segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Madeleine Delbrêl

SENHOR, CONVIDA-NOS PARA DANÇAR
Muitos santos sentiram vontade de dançar,
tão contentes estavam de viver.
Santa Teresa de Ávila com suas castanholas, 
São João da Cruz com o menino Jesus nos braços,
e São Francisco de Assis diante do Papa,
Se estivéssemos contentes contigo,
Senhor, não conseguiríamos resistir a essa vontade de dançar...

Penso que, às vezes, estejas farto disto:
de pessoas que falam de servir-te, com ares de comandantes,
de conhecer-te, com ares de professores,
de te atingirem, com regras de esporte,
de te amarem, como se ama um casal de velhos.
Um dia em que sentias vontade de outra coisa,
inventaste São Francisco e fizeste dele teu jogral;

Senhor, vem convidar-nos,
estamos prontos a dançar em nossa caminhada,
dançar estas contas, este jantar a preparar,
esta vigília em que teremos sono...
dançar, por teu amor a dança do trabalho,
e a do calor, e depois, a do frio.
Se certas árias são em tom menor,
nós não diremos que são tristes,
se outras nos deixam um pouco sem fôlego, não diremos que são de arrasar.
E se um ou outro nos esbarra, não faremos caso,
sabendo que é assim quando se dança.

Dá-nos viver nossa vida,
não como um jogo de xadrez, onde tudo é calculado,
não como uma competição onde tudo é difícil,
não como um teorema que nos quebra a cabeça,
mas como uma festa sem fim,
onde nosso encontro se renova,
como um baile,
uma dança,
entre os braços da tua graça,
na música universal do teu amor.

[As mais bela orações de nosso tempo, Seleção, tradução e apresentação Frei Raimundo Cintra e Rose Marie Muraro, 2a. ed. Rio de Janeiro, Ed. José Olympio, 1973, pp. 60-61].

Sobre Madeleine Delbrêl

Henri Matisse

domingo, 30 de dezembro de 2012

Hélio Pellegrino

O PASTOR DO ANO NOVO
Entre o boi e o burro. Em meio ao feno, numa gruta onde os animais se recolhem, para abrigar-se da noite. Num espaço de rocha, cavado no coração da matéria, aí nasceu o menino, soberano do tempo e, por isto, pastor do Ano Novo. Sua mãe é jovem, cheia de graça, e se chama Maria. O pai é o carpinteiro José. O boi, o burro, o feno, a pedra escavada, a manjedoura, a estrela, com seu rastro de fogo, compõem um elenco elementar de presenças — resumo do Cosmo.

Há de tudo, em torno do menino que acabou de nascer. A reentrância da pedra, muda de um silêncio longuíssimo. A prestança do feno, na humildade de sua serventia. A manjedoura talhada na madeira, afeiçoadamente. O boi, o burro, construções de carne e paciência, ruminando o mistério. E o pai. A mãe. Os altos presságios, crivados de ansiedade. A dor da carne dilacerada, o esforço ofegante e antiquíssimo para dar à luz do mundo uma criança. E a criança que irrompe das entranhas sangrentas, o salto da eternidade para o tempo, do esquecimento para à memória, a luta, a cruz.

Uma criança nasceu em Belém e instaurou os tempos novos — Ano Novo. A criança tornou-se homem e tomou-se Deus. Seus pés inventaram o Caminho. Sua boca proferiu a Verdade. Seu peito abrasou-se do amor que é Vida, em perfeita abundância. Jesus Cristo, Senhor nosso, dono do gesto exemplar, luz de Deus feita carne. O que subidamente transfigura — e transverbera — a humana condição. Somos deuses.

Crucificadamente deuses. Na carência e na morte. O Terceiro Mundo e, em particular, o Nordeste brasileiro, que o digam. Nascem crianças, crucificadamente. O egoísmo dos ricos — classes e nações — as crucifica, a cada dia, pelo mundo afora. A fome se expande, a miséria pulula, o sacrifício dos inocentes fecha o círculo homicida, segundo por segundo. A iniquidade e a injustiça dão sinais de si, como o pulsar de um coração de pedra. Por isto é que o Cristo nasceu, para nos salvar: ossos, músculos, nervos, pão e vinho. Que persuasiva — e infinita — paciência, ano após ano, nasce e renasce no Natal — e no Ano Novo. Até o fim dos tempos, na roda circular do eterno retorno, surgirá o Cristo, cercado de forças elementares, para testemunhar a dignidade e os direitos da vida — e do homem. A essa teimosia sublime damos o nome de Ressurreição da Carne.

Há um Cristo da palavra, da pregação e do milagre, pescador de peixes e de homens. Há um Cristo que morre na cruz para morrer, por nós, a morte, ensinando-nos que o amor vence o derradeiro lance, e que é possível viver — e morrer — para os outros, pelos outros. Há um Cristo que nos diz: Ama o Teu Próximo Como a Ti Mesmo, Esta é a regra santa —difícil regra. Pois sermos deuses significa, não a dominância da soberbia e da grandeza, mas a vitória da humildade. Deus é quem hospeda o Próximo, no espaço de seus braços abertos. O Próximo é o mistério luxuoso diante do qual devo apagar-me, para que seu rosto resplandeça. É esta a excentricidade que o Cristo veio ensinar ao mundo. Só consigo ganhar-me, perdendo-me, só amealho riqueza, doando-a, só conquisto o meu nome, nomeando, chamando, clamando, consentindo no ser.

Deus é discreto. Deus é silêncio e vazio. Deus é liberdade. Cristo é uma imensa árvore copada, sem copa e sem tronco, dentro de cujo ardente perfil vazado todas as coisas cabem. Tudo e todos. Somos todos convidados para o banquete. Cristo, à cabeceira da mesa, nos convoca para o ágape. O pão, o vinho, a alegre — e leve — embriaguez apolínea. Cristo Apolo, elegantíssimo na sua túnica, pregando pelos campos. As ervas do caminho e os lírios das ravinas o compreenderam. Nós, humanos, temos ouvido mais duro.

Deus é paciente, o tempo divino é todo o tempo e, portanto, abolição do tempo, enquanto sudário da morte. Deus se mistura ao nosso barro, nasce, vive, morre e ressuscita conosco. O companheiro. Cristo companheiro, acompanhante, acompanhado. O amigo, o viandante, o peregrino, senhor do Verbo. Cristo é a juventude do mundo. Sua esperança. Sua tenaz — terna, eterna — esperança. Lâmina de acerados açúcares, vulnerante e irresistível.

Somos fuliginosos, perplexos, desgarrados e tristes. Somos seres humanos, transmudados por Cristo, homem divino. Somos bichos da terra, tão pequenos, mas o fogo do amor de Deus mora em nós. Por isto, temos a possibilidade da louca alegria. Cristo bailarino. Cristo dançarino. O mais próximo Próximo. Ali, na esquina, está ele, e nos olha. Naquele bar, naquele beco, naquela masmorra, hospital ou cortiço. Onde a carne sofre, aí está o Cristo, crucificado. Onde a carne ama, aí está o Cristo, glorificado. Onde está o homem, aí está o Cristo, suprema possibilidade do humano. Aqui.

