
Como a um caibro ou capim.

Há filamentos de teus olhos
Na superfície da água
E nas margens da neve.

O CÉU CONCEBIDO COMO UM TÚMULO
Que me dizeis, intérpretes, dos que
No túmulo do céu andam à noite,
Fantasmas negros da comédia finda?
Creem, talvez, que vagarão pra sempre
No frio, no escuro, com lanternas altas,
Libertos da morte, a buscar sem trégua
O que quer que busquem? Ou a lembrança
Do enterro, portão da espiritual
Chegada ao nada, é antevisão diária
Daquela noite única e abissal
Em que as hostes não mais caminharão,
Nem mais lanternas riscarão a treva?
Gritai essa pergunta aos céus, que a ouçam
Os sombrios comediantes, e a respondam
Do seu longínquo e gélido Élysée

CANÇÃO
Há coisas esplêndidas acontecendo
No mundo,
Coelhinho.
Há uma donzela,
Mais doce que o som do salgueiro,
Mais suave que água rasa
Correndo sobre seixos.
No domingo,
Ela veste um casaco longo,
Com doze botões.
Conta isso à tua mãe. 

PARVOÁLIA
Essa flor estranha, o sol,
É o que você diz que é.
Se é assim que você quer.

O mundo é feio,
E ninguém é feliz.

Esse tufo de plumas de bugre,
Esse olho animal,
É o que você diz que é.

Esse selvagem de fogo,
Essa semente,
Se é assim que você quer.

O mundo é feio,
E ninguém é feliz.

DEPRESSÃO ANTES DA PRIMAVERA
O galo canta,
Mas rainha alguma se levanta.

Minha loura tem cabelos
Deslumbrantes,
Como o cuspo das vacas
Costurando o vento.

Uô! Uô!

Mas cocoricó
Não traz curru nenhum,
Nenhum curru-curru.

Mas rainha alguma vem
Com verde chinelinha.

OS VERMES AOS PORTÕES DO PARAÍSO
Da tumba, trazemos Badrulbadur,
Em nossos ventres, sua carruagem.
Eis um olho. E eis aqui, um por um,
Os cílios desse olho e a alva pálpebra.
Eis a face em que a pálpebra descia,
E aqui, dedo após dedo, eis a mão,
O gênio dessa face. Eis os lábios,
Eis o fardo do corpo, mais os pés.
. . . . . . . . . . .
Da tumba trazemos Badrulbadur.

Tradução de  Paulo Henriques Britto

Fonte: Revista Piaui


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Fany Aktinol

FELICIDADE
Do cume desce o poente / Púrpura
Tocado por sua própria substância diáfana
A tingi-lo de vermelho sangue.
As árvores
tornam-se levemente avermelhadas
A grama
Perfuma o ar com seu verdor úmido
Penetrante.
O lugar é familiar
Mas o crepúsculo tem a capacidade de extasiar,
Tornar um instante em algo monumental.
O dia se prolonga para além de si mesmo,
Para o mais alto e insondável -
O tempo está impregnado de eternidade.
Deixo que o crepúsculo me envolva.
Nesse instante sou feliz
Como uma criatura recriada ao acaso,
Ao largo de Deus.

******
O MOMENTO SUBLIME
Descíamos pela trilha
Após longa caminhada,
Exaustos e sedentos.
Eu trazia lírios na mão abrasada...
Descíamos como Absalão desceu a Jericó
Ao longo do vale do Jordão.
Caía a tarde de um dia de verão.
O vasto céu estava tão próximo
Que eu me entristecia
Diante do adiantado da hora.
As flores exalavam um perfume
Que embriagava.
Sentamos num banco de pedra
Para que o momento sublime
Não nos escapasse.
Ali assistimos imóveis
Ao morrer de mais um dia e
À chegada da noite prateada
Num encadeamento impreterível.
Eu me pus confiante
Depois que vi a lua
A iluminar o caminho
Que restava percorrer. 

