terça-feira, 7 de agosto de 2018

Mariana Ianelli

VIDA
Vida, pátria dos resistentes,
Quiséramos perder-te às vezes.

Partir e voltar por infinitos meses
Até que partíssemos somente.

Mas parecíamos fortes
E olhávamos para o chão cá de cima.

Empreendíamos novos encontros,
Multiplicávamos vínculos.

Uma carícia qualquer sempre havia
Por sobre a espessa nuvem do silêncio.

Pelo código do tempo, íamos adiante
Tramando futuros arrependimentos.

De dezembro a dezembro
Desabrochava a nossa rosa invisível, sedenta.

Sonhávamos que te perdíamos,
Mas éramos fortes ainda.

E por ti combatíamos,
A festa dos exércitos, dia a dia.


ESTAÇÕES
A estrada é apenas uma,
Desenhada no verso das mãos.
Intimidades da terra,
Que sei de seus dons, também meus?
Nada além estar cobrindo os montes.

Cruzado o rio, cidade nova.
Há muito o que fazer pela memória,
Para que a fonte entorne e se esvazie,
Mulheres para amar entre os lobos
E amá-las porque amanhã terei partido.

Quem vejo como espelho de mim mesmo:
Um viajante no fim da primavera
Provocando a rebelião das águas,
Ajudando a cintilar a poeira
Que a brisa carrega de uma parte a outra.

O dia posto, uma noite mais.
Mudas, todas as cores se ocultam,
Fingem-se de negro o vermelho, o verde
E a cor de certa música esquecida
Que vagamente me seduz, num calafrio.

Arde a coroa de fogo,
Define-se o diagrama de um círculo.
Na ensoalhada direção do extremo norte,
O céu do mapa, sem planetas, predomina.
Nele revoluteiam as minhas asas estendidas.


SOPHIA
Tenho olhos para o inaudito,
Mãos para acudir o amigo,
Pernas para estar a caminho,
Ouvidos que retêm o invisível.

O silêncio eu trago no corpo
E a voz para quando é preciso.

No plasma acumulo e dissipo
O plasma dos meus vinte filhos.
Todo instante de agora
É a gota de luz que eu respiro.

Nos labirintos da mente,
Existe o sem-limite do que amo,
Hóstia do meu pensamento.

E existem os desertos do mal,
Paraíso eterno da serpente,
O grau zero do sobrenatural,
Razão por que temo a mim mesma.

Sedenta, a besta vive aqui dentro
Com sua cabeça de touro
Desfigurada pela tirania do desejo.

E também vivem comigo os arcanjos,
Presença secreta de um verbo
Que me ensina tudo que posso,
O perdão, a vergonha, o comedimento,
Honras que fazem minha alma serena.

Sobrenome do minuto presente,
A memória coleciona páginas
De um livro iniciado muito antigamente.
A franja de longas histórias sacode
E se rebela a qualquer murmúrio do vento.

Perco-me no meio de um bosque,
Mas no ramo da palmeira eu me reconheço.
Sorrio para uma caravana de homens,
Mas tão-só na mulher de olhos claros
Eu de fato me esqueço e me acrescento.

Pequeno grão no deserto de um século,
Sou também um pouco de ti,
Que às vezes estás ao meu lado,
Às vezes abaixo, às vezes acima de mim.

(In Fazer Silêncio, 2005)


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...