Hoje é véspera do Ano-Novo, reedição da espera — e da esperança — do Natal. As duas festas participam de um mesmo ciclo, rito de natividade pelo qual reinventamos o futuro. Falemos, portanto, da Criança Eterna, semente de sol que nasce e renasce — pelos milênios afora. O boi, o burro, o feno, a manjedoura, a gruta, o pai, a mãe, a estrela. Os espaços infinitos. A tenra doçura da noite. O sofrimento da carne que, nesse cenário arquetípico, dá à luz do mundo a Luz do mundo. Toda criança que nasce é luz do mundo, e destampa o Natal — e o Ano-Novo. Vamos buscá-la perto, ao alcance da mão. Nesse momento, uma criança acaba de nascer. Dezenas, centenas, milhares de crianças acabam de nascer. Os frutos dourados do prazer da carne, dessa carne a quem a Criança Eterna investiu de uma dignidade infinita. O corpo, a carne, a comida, o concreto vigor do abraço, onde Deus fulge. Fúlgida luz. Tudo é uma beleza.

Beleza que se faz. Deus em nós — conosco — se constroi, doridamente , com as mãos, ferramentas, disciplinada carpintaria. O operário José. Maria, dona-de-casa. O aprendiz de oficial, menino Jesus, trabalha a madeira, fabrica seus barcos, seus arcos. A flor. O fruto. A criança. A grande empreitada cósmica se encorpando, complexa, através de milhões, bilhões, trilhões de anos. Toda criança é um deus que nasce. Tecido, tapete trançado, espessura de carne feita de tantos, tantos fios. Tantas fibras: luz, treva, travo, espaço, tempo, energia, matéria, matemáticas — a palavra. O Cristo que nasce no Natal e no Ano-Novo se repete — inesgotável — em qualquer criança que chega ao mundo. Deus minúsculo que explode bendito fruto de vosso ventre, ave, Maria.

Somos deuses, por decreto de uma criança que nasce. Carreguemo-la conosco — nosso centro. Entre quedas, desistências, covardias e grandezas, somos deuses. Há uma criança eterna em nós, que a cada dia quer nascer. A insofrida antemanhã. Que a cada momento a ajudemos. A incessante maiêutica. O parto, na agonia do caminho, da verdade e da vida. Por mão de mestre Jesus, carpinteiro, companheiro, fiador da justiça no mundo. Lumen.

(31.12.86)

[In A BURRICE DO DEMÔNIO, Rio de Janeiro: Rocco, 1988, pp. 129-132]

Sobre Hélio Pellegrino


Mariana Ianelli

ESTRELA DA TERRA
Joia do absurdo
Esta flor imaginada
Dentro do teu sonho de menino.
Uma ilusão querer guardá-la para sempre:
Quando chegar o sol das almas deste inverno,
Será o fim do tempo de raízes.

Zoltan Szabo: wind dancers
Pétala o que em ti germina,
Resplandece e perde o viço.
Pétala para tudo que é finito.
Pela futura celebração da memória,
Pelo que, um dia, sem explicação, termina.
Pétala para que tu sejas grato ao que há de vir.

O amor se apressa, se desespera,
Trágico de tanta alegria.
Por ele surge o escarlate
E o lastro de estandarte sob a terra.
Por ele se abre e se desfolha a tua rosa
No vento arauto das despedidas.

Fazer Silêncio, São Paulo: Iluminuras, 2005, p. 25

sábado, 29 de dezembro de 2012

Adonis

CAMINHO
Caminho e atrás de mim caminham as estrelas 
até seu próximo amanhã 
o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço 
amortecem meus passos, avivam meu sangue.

Não iniciei a trilha, ainda 
não vejo nenhum jazigo 
caminho até mim mesmo, até 
meu próximo amanhã
caminho e atrás de mim caminham as estrelas.

ADONIS [poemas], São Paulo, Companhia das Letras, 2012, seleção e tradução do árabe Michel Sleiman, p. 47.

A PEDRA DE LUZ
Esculpo minha vida sobre a pedra de luz
vida calma como um grão de trigo 
névoa cobre minhas letras 
vejo sombra nas minhas palavras.

Por ser amor
permaneço, construo sobre a luz 
e um bocado dos meus dias constrói comigo. 

A SIBILA
Sibila acendeu na minha testa 
incenso e ao sonho se entregou 
como se as pálpebras fossem leito.

Ó sibila dos séculos diga-nos
algo sobre o deus que nasce agora
— há mesmo o que adorar em seus olhos?

Ibidem, pp. 50-51


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Daniel Faria

EXPLICAÇÃO DO POETA
Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio

Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço

EXPLICAÇÃO DO SORRISO
A mãe disse-lhe escreve-me
De  lá de longe para onde vais
E ela disse não é longe casar
E a mãe sorria cega de dor
E parecia de deslumbramento

EXPLICAÇÃO DA AUSÊNCIA
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma sensação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
E a saudade é tudo ser igual.

EXPLICAÇÃO DA NOITE
Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti

Não deixes a candeia acesa
Dorme: basta-me essa luz

AQUILES E PÁTROCLO
Nem sucessivas e sucessivas migrações de aves
Perfarão a distância que agora nos separa
Mas esta nau não me levará à casa
E seguir-te não será morrer

[Daniel Faria, Poesia, Quasi Edições]










José Régio

A UM JOVEM POETA
Não me peças prefácios, nem juízos, nem conselhos,
Que me sinto empurrado
Para o trono dos velhos,
E coroado embalsamado!

Que pode, a ti, servir-te o que aprendi por mim?
Que darei eu do que ninguém me deu?
Chegar, nunca se chega! Mas, se há fim,
Cada qual ganhe belo o seu.

Chegar, nunca se chega ao píncaro sonhado!
Mas, se mais ampla já se nos anima
A linha do horizonte, – é o ganho dum passado
Deixando esfarrapado monte acima.

Nenhum caminho tem nenhum que se lhe iguale.
Meu – foi o meu suor; meus – os meus pés descalços.
Sofrer – só a quem sofre vale.
E o mais que se aprendeu são oiros falsos!

Ainda só há sol e azul pelos espaços
(Até se qualquer sombra lhes embace a quietude)
Diante desses passos
Que pedes que eu te ajude.

Pois vai! pois vai, sozinho, até que o sol se ponha,
Se entenebreça o azul, as aves emudeçam,
E tremam as estrelas, na medonha
Solidão onde, ao fim, desapareçam…

Sob, enquanto as houver, raríssimas estrelas,
Cava, na solidão, a terra escura,
E talvez venham a ser belas
As rosas, sobre a tua sepultura.

