quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Mariana Ianelli

O ENREDO DO CÃO
Nenhuma oração foi necessária
Para dizer como tua angústia se pôs nua,
De coxas nuas, desnutridas e surradas.
De quanta monotonia este enredo é feito
Que prevê a escuridão das tropas de combate
Mas não lamenta a tua consciência enfraquecida,
Teu brilho moreno se apagando,
Porque maior é o repouso do corpo, e mais precioso,
Quando o sangue já se esvaiu desperdiçado ...
De quanta sabedoria este enredo é feito
Que restaura um exército de sua culpa e sua couraça
E desenrola a bandeira da trégua sobre ti
No instante em que nada mais te contentava ...

Ter o sono brutal será também teres te apagado um pouco,
Mas afinal toda vida que fulgura, para fulgurar consome.


Nas galerias ocultas do medo eu me contive,
Não ousaria elevar meu grito de inocência.
Tantas vezes ostentei os meus cuidados
Em conservar o rebanho e os campos de trigo
Como se todos habitassem um só corpo
Que a ocasião da felicidade protegesse
E foi num sopro que acabei exterminado,
Vivendo entre a espada, o luto e uma elegia.
O pastoreio que difundia minha glória pelos montes
Não perdurou como eu imaginava,
Um fenômeno tenebroso vingou sobre minha fé
E o caos no céu encobriu as minhas idades.
Para mim estava aberto um só atalho
Onde os desenganados jamais dormem,
Uma confusão de braseiro, infâmia e dissonância
Que fui obrigado a tolerar desde o princípio
Sob o pavor de uma tragédia ainda mais dura
Que me dobrasse em partes irreconciliáveis,
Perdidas do eixo do meu peito manso,
Perdidas da minha condição elementar de humanidade.
Eu não sabia que um argumento verdadeiro é pouco
Se avaliado dentro de um extenso jogo de discursos,
Não compreendia as armadilhas do fogo,
Nem carecia de um motivo para cantar.
Fui um dos imprestáveis que devolveu a carne à orgia,
Que se hospedou na cave das madonas libertinas,
E não por divertimento ou bizarria,

Mas porque a invalidez havia me assaltado até a vertigem
E todo brilho de areia que por ventura eu entrevisse
Emanava para mim de alguma aurora doentia.
Hoje sou o errante que civiliza o vácuo.
Tenho olhos que miram a exuberância da erva-doce
Mas dela só enxergam um grosso punhado de sarça.
Um rival entre os parentes,
Qualquer anônimo dentro do meu pesadelo,
Os braços da fome emergindo dos meus panos,
Imundice que desperta de um puro sentimento,
O revés da alma, antes meu conteúdo imenso,
Seiva subindo pelo organismo, seiva descendo,
Uma caça devorada pelo abutre, ainda quente,
Estas ruínas que transporto inutilmente.
Nem promessa de luz, nem melancolia:
Um fantasma já não medita sobre o seu tempo.
Enquanto limpo o meu terreno do joio,
O maldito se aproxima, muito cavalheiresco,
E com as patas em torno do cabo da forquilha
Ele sugere me ajudar com o arado.
Eu me pergunto se acaso este veneno
Que se espalha com perigosa lentidão
Descerá tão fundo ao limite da inclemência
Até me transformar num vadio
A quem nada importa ter-se habituado à desgraça.
As idéias que antigamente me agitavam
Não produzem mais nenhum brilho exultante
Porque a minha prisão neste lugar do Oriente
Contesta toda possibilidade de amor

E induz qualquer pequeno gesto de brandura ao ódio.
De outrora só restou a matriz do indivíduo
Que disseminava aos ventos o seu afinco,
Sua identidade missionária e sua completa retidão.
As regalias da serenidade,
A juventude na orla viçosa dos campos,
O fruto do labor amealhado por anos,
Tudo se pulverizou com a minha queda.
Temo pela evasão do pensamento lúcido,
Eu enfraqueço tão apressadamente,
Coberto de humilhações, aleijado.
Quase permito que o corvo encontre em mim
Um porto para a sua miséria peregrina.
No entanto, estes membros são todos nudez,
Por nenhuma contenda eu pegaria em armas:
A minha razão é a singular vara da batalha.
Já não peço o contrário desta noite - eu silencio.
Venham os comandos dianteiros da artilharia,
A chuva insurgente de invernada, o seu granizo,
Caiam todos sobre mim: eu subsisto.
Não devo profanar as minhas conquistas, se as perdi,
Nem temer se me reduzem a um insensato que delira.
Porque suportei o incêndio e a sangria
E foram mensagens torturantes que aceitei,
Sem por isso professar a minha nostalgia,
Porque me deitei no pó e ali me calei por sete dias,
Mereço encurtar as fronteiras do destino:
- Este é o meu único pedido.