******
DESCANSO
Nas claras tardes
De fim de outono
Em Har Haguilboa
O ar puro magnifica
Os sons transparentes
Que sobem do vale.
Os cantos dos pássaros
E o uivo do vento
Soam como a manifestação idílica
Da natureza que repousa.
Vês a relva, Ben,
Coberta de folhas secas,
E um tapete colorido
Com seu desenho único
Que terá vida curta.
Ao fim da estação que se aproxima
Não haverá mais tapete algum.
As folhas terão morrido para dentro da terra
Uma morte silenciosa e oculta
Cujo segredo jamais vivenciaremos.



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

José De Arimatéia Silva

LÁZARO RESSUSCITADO

Não é a mente o continente do mundo.
Que hora tão triste e que tarde sem aragem.
Os olhos redivivos miraram mais uma vez
A luz do mundo;
(Quatro dias como quatro estações)
Por trás do sudário que lhe cobria o rosto
Lázaro, sequer, chorou
Como quando, saído do ventre de sua mãe,
foi apartado daquela umbilical atadura.
Apartadas essas, agora, que lhe prendiam os pés
Caminhou insepulto
E, talvez, procurou pela voz que lhe ordenara
gravemente
Sair da gruta escura onde apodrecera
e desligar-se da morte.
Ou, então (nós não compreendemos o mundo)
Lázaro chorou copiosamente.
O cheiro das oliveiras e o deserto ao longe,
os gritos de suas irmãs.
Retornado do ventre da terra,
sob a luz indecifrável de um sol jamais visto,
Os olhos voltados para Jerusalém,
Lázaro chorou,
Porque a vida é um caminho sem volta.

Fonte: Blog Iluminuras

By Jose Casado del Alisal




domingo, 16 de novembro de 2014

Charles Simic

O INICIADO
São João da Cruz usava óculos escuros
quando passou por mim na rua.
Santa Teresa de Ávila, bela e circunspecta,
me apareceu abrindo as asas como uma gaivota.

“Ó alma perdida”, os dois gritaram,
“onde é teu lar?”

Eu era uma das bolas malabares da morte
e a cidade um circo místico
com todas as luzes embaçadas.
O espetáculo daquela noite já começara.

Numa avenida larga e pouco iluminada,
as vitrines esperavam por mim,
assistiam à minha passagem,
sabiam os pensamentos em minha cabeça.

Na igreja onde, segundo os jornais,
o infanticida
abrigou-se numa noite de frio,
sentei-me num banco soprando as mãos.

Como um pensamento esquecido e reevocado,
a neve recente na calçada
trazia pegadas frescas — algum mestre desconhecido
oferecendo-se para guiar meus passos.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
Quatro jovens agressivos barravam meu caminho,
três muito sérios e um
sorrindo como louco enquanto punha as mãos sobre mim.

Deixei que levassem minha capa de chuva
e saí dizendo a mim mesmo
que era importante manter a calma
e continuar a observar a si mesmo
como se fosse alguém completamente estranho.

Num endereço que me deram,
havia letras X brancas pintadas nas janelas.
Bati, mas ninguém veio abrir.
Depois, uma moça juntou-se a mim nos degraus.
Seu nome era Alma, um sinal auspicioso.

Ela conhecia uma dona de casa
que resolvia os enigmas da vida
e tinha voz de rainha suméria.
Conversamos longamente sobre isso
tremendo e batendo os pés.

No século XVI, ela me disse,
praticantes das ciências ocultas
eram queimados em gaiolas de ferro,
ou então eram vestidos de trapos
e pendurados em forcas douradas.

Uma vez, confessei, num quarto de hotel em Chicago
avistei no espelho alguém
que tinha meu rosto,
mas não lhe reconheci os olhos —
dois olhos duros e oniscientes.

A fome, o frio e a falta de sono
me trouxeram uma espécie de êxtase.
Andei pelas ruas como se perseguido por demônios,
tentando aquecer-me.