O que possas ganhar, tê-lo-ás, assim, ganhando,
Quando, perdido tudo o que era de perder,
Tombes, ao fim do descampado,
Sabendo que ninguém te pode socorrer…

Ninguém! Eu, menos que os demais,
Eu, que te perco, já, na curva do caminho,
E só te sei dizer adeuses tais
Que só te deixem mais sozinho.

Porque tu é que és tudo! a terra a cultivar,
A mão cultivadora, o arado da cultura,
O grão a semear,
O próprio fruto, – grão da mão futura.

Pois lavra-te, és o chão! emprega-te, és o braço!
Semeia-te, és o grão!
Floresce, frutifica, extingue-te! e, no espaço,
Pode, amanhã, nascer mais uma ideal constelação…

Entanto, se algum dia, por acaso,
Voltando à minha porta, me chamares,
Talvez, à tarde, ante esse imenso campo raso,
Possa eu ouvir os teus cantares.

Vendo, então, nos meus olhos, qualquer brilho,
Sentindo, em minha voz, tremer um alvoroço,
Vai-te embora feliz, meu irmão e meu filho!
Já te dei tudo quanto posso!

 [In A Chaga do Lado Sátiras e Epigramas de José Régio, Lisboa: Portugália Editora, 1954, pp. 67-70].


Matisse

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Henriqueta Lisboa

Ó NOITE
Ó noite, ensina-me
o teu magno
segredo:
iluminar da sombra.
Da sombra permitir
a visão mais profunda.
Projeta pela sombra
o roteiro dos astros.

Quanto mais te recolhes,
ó noite, nos teus véus,
tanto mais fulgem
as constelações.

Serás acaso humilde,
generosa,
ou apenas criadora
de beleza?

Ó noite, ensina-me
o teu magno
segredo.

O IRREVELADO
Eis o trigo. Poucas
porém decisivas palavras
bastam para transmudá-lo
no corpo e sangue do Esperado.

Trigo incorrupto na infecundidade,
eis a matéria à espreita
de algo que lhe dera estrutura, de algo
que a modelara, dócil, à força. 

ARIEL
Dança Ariel sob raios de sol
entre o vergel, vergando
as finas hastes, as corolas
repletas de orvalho. A gota
de orvalho, que clara
medalha sobre o peito de Ariel!

Dança Ariel renascido
de frias ruínas, como o arco-íris
do fundo dos vales. E o vento
com suas flautas e bronzes, que impulso
para os aéreos movimentos de Ariel!

Dança Ariel sobre as ondas. Seus pés
como pérolas salvas pendem
de dois frisos. E o mar,
que voluptuoso ninho de conchas
para o jogo de Ariel!

Dança Ariel sobre o altar das noites,
despertando as estrelas. E elas
próprias, suspensas
de secretos transportes, que ardentes
comparsas para o sacrifício de Ariel!

Dança Ariel para o tempo, à margem
da eternidade. E que precária
cousa, a eternidade,
para a alegria pura de Ariel!

(Azul Profundo)

Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral,  São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 245-247.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Maria Teresa Horta

Amadeo de Sousa Cardoso,
 " A Máscara do Olho Verde",
Óleo, 1915,

Os teus olhos
Direi verde
do verde dos teus olhos

de um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só  íntimo
ou só verde
daquele mais macio   mais ave
ou vento

Direi vácuo
                volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Voragem mais veloz
mais verde
               ou vinco
voragem mais crespada
ou precipício

Cem Poemas (antologia pessoal): 22 inéditos,   Rio de Janeiro: 7Letras, 2006,  p. 49-50

Mãe
Mãe
terminou o tempo
de sorrir
desculpa-me a morte
das plantas

tatuei a tua antiga
imagem loura
em todos os pulsos
que anjos inclinam
de existires

perdi-me noite na planície
branca
sobrevivente das madrugadas
da memória

trocaram-me os dias
e as ruas de ancas
verticais
e nas minhas mãos incompletas
trouxe-te
num naufrágio de flores cansadas
e o único jardim de amor
que cultivei
de navios ancorados ao espaço

(in "Espelho Inicial", 1960)

Cem Poemas (antologia pessoal): 22 inéditos,   Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, p.19

Sobre Maria Teresa Horta

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Angela Melim

UM NAVIO

Quanta paz aqui em baixo, na raiz do mundo... 
V. WOOLF

A solidão é um navio.
Só o que me move é a pá da solidão
o leme.
Se não gozo
suspiro
cristas suspensas
pedras de sal
fiapos de mar
— a maior boca
a mais
voraz.
Mas no seu fundo longínquo
âncora
os leitos de areia e seus lençóis limpíssimos
os peixes cegos
a paz.

Mais dia menos dia (1996) 

PRÓXIMA CENTAURI

Afastei-me
de vós, oh
estrela mais próxima, a vinte e cinco trilhões de milhas do meu sol,
ah mais próxima massa explosiva - finas
espadas de laser e dor.

Ah minha estrela, como eu suspensa
atravessada de lâminas e línguas
de fogo,
disforme, no entanto brilho, núcleo
indefinível inegável oh núcleo da luz.
Ó minha estrela dilacerada,
minha estrela de pontas,
Porta do céu, Estrela da manhã,
tende piedade de mim.

Ouvi-me
Sede sapientiae
Causa nostra laetitiae
Regina pacis
Centauro de Deus, que tirais os pecados do mundo,
atendei.

Ibidem

Fonte: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 70, seleção e prefácio Afonso Henriques Neto, São Paulo: Global, 2011, p. 212-213.


Angela Melim nasceu em Porto Alegre (RS), em 1952,  e vive no Rio de Janeiro, onde trabalha com tradução e redação. 


Jim Avignon

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Murilo Mendes

NATAL
Meu outro eu angustiado desloca o curso dos astros,
atravessa os espaços de fogo e toca a orla do manto divino.
O ser dos seres envia seu Filho para mim, para
os outros que O pedem e para os que O esquecem.
Uma criança dançando segura uma esfera azul com a cruz:
Vêm adorá-la brancos, pretos, portugueses, turcos, alemães,
russos, chineses, banhistas, beatas, cachorros e bandas de música.
A presença da criança transmite aos homens uma paz inefável
que eles comunicam nos seus lares a todos os amigos e parentes.
Anjos morenos sobrevoam o mar, os morros e arranha-céus,
desenrolando, em combinação com a rosa-dos-ventos,
grandes letreiros onde se lê: GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS
E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE.

[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.  246]


Giotto (e aiuti) ?
Il presepe di Greccio
affresco dalle Storie di san Francesco, 1295-97/1299
Assisi, basilica superiore

Emílio Moura

QUEM SOU EU?
ESTOU diante de ti.
Imóvel.
Absolutamente imóvel.
Nu e
silencioso.
Por que não te prevaleces deste instante
e não me revelas quem sou?

Fonte: POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, p. 202

POEMA
Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.

A poesia só me visita para que te realizes
para que eu te sinta e te compreenda. 

Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam ?

Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.

De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.

Ibidem, pp. 212-213

domingo, 23 de dezembro de 2012

Mariana Ianelli

UMA FLOR ENTRE AS PÁGINAS

E espalha os odores pela casa onde habitas, meu Deus. (Etty Hillesum)

Olhai o jasmim como cresce 
Entre o muro lamacento e o telhado,
Como continua a florir no meio dos campos gelados - 

Nem o lírio dos Evangelhos 
Nem a rosa branca de Rilke
Em todo o seu esplendor se vestiu como um deles.

O Amor e Depois, São Paulo: Ed. Iluminuras, 2012, p. 89

CAMPO DE CASSIANAS
Eterna a tua juventude sobre a mesa 
Que abdicou do triunfo sem orgulho 
De todos nós que sobrevivemos 
A pelo menos um desconsolo mortal.

Eterno o teu corpo adolescente 
Se oferecendo num banquete divino,
Sendo envolvido, devorado lentamente,
Atraído por uma forma indestrutível de virtude.

Na tua imagem um sem-fim de sutilezas 
Que não se apagam por falta de emoção,
Senão o contrário, que abrasam, que fustigam 
Com uma beleza que nunca nos pediu retribuição.

É no mármore o teu busto querendo ser tocado 
É no torpor à sombra de uma grande asa 
Em um dos bíblicos jardins do oriente 
A idade da inocência em que tua vida se calou.

Como a cada ano os lírios, os gladíolos,
Os cravos e os crisântemos, todos brancos, 
Também o teu nome rebenta e se multiplica 
Num imenso campo mágico de cassianas.

Ibidem, p. 45


sábado, 22 de dezembro de 2012

Yasmina Reza


"Sua irmã quer que eu seja culto. E curioso como nos dias de hoje as mulheres criam objetivos para si. Ela pretende que eu só me interesse pela música. Exato. Aliás, para ser franco, eu não vejo para que serve o resto. Quando você é íntimo da música, quando a música preenche sua vida, diga-me para que servem as palavras, mesmo agradáveis, para que servem as histórias, com o que rima essa reprodução da vida sobre o papel, pela qual todos se apaixonam loucamente, e que cheira a seu trabalho, sua habilidade, e que lhe traz tão pouco do sentimento de fatalidade. Sua irmã me disse que eu seria menos sombrio se lesse. Texto. Isso não me constrangeu. Eu não me aborreci por ser sombrio. Ler o quê, minha querida? Conhecer um pouco a literatura, você não conhece nada, você agora tem tempo. Em lugar de dizer exatamente o contrário, que teria sido a única boa maneira de falar comigo, a única maneira possível de me interessar pelo assunto, mas seu desconhecimento de mim é imenso, você agora tem tempo, diz ela, em lugar de dizer agora, papai, agora que você não tem mais tempo.

A maior parte das pessoas com que encontro, entre as quais minha filha, só tem uma percepção infinitamente trivial do tempo.

Nancy também está entusiasmada pela literatura. Mais exatamente, pois devo admitir que é uma mulher que vi quase sempre com um livro na mão, Nancy está entusiasmada por um escritor: André Petit-Pautre (você adivinha facilmente a que tentações esse nome me expôs). Você não o conhece. Ninguém o conhece. Só eu, pois ela o convida e à sua esposa para jantar de vez em quando. Petit-Pautre é seu guia. E nosso hóspede, de agora em diante. Num mundo em que todos escrevem, digo eu, não é anormal que André Petit-Pautre também escreva. Lionel citou para mim noutro dia essa palavra grandiosa de Enesco sobre Bach. A alma de minh’alma. A Lionel, que sempre gostou dos livros e da música, eu pergunto:
- Você pode citar um único texto que tenha sido a alma de sua alma?
- Não. As palavras não chegam para tanto. E a alma não lê.

Eu me reconciliei com Chopin. Eu poderia dizer que a minha reconciliação foi tão grande quanto a minha aversão durante anos.

À parte alguns instantes de ausência romântica em minha juventude, sempre tive horror a Chopin. E me reconciliei com ele graças a Samson François, rapaz que, até o presente, eu não podia ouvir, por causa de seu nome. Samson ainda pode ser, mas François! Samson Apfelbaum, mas não Samson François. Preso num engarrafamento, ligo a Radio Clássica: Noturno. Deixo. É bonito. Eis que você volta ao Chopin de seus velhos dias, bravo, digo para mim. Quem toca? Samson François. Uma capitulação a mais. O que você quer? Já não estou em idade disso.

Sua irmã, que quer que eu me torne mais culto, me perguntou se fui ao museu Picasso. Eu lhe respondi que não, simplesmente nunca fui ao museu Picasso nem nunca irei ao museu Picasso. Há entusiasmo demais sobre esse assunto, disse-lhe eu. Odeio o entusiasmo das massas pela beleza. De maneira geral, essas pessoas que frequentam as exposições e caminham durante horas me irritam. Sua irmã, que nunca teve nenhum senso de humor nem nenhuma capacidade de julgamento, e cujo marido não a ajudou a melhorar, mas a quem eu perdoo tudo, pois ele é farmacêutico e com ele ao menos posso discutir sobre as fórmulas, encolhe os ombros e me pergunta com uma secreta desolação com que passo meus dias. Eu penso, digo-lhe, no absurdo de nossos esforços. Criar pessoas para se entenderem, em sua reta final, recomendar a literatura e o museu Picasso. Eis com que passo meus dias, respondo-lhe com ênfase, com esse gênero de meditação. “Você se interessa pela política”, diz Nancy. “Ele se interessa sempre muito pela política”, diz delicadamente a pobre Nancy, que minha profundidade constrangeu pessoalmente, e que não deseja vir em minha ajuda, mas se reabilitar como esposa. “Você se engana, minha querida”, sou obrigado a corrigi-la, “eu me interesso pelos acontecimentos do planeta como Lionel de sua janela observa os veículos e os que passam. Indiferente a quase tudo, exceto ao movimento.” O que existe de invariável nelas, e eu as ponho no mesmo saco, é que nunca acreditam em mim. Elas interpretam tudo que digo como presunções lamentáveis e deslocadas. Estou exagerando um pouco. Acredito que no fim do dia, afirmei, falando de Jérôme —veja, Jérôme, outro exemplo, esse garoto que apesar de ser meu neto, afinal de contas ele só tem dois anos e meio, algumas vezes eu chamo de Jérémy ou Thomas, o que não tem nada a ver, bem sei, mas não me lembro de Jérôme, sua irmã toma isso como uma provocação insustentável, ela não imagina nem por um segundo que eu possa esquecer o primeiro nome dessa criança — então, falando de Jérôme eu disse o que penso, dando prosseguimento à conversa que se prolongou, que eu preferiria que ele se tornasse um tirano antes que um pária sindicalizado. Seguem-se algumas exclamações de horror e por último o reaparecimento de Dacimiento como tema de debate, eu afirmo que o único sistema válido é o feudalismo, o qual tinha o mérito de produzir quer anões que não falavam — não iam nos amolar com o museu Picasso e outras bobagens culturais —, quer cavaleiros ou revolucionários, indivíduos épicos que manejavam a espada e a lança. Hoje em dia, existem cartazes e balões e belas mulheres comuns, como você, que cantam. Eu pessoalmente, repeti, prefiro os vociferantes sedentos de sangue que agitam espadas. Isso pelo menos é corajoso. “Será que envelhecer consiste em desenvolver uma paródia de si próprio?”, pergunta sua irmã querendo parecer esperta e mostrar com uma bobagem sua qualidade de igual. Há alguns anos, eu a teria esbofeteado por menos. O que você sabe, pobrezinha, sobre envelhecer? Como ousa empregar essa palavra você, que acaba, com tal presunção, de acrescentar à humanidade um Jérôme suplementar?