Havia o rio East,
havia o Hudson.
Suas águas brilhavam à meia-noite
como óleo nas lamparinas do santuário.

Algo estava para acontecer comigo.
Sobre isso não haveria mais nenhuma palavra depois.
Fiquei de pé, como se paralisado,
observando o céu limpo.

Estava tudo tão quieto
que se ouviria cair um alfinete.

Pensei ter escutado um alfinete caire comecei a procurá-lo
na cidade escura e deserta.

Trad. Carlos Machado


AS VIDAS DOS ALQUIMISTAS
O maior trabalho sempre foi o de apagar-se,
Ressurgir como algo inteiramente distinto;
O travesseiro de uma jovem apaixonada,
Uma bola de sujeira fingindo ser uma aranha.

Pretos tédios de noites chuvosas do campo
A folhear os escritos de adeptos ilustres
Oferecendo conselhos sobre como continuar a transmutação
De um pigmento do tempo na eternidade.
O verdadeiro mestre, um  do conselho,
Requer cem anos para aperfeiçoar sua arte.

Nesse ínterim, o segredinhos arcanos da frigideira,
O cheiro de azeite de oliva e alho soprando
De cômodo a cômodo vazio, a gata preta
Se esfregando na sua perna descoberta
Enquanto você hesita em ir até a luz distante
E o tilintar de copos na cozinha.

Trad. Adriano Scandolara

sábado, 15 de novembro de 2014

Maria João Cantinho

O cão de Dürer
     O homem caminhou firme contra a ventania e as grossas bátegas de chuva, que o atingiam em pleno no rosto. O sobretudo negro enrolava-se-lhe nas pernas, enquanto o céu escurecia cada vez mais e prenunciava a trovoada. Do outro lado da avenida, nas esplanadas, os empregados perfilavam-se à porta, olhando o vazio cinzento do céu. Nas ruas não havia transeuntes, que já tinham fugido à inesperada trovoada.
     Num violento rodopio, as folhas elevavam-se no ar. Ao longe, o casarão permanecia imutável e a sua silhueta dominava toda a cidade, bem à vista, no alto da colina. O homem do sobretudo sabia que devia se apressar, para evitar a tempestade. A nortada provocava-lhe arrepios de frio. Era um daqueles dias nada desejáveis, em que se trazem as sensações à flor da pele e a intensidade das emoções atravessa o corpo como uma corrente eléctrica.
     Quando chegou, abriu o enorme portão, que rangeu como se tivesse uma voz antiga e melancólica. Ele abria-se directamente para um jardim e o seu olhar deteve-se imediatamente nesse lugar, onde o tempo parecia ter-se suspendido. O perfume das flores chegava até ele, no incêndio da tarde. Tudo permanecia tão quieto naquele sítio que se apercebeu imediatamente da estranheza do facto.
     Uma mulher estava sentada na borda do lago. Olhou-o e essas duas safiras luminosas e tranquilas, num semblante quase infantil, perturbaram-no. Teve a intuição de que a conhecia, talvez de um quadro antigo, já tinha visto aquele rosto não sabia bem onde. Um recanto obscuro da sua memória, certamente. Ela persistiu no silêncio, demorando o olhar no seu rosto, como se tentasse perscrutar os seus pensamentos. Era, no entanto, a beleza dos seus olhos e o seu mutismo que se tornavam inquietantes. Enquanto isso, ele avançava em direcção à entrada mais próxima, a porta que havia ao fundo da galeria. Por momentos, teve a intuição de que já havia visto aquela porta algures, mas não conseguiu identificar. Parecia haver uma passagem comunicante entre as imagens que lhe chegavam agora e as memórias que se despoletavam, à medida que identificava certos sinais.
     Ela perdeu o interesse nele e mergulhou novamente no seu sonho, escrevendo traços invisíveis na água. Ele continuou o seu caminho, sem conseguir tirar os olhos da rapariga, profundamente tocado pela sua beleza delicada e etérea.