— Envelhecer — digo-lhe com modéstia — é se acabar com piedade.

Excerto de UMA DESOLAÇÃO, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, pp. 38-41, trad. Sérgio Guimarães

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Wislawa Szymborska

CÉU
Era preciso começar daí: céu.
Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais, porém muito bem aberta.
Não preciso aguardar a noite amena:
nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos
e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.
Nem as montanhas mais altas
Estão mais próximas do céu
que os vales mais profundos.
Não há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas do céu,
brisas de céu e montes.
O céu é onipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas na armadilha,
com o habitante instalado,
com o abraço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
não foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
no endereço mais exato,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.

[In "Antologia de 63 poetas eslavos", trad. e org. Aleksandar Jovanovic, editora Hucitec, São Paulo, 1996]

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Maria José de Queiroz

O MATADOR
Um império se funda
com as mãos e a coragem.
A vida se defende
com o punho e a garra.
No território estreito
o outro é inimigo:
o Matador ataca.
O instinto homicida
instaurou no caos
sua ordem trágica:
Jahan Ara Rafi
ingressamos na história. 


MATA E COME
Este, o dialeto a traduzir:
a arma e a presa,
o alento em pausa,
a ansiedade da espera.

Tenso o arco,
o joelho em guarda:
o caçador e o alvo.
O primeiro homem, e o último,
diante da caça.
Une-os,
irremediavelmente,
a voragem da morte.

In: Resgate do Real: Amor e Morte, Belo Horizonte: Coimbra Ed. Ltda: , 1978, pp. 42-43

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Sophia de Mello Breyner Andresen

A ESTRELA
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto» 

[In OBRA POÉTICA,  Alfragide, Caminho, 2011, pp. 403-404].

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Jean Rouad

A chuva é uma companheira no Baixo Loire, a metade fiel de uma vida. Com isso a região ganha um estilo particular, porque no mais é bastante atípica. As nuvens carregadas de vapores do oceano entram à altura de Saint-Nazaire no estuário do Loire, sobre o rio, e numa elevatória incessante, derramam sobre a região de Nantes seu sobejo de umidade. No conjunto, quantidades nada consideráveis se nos referimos à monção, mas sabiamente destiladas o ano inteiro, de modo que, para as pessoas de passagem que nem sempre pegam uma estiada, a reputação do lugar é logo decretada: nuvens e chuvas. Difícil de desfazer, mesmo alegando a lendária amenidade do clima – da qual dão prova as missas que crescem em terra não-cultivada, e, aqui e acolá, algumas palmeiras desfolhadas em jardins de tabelião – pois as medidas estão aí: horas de insolação, índice pluviométrico, balanço anual. O tempo é úmido, não há dúvida, mas de tal maneira as pessoas se habituam que acabam não fazendo caso. Jura-se de boa fé, sob um chuvisco tenaz, que aquilo não é chuva. Quem usa óculos enxuga maquinalmente as lentes, vinte vezes ao dia, acostumando-se a caminhar por trás de uma constelação de gotículas que difratam a paisagem, retalham-na, gigantesca anamorfose no meio da qual se distinguem mal os pontos de referência: avança-se de memória. Mas quando escurece e chove mansamente sobre a cidade, quando os anúncios em néon piscam e desenham na noite marinha sua caligrafia luminosa, essas estrelinhas dançantes que cintilam diante dos olhos, essas fagulhas azuis, vermelhas, verdes, amarelas que salpicam nossas lentes criam uma festa digna de Versalhes. Em comparação, tirados os óculos, como o original é sem graça.

Excerto de “Os campos de Honra”, Rio de Janeiro, Record, 1990, trad. Moacir Werneck de Castro, p. 15. 

Jean Rouad nasceu Campbon em Loire-Atlantique, França. Admirador de Paul Claudel e Paul Éluard. Com sua primeira obra, Les champs d´honneur, recebeu o Prêmio Goncourt 1990.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Maria Gabriela Llansol

Herbais, 3 de dezembro de 1982

Uma outra ferida, um outro luto de animais, ou plantas, desponta no horizonte:
os nossos vizinhos mais recentes desejam comprar o jardim separado que, pelo nosso contrato, está incluído no arrendamento comercial da Casa, e dependências; o Augusto vai contestar, mas eu admito que ganhem o litigio e vejo que, neste ambiente dubitativo se enraíza a partida definitiva de Herbais e que, para o futuro, eu não quererei mais plantar nenhum arbusto, ou árvore para mim; sempre que o nosso espaço, ou seio, é ameaçado, ou cobiçado, as plantas, ou os animais, são as vítimas; presumo que se fecha uma fase - a fase da imobilidade —, e que nos anos próximos seremos marcados com o signo da passagem por lugares provisórios;

esta manhã estava, no entanto, inconsolável por abandonar à sua sorte os arbustos, quem me diz que não vão cortá-los, ou deslocá-los, dar-lhes uma importância secundária e um destino de joguetes do homem; e eu seria privada do horizonte pontiagudo daquela pouca terra em forma de proa; durante o sono desta noite admitira que era vizinha das raízes compadecentes de Prunus Triloba e, mais tarde, explicando a mim mesma o prosseguimento de Lisboaleipzig, e o método que ia seguir em tal trabalho, tive o sentimento de que o jardim que estava a perder, e em que eu no verão passado criara geometrias reflectidas em arbustos, se havia de transformar em território, ou seio de um livro. O seio de um livro ninguém o pode dominar ou destruir, nem eliminar por crueldade, ou cobiça. 

Herbais, 6 de dezembro de 1982

Tem dois anos e meio e é de uma imensa beleza; comparando-o ao espaço, é mais espaço do que o espaço; os seus arbustos, e árvores, obedecem a uma plantação irregular mas têm uma ordem; o inverno, dominando pela geada as ervas do chão, faz sobressair a sua parte aérea que ressoa nas minhas costas quando volto para casa.

Os ladrões de jardins, que fazem do jardim? O jardim fica cego para eles, ou são eles que fecham os olhos? No dia em que a terra for trocada por cobiça, para que existirão páginas para este livro?
levo comida à gata preta, e vou-me embora. Regressso. Ela assusta-se, mas logo sossega.
- Não é nada — falo-lhe. — É o nada que eu sou.

Um falcão no Punho - Diário I, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, pp. 94-95.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Maria do Sameiro Barroso

O ÓPIO DA MEMÓRIA
A primeira luz de uma página em branco concentra
em si, o espaço solar, os fetos marinhos,
as tulipas do mar, uma espinal-medula primitiva
e o corpo é o desejo extenso, um circunlóquio de música,
onde tudo se busca e transfigura,
no auge da sede, no fulgor dos rumores,
porque todo o seu límpido instante é um corpo
de palavras transgressoras.

No silêncio, há versos, reversos, sombras carregadas,
transparentes solstícios.
Pela pulsação errática, os meteoros deslizam
e as rodas inventam os mecanismos, onde um ópio
delirante circula, as nuvens se movem, e a consciência lateja.

Os textos são nevrálgicas fontes, nebulosas de fogo
onde o gelo se concentra.
A intermitência, a vida, os recortes respiráveis,
a busca de um horizonte vegetal desenha-se
na poeira cósmica dos olhos sacrificados,
pelos polvos à deriva.

Por vezes, apenas nas secreções marinhas,
as pálpebras encontram a serena melodia
a inundar a resposta.
Na pulsação singular, toda a matéria é vazio,
plenitude, abundância, onde as melodias se enredam,
se alargam à sede.
Para chegar à saciedade, talvez já não haja caminho,
nem pássaros no jardim que escrevo.
Talvez nos cárceres da memória,
ou apenas nas cicatrizes se inscreva 
o cristal iridiscente, o sol luminoso,
o céu de muitos espelhos, as constelações de luz,

o ardor de muitos séculos.

[Poemas da Noite incompleta, São Paulo: Escrituras, 2010, pp. 110-111]. 


AMADEO DE SOUZA-CARDOSO



sábado, 15 de dezembro de 2012

Ivan Junqueira

ELES SE VÃO
Eles se vão, os olhos no infinito,
a alma em vigília, o tíbio pensamento
suspenso no ar como um emblema e um grito.

Eles se vão, eles se vão. As mãos
são flâmulas em fluido movimento
à procura de duendes e de irmãos.

Eles se vão, esguios bailarinos
que dançam entre as vértebras do vento
ao som arcaico de órficos violinos.

Sortilégios, ambíguos e secretos,
trazem na fronte o alfanje do tormento
e são-lhe os passos pássaros inquietos.

Nenhum palmo de terra os enraíza,
nem lhes concede gozo ou sofrimento,
e o efêmero em seu visgo os eterniza.

Nada os detém, nem rogos nem promessas,
e os dois extremos, morte e nascimento,
lhes sabem como imagens às avessas.

Cristais de um brilho esfíngico e assassino
ofuscam-lhes o rosto sonolento
quando os acorda o fel do sol a pino.

E a tarde escorre lenta como um rio
que os banha no torpor do esquecimento
ou de algo mais espesso e mais sombrio.

De si não deixam mais do que um indício,
como se à luz de um vago testamento
o fim lhes desse o frêmito do início.

Eles se vão. O céu não lhes responde
e o inferno não lhes ouve um só lamento.
Eles se vão. Mas para onde?




Ivan Junqueira. Poemas Reunidos, São Paulo:Record, 1999, p. 241 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

José Tolentino Mendonça


O Anjo do Advento
Venha o teu anjo abrir de novo estas portas
ao anúncio da vida pura e repentina
que eleva os nossos dias mesmo baços
à altura da promessa

Venha o teu anjo restabelecer o alfabeto censurado
ensaiar a dança que os gestos ignoram
Venha apontar o dia límpido, só pelo azul esclarecido
desprender-nos da cinza do desânimo e do sono
guiar-nos para lá das fronteiras

Venha o teu anjo nomear o que trazemos
e passa de um dia para outro sempre adiado
Venha redizer o corpo inacabado
Este reticente modo de habitação
ainda à espera do seu nascer verdadeiro

Sobre José Tolentino Mendonça

Fonte: Site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Portugal

Ticiano

Antonio Barreto


A TERCEIRA PARTE DA NOITE
Você é muda
por isso te amo sem censuras.
Ponho a mochila nas costas
estendo o corpo na grama
e te descubro no céu.
Você é um punhado de estrelas no lençol
querendo me dar carona.

O EXILADO AQUI
Não entrarei nessa guerra.
Prefiro matar pernilongos com gominha.
Mesmo que os tambores troem nos tímpanos
do vizinho, mesmo que os clarins espetem os grilos
do jardim, não entrarei. E não adianta
me oferecerem cigarros que o que quero mesmo é um
copo d´água.
(Fico com medo dos Rolling Stones terem plagiado
o Pixinguinha).
(Fico com medo da fechadura não servir na chave).
Mas se você tem todas as chaves
por que não faz de conta que sou a porta?

LOUCURAS DE VERÃO
Sem recheio não dá pra morder o sanduíche do céu.
A vida galinha comigo, Baby,
mas ainda tenho um barão pra dois meses de sorvete.
Vou botar teu retrato no bolso de trás.
Hoje os anjos estão menstruados
e Deus comendo ovo
com seus dois namorados. Amanhã eu mordo
teu coração.
Por enquanto fico aqui
amassando rosas no alicate das mãos. 

MINAS GERAIS. Suplemento Literário, Belo Horizonte v. 18, n. 871, p. 12, jun. 1983

Fonte: Portal da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

SERLU

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Giorgos Seféris


Lembrança, I
e o mar não mais existe

Eu sozinho com uma flauta nas mãos;
a noite deserta a lua no minguante
e a terra a recender da última chuva.
Murmurei: "Onde quer que a toque, a lembrança me dói,
céu há pouco, o mar já não existe;
o que matam de dia, com carretas o esvaziam atrás do
          [monte."

Meus dedos brincavam distraídos com a flauta
que um velho pastor me deu porque lhe desejei boa-tarde;
os outros aboliram cumprimentos:
despertam, barbeiam-se e começam a matança diária,
como se poda ou se opera, metodicamente, sem paixão;
a dor é um cadáver como Pátroclo e ninguém comete enganos.

Pensei em tocar uma ária mas tive vergonha das pessoas
que me vêem além da noite dentro da minha luz tecida pelos corpos vivos, pelos corações desnudos e pelo amor que pertence tanto às Fúrias
como ao homem e à pedra e à água e à erva
e ao bicho que olha a morte de frente quando ela o vem
          [buscar.

Foi assim que avancei pela vereda escura
de volta ao meu jardim onde cavei um buraco e sepultei a
          [flauta
e tornei a murmurar: "Um dia haverá ressurreição, 
quando na primavera as árvores brilharem, a rósea manhã
          [irá resplandecer,
voltará o mar e outra vez Afrodite surgirá das ondas;
Nós somos a semente que morre." E entrei na minha casa
           [vazia.

In Poemas Giorgos Seféris, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 140-141, sel., trad. e notas de José Paulo Paes. 