     Como tinha começado tudo? Algumas semanas antes, tinha recebido um telegrama a chamá-lo. Nada sabia dos seus habitantes, pois havia pouco tempo que se mudara para a cidade, onde fora contratado para dar aulas de música num colégio. Como o horário era completo e lhe pagavam bem, tinha resolvido aceitar e mudara-se pouco tempo depois, no princípio de Setembro.
     Embora a curiosidade fosse desperta sobre o omnipresente casarão, jamais quisera visitá-lo, pois a sua imponência desagradava-lhe. Demasiado grande, talvez, não compreendia exactamente porque o acometia aquela sensação incómoda. Sabia que era habitado por uma família antiga, mas não se mostrara nada interessado em conhecer aquelas pessoas envolvidas pelo mistério.
      - E o que fazem? - Lembra-se de ter perguntado a alguém, talvez o empregado do café, aonde costumava ir pelo final da tarde, sentando-se junto à janela.
- Nada, que eu saiba. Estão sempre enfiados no casarão como se tivessem medo de serem vistos. Parecem-se com fantasmas, sem presença física.
     - Gente velha ou nova? - Insistiu o homem, agora dominado pela curiosidade. Achava que a descrição do empregado era exagerada.
     A ser sincero, não sei, nunca os vi. Mas creio que há uma menina, havia uma menina... Mas há muito que ninguém a vê. Hoje deve ser uma mulher adulta. - Disse o empregado com um ar misterioso.