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Cláudio Daniel


A ARTE DA POESIA
Os poetas em Lizzey são todos cegos.
Caminham apoiados em bengalas em
forma de serpente e são guiados por
cães que lhes mordem as pernas e
depois lambem as feridas. Ninguém
pode tocá-los, nem mesmo ficar à sua
sombra ou dirigir-lhes a palavra sem
sujar-se. Eles se arrastam pelas ruas
declamando seus romances, cuspindo
as sílabas entre caretas de suas bocas
tortas. Quando um poeta consegue
causar êxtase à multidão, às vezes pela
pronúncia de uma única palavra, todos
se calam e ficam como sonâmbulos.
Depois, como recompensa, os habi-
tantes de Lizzey juntam paus e pedras
e apedrejam o rapsodo. O seu corpo,
então, é disputado com avidez pelas
feras, que nada sabem de poesia.

(Inédito)

Sobre Cláudio Daniel

Fonte: Poetas na Biblioteca Antologia, São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2001, p. 75

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Carminha Gouthier

E EU ME CURVO DE DOR
Teus rebanhos se multiplicam
em doce alvura pelo sem fim,
teares trabalham dia e noite,
urdindo mantos de inverno.

E eu me curvo de frio.

Espigas silenciam de tão pesadas,
abelhas dançam música
nos ramos floridos,
o mel transborda nas Tuas medidas.

E eu me curvo de fome.

Em tuas arcas refulgem
braceletes, diademas, pérolas,
que ninguém pode contar. 

E eu me curvo de dor,

porque levaste
o pequeno aro de ouro da minha mão.

DE ONDE O LAMENTO?
Tão próximo este mar,
grande a noite que desceu,
treva única, murmurante.

Onde a montanha,
o barco,
papagaios que dançavam cores
em hastes invisíveis?

Ondas da noite?
Ondas do mar?

Abismos de sombra,
estrelas paradas,
abismos humanos,
angústias somadas.

De onde o lamento?

Navio fantasma
levou tantos sóis
levou tantos sonhos,
levou o que era
de muito guardar...

Levou o anel
de nome gravado,
levou os vestidos
tecidos de prata.

De onde o lamento?
Da noite ou do mar?

Das praias de hoje,
da serra longínqua,
dos velhos telhados?

De onde o lamento,
ninguém saberá.

Mystica poesia, poemas reunidos, ed. José Hipólito de Faria, Belo Horizonte, 2003, pp. 136-137
Lasar Segall (1909)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Mariana Ianelli

DEZEMBRO
Três e meia da tarde no relógio de parede
No fundo à esquerda de uma fotografia
E do teu rastro d’água contra um céu de dezembro
Nem o mais tênue vestígio.

Antes alguma âncora te prendesse.
Nada te prende. O que inspira
Não te move mas te apaga e dessedenta.
Um sol de dezembro. Um sol além do medo.

In O Amor e Depois, São Paulo: Iluminuras, 2012, p.63


Angelo Rodrígues on Flickr


domingo, 9 de dezembro de 2012

Maria Gabriela Llansol

Passo V

É
     por mais que eu escreva, que eu revele, por tentativas, as mutações e os matizes do nosso gênero interior, através do qual acedemos ao país mais doloroso de todos nós, homens, animais, plantas, países governados em torno de seus Estados, aflige-me sempre a estreiteza do meu espírito, e a angústia da minha falta de conhecimentos,
     ou de memória vossa que os substitua; as mulheres são mulheres mesmo quando escrevem, e os homens são homens mesmo quando governam, o que se vê a olho nu. Governar um livro foi o que eu mais desejei, ficando sempre aquém; sou um corpo de ver, e não agir; sou um cosmos de meditar.
Narro, e volto à narração,
vivo os meus meses reflectida
numa móvel amplitude,
em que já participam vida e morte
(a clara superfície da treva eterna que ilumino),
sem engano, sem ilusão, sem ódio. elas, Clara e
Lúcia, caminhavam nas vertentes da Arrábida aspirando o mar,
 Marie Laurencin
e eu antevia a sua entrada na gruta
(delas próprias e do mar),
que se abria em recantos sempre inesperados,
onde havia homens que usavam burel
os hábitos —, e tinham rostos semelhantes à primeira
vista
e que, depois,
avaliados à luz das preciosidades que deles se podia
trazer,
e que nós, com risco de esgotar nossos recursos, pagávamos às recoveiras a peso de ouro,
se revelavam profundamente singulares. Sem
terem um nome de família consideravam-se cristãs baptizadas Clara e Lúcia, e transportavam cargas ou bagagens de uma povoação a outra. Na nossa comunidade de beguinas (livre dos princípios da ortodoxia) eram tomadas por visitantes, mensageiras, caminhantes, e usurárias. Mas o serviço que nos prestaram foi inestimável. Elas vêem, à entrada da gruta que desce para a profundidade do solo, uma fogueira acesa que aquece os monges, três ou quatro sentados, e um de pé; eu, que as acompanho por esta narrativa, vejo labaredas, um ramo de chamas, e reconheço, nas mãos dos monges, o caminho que as há-de conduzir a Luís M., no declive penetrável da serra. Ponho-me a imaginar atentamente o seu rosto, enquanto Clara e Lúcia tiram dos alforges do burro as toalhas com que hão-de cobrir os rochedos escritos que ele nos envia. Debaixo das toalhas, os rochedos pesam e tornam-se invisíveis, o burro abandonando-se, percorre o itinerário com a sua própria lentidão e se alguém pergunta de que vai o burro, e de que vão elas próprias tão carregadas, eu sugiro-lhes que sorriam mansamente.

Estamos sós, só nós — disse Coração do Urso, no princípio do Outono que ela desejaria passar em Portugal. Ela já está no cabo Espichei mas não sei por que melancolia humana se julga longe; eu sou o seu último companheiro e protejo agora, às ocultas, o nascimento de dois seres. Nesta caverna onde eu, habituado ao frio, estou à-vontade, eles escorrem ainda dos muros do nascimento e hesitam face ao quente conteúdo que os há-de levar; é uma forma de calor que brotada nela a mantém em vida. Eu sou o último companheiro destes dias tão atravessados pelas correntes do exílio que te peço,
Margarida,
os tomes serenamente por uma época de metamorfose divina.
Eu, Coração de Urso, tenho um coração.
Brancura e Simbular, se nascerem,
escrevem  desdobram como um manto    descobrem
a tua vida.

Fragmento de Causa Amante, Relógio D´ Água, 1984, pp. 27-29

sábado, 8 de dezembro de 2012

Adriana Lisboa

PRESENTE

para Claudia Roquette-Pinto
O menino no sinal me pede uma esmola. Vê o meu rosto cansado, os meus músculos bradando urgências, a minha vida resfolegando, os meus sustos. Eu digo, no sinal, que fujo de alguma coisa rumo a outra que está muito longe.

O menino me dá uma esmola: seu sorriso. No tempo que para, percebo que sou eu a sorrir no menino enquanto sou eu do lado de cá, dentro do carro, e eu e o menino nos fitamos com um só olhar. Sem desespero e sem esperança.