     Agora, que ele se estava ali, o mistério clarificara-se. Aquela devia ser a menina de que ele falara. Uma menina que se havia transformado em mulher, com um belo olhar safira, escrevendo na água. Todavia, o olhar dela, o modo como agia e o olhar não pareciam ser deste mundo, alheios a tudo, presos num encanto qualquer que ele não saberia identificar.
     Ao entrar, percebeu que não estava só, mas não viu nada, enquanto a porta se fechava lentamente, por trás de si. Olhou a toda a volta, para a sala com reposteiros forrados a púrpura e uma semi-obscuridade inquietante. Ao longo das paredes havia estantes repletas. Ele entrou e aproximou-se dos livros. Havia ali tudo quanto um bibliófilo apaixonado poderia encontrar. Como se a pessoa que ali vivia não precisasse de mais nada a não ser dos seus livros. Seria escritor, bibliotecário?
     Diante dele havia um piano de cauda, encostado à janela. A pergunta ocorreu-lhe, então: "Seria músico, compositor?" O silêncio da casa indicava o ambiente refinado de alguém que, além dos livros, amava a música.
     - Toque, por favor! - Disse uma voz com firmeza, sem ter sequer a delicadeza de lhe dar os bons-dias ou cumprimentá-lo. A sua voz, embora firme, não continha qualquer nota de arrogância. Era um pedido feito como se fosse uma criança.
    Foi quando viu um homem grisalho atrás de si. Tinha os traços finos e regulares, os olhos cinzentos. Uma cor semelhante à dos seus próprios olhos. Reconheceu-o como alguém muito próximo de si. Um irmão ou um primo mais velho? Não tinha conhecimento de parentes naquela zona. Estava tão espantado e aparvalhado que não lhe ocorria dizer nada. Ficou parado e hesitante até que, por fim, tartamudeou:
     - Ah, sim... o quê? Não vim preparado. Não estava à espera, não preparei nenhum tema. - não lhe apetecia tocar assim, sem mais nem menos, não se sentia à vontade, mas também não queria ser mal-educado e que aquilo parecesse uma recusa.
     - Ali à direita - apontou com a mão - há tudo o que é preciso. Pode escolher qualquer coisa. Mas, por favor, nada de alegre, não suporto a alegria, não me convém. Tenho uma saúde frágil, que não suporta qualquer espécie de euforia.
     - Bem, posso escolher? - O homem obedeceu, então. Não lhe era possível recusar o pedido.
     - O rosto permanecia na obscuridade. Fez-lhe um sinal de assentimento, reforçando o seu desejo.
      Desembaraçou-se do sobretudo e pôs-se a escolher a peça, optando por um concerto de Schummann. Sentou-se à janela, que dava para o jardim. Lá fora, o rosto da rapariga permanecia fechado no seu enigma do tempo. Ele sabia que a conhecia. Teve, de repente, a sensação de que tudo era tão artificial que lhe parecia um filme, onde ele era o protagonista. O centro de uma charada, O homem espiava-o e ele quase podia sentir-lhe o hálito por detrás. Dava tudo para observar os seus gestos, mas era-lhe impossível.
     Começou e avançou lentamente, dedilhando as teclas, concentrando-se no poder magnético do olhar de safira. Chamava-a pelo som e desse modo talvez pudesse despertá-la do encantamento da água, onde se debruçava e fechava os seus gestos. Um corpo mudo, ao qual faltava a vibração da vida. Ela levantou o rosto, onde parecia assomar uma leve aragem de lembrança, pondo a cabeça de lado como uma criança que se tivesse esquecido de crescer. Pouco a pouco, voltou à sua indiferença inicial e ele sentiu que não encontrara ainda a nota ou o tom que haveria de libertá-la.
     - Pare. Não vê a inutilidade? - Cortou rispidamente o homem, como se tivesse compreendido o seu intento.
     Ele obedeceu-lhe e poisou as mãos como panos abertos, sobre o piano. A impotência da música, pela primeira vez, tocava-o de perto. Manteve-se de costas para o homem, enquanto ele continuou, num tom de voz em que parecia pensar alto:
     - Como se pode caminhar para o rosto de alguém? Julguei que seria ainda a música, apesar de não saber tocar...
     - Se o rosto se quer manter fechado - respondeu o homem, ainda de costas, sentado ao piano - parece não haver nenhum caminho, na verdade.
     - Olhe mais uma vez... O que vê? Descreva o que vê. - pediu o homem, curioso, como se precisasse de saber em que plano de visão poderia haver des- coincidência.
     - Que pergunta tão estranha! Um jardim maravilhoso, uma bela rapariga a escrever na água, a janela a dar para o infinito, paredes cobertas de estantes cheias de livros, um cão...
     - Um cão?
     - Sim, ao centro do jardim, debaixo da fonte, há um cão, um animal negro e paciente, que parece ter o olhar perdido no infinito. Não o vê? Que passagem é esta? - perguntou, assustado pela descoberta.
     - O que significa a existência de dois planos de realidade. Na verdade, não vejo qualquer cão. E a rapariga é jovem?
     - Há entre nós um sonho, uma imagem, uma fractura no tempo. Um de nós se encontra num campo, o outro num outro campo do real. No entanto, podemos dizer que nos encontramos nessa intersecção, onde dois homens não são senão o mesmo e a mulher, ela própria, uma imagem de desejo que nos é comum. Poderíamos classificar este lugar? É uma utopia?
     O homem do sobretudo voltar-se-ia, desejava ver o outro. Simultaneamente, temia-o, da mesma forma que se teme o nosso reflexo no espelho, na escuridão densa da noite. E se os dois se olhassem como dois espelhos, repetindo-se vertiginosamente?
     - Não te voltes. Deixemo-nos estar assim, para que o tempo se ofereça diante de nós e possa haver ainda esta passagem. Se te voltares, certamente encontrarás um reflexo baço. Permanece diante de ambos a imagem de um jardim, no fim do mundo, um lugar improvável de encontro, onde a sombra nos uniu.
     - Se não somos senão o mesmo, porque não sabes tocar?
- Devo ter sabido um dia e renunciei-lhe.
- Uma suposição?
- É mais uma certeza. De tanto desejar a música, acabei por sucumbir à sua maldição, ao rosto desmedido da sua beleza. Fui vítima da medusa.
- E ela? A rapariga...
- Ela? Oh, um ideal puro, intocável. Ela manteve-se jovem, como os ideais permanecem, intocáveis, no tempo, eternos. Não a reconheces?
- Algures no tempo, sim, lembro-me dela como de uma ferida, um rasto. Persegui-a como se existisse, olhei-a, durante todo este tempo, esperando que pudesse despertá-la. Por momentos, olhou-me.
- Tál como a mim, olhou-nos. O lado infecto da beleza, o golpe fatal.
- Mas aqui tudo é silêncio e beleza, quietude.
- Todas as miragens se apresentam assim: belas, sublimes, derradeiras.
- E o que fazer delas? - Perguntou o outro.
- Depende do que elas nos fazem, em que nos transformam. Não podemos descobri-las sem cair no abismo que elas abrem, diante de nós.
- As imagens não podem nos tornar mais fortes? Como viver sem elas? Sem acreditar no que nos prometem?
- Todas as imagens nos destroem. Por isso há que destruí-las, quanto antes - dizia um de nós. - Sou demasiado velho e consigo perceber isso sem esforço.
     A rapariga continuava a sua escrita na água, imperturbável. O homem do sobretudo levantou-se e caminhou, sem que o outro fizesse qualquer movimento para o impedir, até ao lugar onde ela se encontrava. Manteve-se de pé, a observá-la. Quis compreender o que ela escrevia e debruçou-se sobre a fonte, enquanto ela ia desenhando esse destino de que era portadora. Ao tocar na água, o seu dedo longo fazia traços ininteligíveis, sulcos, arrepios que poderiam se confundir com a presença do vento.