Quando o sinal abre, minhas mãos custam um pouco a retomar o mundo que buzina lá fora, implorando esmolas. Sinto o motor do carro afagando o asfalto e venho de alguma coisa rumo a outra que talvez não esteja tão longe assim.

[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 31]


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Reynaldo Jiménez


A impregnação

onde disse, afiado,
cabelos, deveria ressoar
cavalos; onde imprecação,
talvez imbricação, ou
ainda invitação.
de mão a mão, se reparte o cosmos:

     imundície sobre bocas,
deserto as costelas,
cabeças e cabeças e cabeças e
(pendem dos mastros)
 trilhas da tartaruga na praia,
um segundo antes de ser
tragada pelas aves de passagem

     ou pelo mar. mentira:
onde disse trilhas deveria ouvir-se
colo e onde tartaruga, terra:
colo da terra entreouvida,

     lepra nas entranhas. Dizem,
a terra se mancha com os corpos
volvidos a sua inércia;que salvo
o fogo, tudo é marcha e escurecida
impregnação, embora corra,
a tartaruga não tem senão sombra
de albatroz, e nem o oceano poderia
regravá-la em seu fluido, a mão,
até a mão volta, mostra:

     onde disse
mão deveria abri-se fogo, e onde fogo
imbricação, invitação ao mar,
terra interdita, se parte o cosmos:

     cavalos flutuam como cabelos. 


In Poetas na Biblioteca Antologia, São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2001, trad. Claudio Daniel, pp.  97-98


Blog do poeta R. Jiménez
Aldemir Martins





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

José Paulo Paes

CEIA
Pesca no fundo de ti mesmo o peixe mais luzente.
Raspa-lhe as escamas com cuidado: ainda sangram.
Põe-lhe uns grãos do sal que trouxeste das viagens
e umas gotas de todo o vinagre que tiveste de beber
na vida.
Assa-o depois nas brasas que restem em meio a tanta cinza.

Serve-o aos teus convivas, mas com pão e vinho
do trigo que não segaste, da uva que não colheste
mas que de alguma forma foram pagos
em tempo ainda hábil
pelo teu muito suor e por um pouco do teu sangue.

Não te desculpes da modéstia da comida.
Ofereceste o que tinhas de melhor.
Podes agora dizer boa-noite, fechar a porta, apagar a luz
e ir dormir profundamente. Estamos quites
tu e eu, teu mais hipócrita leitor.

[Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo:Companhia das Letras, 2010, p. 51]

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Mário Faustino

ESTAVA LÁ AQUILES, QUE ABRAÇAVA
Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da citara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado. 

O homem e sua hora e outros poemas, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 90

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Maria do Sameiro Barroso

O INCÊNDIO PURO
Nascer, quando orquídeas de sangue flutuam
nas tuas mãos, silvas pelos muros,
exultante, a febre, a água, a imensidão,
as pálpebras fechadas,
Rogério Ribeiro
a música despenhando-se pela boca, pela erva,
no galope silencioso da lua, do orvalho,
a apoteose secreta lavrando a pele, os lírios,
a tuberosa lassidão.

Nas resinas da noite, nascer, na tua boca,
o pranto, o riso, a agonia.
Nascer, a face toda, o canto aceso, a areia,
o barro, o canto dos pássaros,
o perfume das árvores, das flores
(tílias, laranjeiras),
o já vivido, o nunca vislumbrado,
a gota sonolenta, as rédeas soltas,
os corcéis de seda percorrendo a terra,
o mar, os veios, a pedra,

o sonho inteiro. 

TATUAGEM
Cabeleira de sangue, vinho de tâmaras, substâncias
mágicas.
E nós, tatuados um no outro, perdidos para sempre.
Dá-me a tua mão. Quem sabe?
E doces serão as roseiras, a vertigem da noite,
a crineira de névoa,
ou os versos que escrevo, sobre verde malaquite,
nos torreões de sono.

Cabeleira de sangue, cabeleira de fogo, linfa cindida,
crineira errante.
Mágicas eram as serpentes líquidas.
E nós vivíamos entre as algas, as plantas venenosas,
os leves colibris.
Nesse tempo, eu gostava de sumo de maçã,
morangos, cogumelos.
Tu falavas de jasmim.

Cabeleira de sol, crineira de gelo, vinho nocturno.
E nós, tatuados nas estrelas,
as cigarras escrevendo os seus hinos
sobre os nossos corpos,
suas vozes rimando, como textos,
o mar embalando os búzios do sonho.

Cabeleira obscura, cabeleira negra, cabeleira
fresca.
E nós, acordando sobre os jardins de orvalho,
nada sabíamos das nuvens, da ímpar fusão,
do jasmim de névoa.

Algo precisava de se cumprir.

Sobre Maria do Sameiro Barroso

Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, pp. 52-53.


AS CENTELHAS DO LUME
Como o fulgor dos oceanos, revivo um corpo,
o seu nome, o lume que nos insectos lateja,
quando a chuva preenche a terra, o seu tumulto,
em busca das aves que partem,
na febre migratória de conhecer o fogo, o céu.

O conhecimento é então a comunicação aberta,
vertida no éter dos sonhos.
Na boca, salpicada de mar,
o húmus é a habitação dos grandes relógios,
o amor, a grande ambição do tempo,
o céu o seu umbigo mágico,
que o sol acompanha,
com suas guitarras de luar.

Na volatizada estrela, há um tremor
que a música fere, nas centelhas esquecidas,
sob os vulcões onde o coração resplandece,
na terra incendiada,

coberta de mágicos perfumes.

Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, p. 114. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Adriana Lisboa

RETIRO
Mesmo o verde do deserto é marrom. Corvos voam sobre a estrada enquanto Angela me conta que perdeu todos aqueles a quem amou. Minha pele está seca, descarna no rosto e nos dedos das mãos.

Disseram-nos para tomar cuidado com as cobras-cascavel. Também avisaram que uma viúva-negra foi encontrada ontem no banheiro.

Esta é a Grande Montanha Escondida. Descemos pela estrada empoeirada até Melru Lane, onde há aquelas casas espalhadas, sem muros, com bandeiras no jardim. Americanos gostam muito de bandeiras. Uma das casas parece um brechó e tem cabaças amarradas numa árvore seca, uma imensa Pantera Cor-de-Rosa de papelão, um mexicano de barro dormindo embaixo de seu sombrero, um monte de quinquilharias pelo jardim. Nessa casa não há bandeiras.

Na volta, estão nos esperando para trabalhar na cozinha. O monge simpático pergunta meu nome. Que bonito, comenta, para depois acrescentar que antes de ser ordenado chamava-se Adrian.

Cantamos. Depois vamos dobrar panos de prato azuis sob o sol.

[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 81]

Dora Ferreira da Silva

Habitas meu coração: barbas de rei assírio olhar de extensões alheias a tempo e medida. Tua voz tem asas de falcão e pousa nas...