     Na verdade, nada existia, a não ser a imagem que ele criara dentro de si, numa espécie de enamoramento que se alimentava a si próprio. Levantou os olhos e olhou à sua volta. O jardim era vasto e ele não se apercebera como o espaço à sua volta se alargara consideravelmente. Já não avistava qualquer casa, mas apenas um jardim infinito e, ao longe, uma floresta cerradíssima, para onde desejava caminhar. O cão olhava-o, mergulhado na sua placidez. O mudo cão de Dürer observava-o, como se tivesse a eternidade pela frente. Ele avançou e caminhou, sem saber o que o esperava do outro lado. Pensou que era preciso acreditar nas imagens e avançou, de olhos fechados, como se quisesse entrar na eternidade.

(In Caligrafia da Solidão, São Paulo: Escrituras, 2006, pp. 79-83)





sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Wally Salomão

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI
para José Thomás Brum

Mundos que giram nem no sentido horário
Nem no sentido anti-horário.
Ó placas tectônicas do assoalho oceânico.

Cerca de dois mil, cento e quarenta e sete anos atrás
O capitão romano
Marcus Sestius
Pouco antes do naufrágio
Flagrou o mar em seu diário de bordo:
Liso como um espelho fenício.

Encapelado como na gravura de Hokusai.

Ó velho oceano cheio de tretas, velho oceano,
Quem com olhos de seca-pimenteira
Queimará toda tua água, a lisa e a encapelada?

O fogo, o fogo, o fogo.

“O relâmpago é o senhor dono de tudo”
(Assim Heráclito, o Obscuro, secretava e esparzia
                                                     o pó elemental das coisas.)

Quem queimará a tua água lisa e a tua água encapelada?

A chama — sereia desmiolada — de que se recordará?
Nem das cinzas, nem de si mesma, nem de nada.

Itacaré Eco Resort, janeiro 2002


[In Poesia Total, Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2014, p. 428]

HOSUKAI

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Affonso Romano de Sant´Anna

NA BOCA DO DESERTO
Estava indo, há muito, para o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
         só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.
[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 52]

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Luís Miguel Nava

RECÔNDITAS PALAVRAS
Inquietam-me as dedadas
de deus rente à raiz da carne, ao indeciso
equilíbrio da alma
na balança, à cicatriz
azul do céu sobre o destino.

O mar pneumático, ao sabor
do qual contra os sentidos se nos fazem
e desfazem as ávidas lembranças,
assalta-me os sentidos, tenebrosas

crateras escavadas
no espírito e através
das quais, incandescentes, as imagens
do mundo sobre ele próprio se derramam

como uma lava espessa, esses sentidos
que, como aéreos
estigmas, nos imprimem
na carne a cicatriz do céu, a indecisa
maneira de as imagens

do mundo se guindarem
mais alto do que a alma ou o alento
de quem dentro de nós
aviva a sua chama. O que nos sai
do coração vem a ferver.

A carne, ao rés
da qual o céu se encurva, báscula
que deus deixou nos arredores
dum qualquer lugarejo

a encher-se de ferrugem, cicatriz
pesada, combustível, com raiz
nas mais profundas trevas, a carne âncora
submersa no destino, ergue-se a pique

de novo onde as lembranças
se fazem e desfazem
com todo o azul do céu
lá dentro a procurar rompê-Ia.

Sentados no convés, como se fosse
já noite e nos soubesse
o pão ao ranço da memória, contemplamos
os rudes marinheiros.

Depois que pela encosta procurámos
em vão uma escada de que o último
degrau fosse já dentro da memória,
suspenso na memória,

desfaz-se-nos dos ossos
a carne, com o seu quê de lírico e festivo,
em áreas portuárias onde o mar
nos sai do coração para galgar o molhe,

e, agora que começam
os anos a pesar
mais para trás que para a frente, acodem-nos
recônditas palavras aos ouvidos:

«Fecharam-se-te os olhos e eu fiquei de fora»,

«Nas tuas mãos começa o precipício».

By David Uzochukwu

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Bella Akhmadúlina

NOITE

Agora os três lados da escuridão se adensam 
     com a chegada da aurora
e a mão ainda não tem coragem de atravessar o sólido 
     ar rumo à folha branca na mesa.

Pois a razão não consegue honestamente resistir a meu 
     senso de limites! Hoje não posso 
mais deixar que a mão escreva aquelas frases descuidadas 
     que antes me alegravam tanto.

São muitas as idéias que te assaltam no escuro.
     E fácil confundir a euforia 
da meia-noite, e a cabeça febril criada pelo excesso 
     de cansaço e café, com agudeza mental.

Mas é claro que ainda não estraguei de todo o meu 
     cérebro com essas loucas vigílias.
Sei que não há mérito na excitação, por mais intensa 
     que seja; não acho que seja talento.

Seria uma vergonha ignorar essa pobreza! No entanto, 
     é grande a tentação. Como são inocentes 
os gestos: destruir a noite anônima dando a cada coisa 
     o seu verdadeiro nome.

Tento manter imóvel a minha mão, mas cada objeto 
     me namora, mostra-me o quanto 
é belo, me convida, a cada movimento que eu faço, 
     a render homenagem a cada uma

dessas coisas que me cercam, convencidas de que as amo, 
     e suas vozinhas me imploram
que em minha canção celebre a sua alma - é para isso 
     que elas precisam de mim.

Eu gostaria de agradecer à vela e, para que todos 
     conhecessem sua luz,
à minha volta lançaria adjetivos como incontáveis 
     carícias. Mas me calo.

Na tortura do silêncio, ah!, que dor eu sinto: 
      a de não dizer, ainda que
comum só palavra, o esplendor de tudo o que meu amor olha, 
na escuridão, com olhos atentos.

De que me envergonho? Não estou livre, afinal, 
      numa casa vazia, em meio à neve,
para escrever, ainda que mal? Para dizer, pelo menos, 
      o nome da casa, da neve, da janela?

A folha de papel é indefesa: peço a Deus que me dê 
      humildade. E aqui fico,
diante da luz clara e engenhosa da vela que ilumina 
      o meu rosto já mergulhando no sono.


[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp.533-534]


Murilo Mendes

MURILO MENDES O FILHO DO SÉCULO Nunca mais andarei de bicicleta Nem conversarei no portão Com meninas de cabelos cacheados Adeus vals...