Do livro Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, pp. 19-23.





Guimarães Rosa


EXCERTO DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS
De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos desassossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela-já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes.
... O diabo na rua, no meio do redemunho...


In Grande Sertão: Veredas, Ficção Completa em dois volumes, Volume II, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1994, pp. 6-7




Cecília Meireles

MULHER ADORMECIDA
Moro no ventre da noite: 
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares, 
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe! 
Sem nome e sem família cresço, 
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino 
como árvore em quieta semente, 
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha 
a anunciação do meu segredo 
desentranhar-me deste enredo,

arrancar-me à vagueza imensa, 
consolar-me deste abandono, 
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos, 
que paisagem cria ou pensa 
para mim, a noite densa?
(Mar Absoluto e outros poemas)

PRELÚDIO
Que tempo seria, 
ó sangue, ó flor, 
em que se amaria 
de amor.

Pérolas de espuma, 
de espuma e sal.
Nunca mais nenhuma 
igual.

Era mar e lua: 
minha voz, mar.
Mas a tua. . . a tua,
luar!

Coroa divina 
que a própria luz 
nunca mais tão fina 
produz.

Que tempo seria, 
ó sangue, ó flor, 
em que se amaria 
de amor!
(Mar Absoluto e outros poemas)

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 238-239




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Antonio Barreto

LIRICANTO BREVIS PARA A MUSIAMADA MORTA
Teu sorriso:
estes dentes cariados
contornando o lábio ensanguentado
com fiapos nas palavras de granito
em teu sorriso.

Espanto de chuva nas nádegas
em sono campo e madrugada
no morder das palavras com teu grito
em teu sorriso.

Esta boca, lodo nos frutos
aumentando os horizontes desta
[ânsia
de quedar-me no teu corpo
carpo e porto
com fatias de palavras no teu mito
teu sorriso:

Um afogar-me nos abismos deste poço
quando ouvir-se o silêncio do teu
[medo
de uma faca deslizando em teu
[pescoço

Publicado no "Minas Gerais" (Suplemento Literário), n. 592, 4 de fevereiro de 1978.
Fonte: Acervo digital da Faculdade de Letras da UFMG

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Adélia Prado


NEM PARECE AMOR
Perdi a conta das vezes
que retomei esta escritura
sem avançar de sítios pantanosos,
tomando por melodia
o que era um ranger de ferros
de máquina contristada em seu limite.
Foi ontem e já tem cem anos,
faz um minuto só,
foi agora e foi nunca,
jamais aconteceu,
não há, não houve,
o que não tem palavras não existe.
De quem é então esta pegada?
Este filete de sangue?
Masturbações, risadas,
caretas no escuro, aliterações picarescas,
comem do meu cansaço em mesa farta.
Aquele que não responde
trata-me como a um cão
que por não ter aonde ir
se enrodilha aos Seus pés.

QUERIDO LOUCO
Quando um homem delira, 
de onde fala sua alma a língua 
para todas as línguas traduzível 
sem prejuízo de sua insensatez?
Ouvi-la obriga a alfabeto novo, 
dói tanto que os relógios param.
Tem piedade de mim é o mesmo que 
‘me dá um chinelo pra eu surrar o enfermeiro,
Deus é bom, nas famílias em crise ninguém escuta ninguém’.
Tira do bolso nota de pouca valia, 
me dando a senha pra encerrar a visita: 
Obrigado por tudo e vai com Deus, 
vai comprar pra você uma coisa bonita.

In A DURAÇÃO DO DIA, São Paulo: Record, 2010, pp. 92-93

By Dany TheMummy



Clarice Lispector


EXCERTOS DE "UM SOPRO DE VIDA"
E. E a mãe sou eu.
Mãe túmida. Mãe seiva. Mãe árvore. Mãe que dá e nada pede de volta.
Mãe música de órgão.
Hasteia a bandeira, filho, na hora de minha sagrada morte. E dou tal profundo grito de horror e louvor que as coisas se partem à vibração de minha voz única. Choque de estrelas. Pelo enorme monstruoso telescópio me vês. E eu sou gélida e generosa como o mar. Morro. E venho de longe como o silente Ravel. Sou um retrato que te olha. Mas quando quiseres ficar só com a tua namorada-esposa cobre minha cara doce com um pano escuro e fosco — e eu nada verei. Eu sou mãe-coisa pendurada na parede com respeito e dor. Mas que funda alegria em ser mãe. Mãe é doida. É tão doida que dela nasceram filhos. Eu me alimento com ricas comidas e tu mamas em mim leite grosso e fosforescente. Eu sou o teu talismã.

O deserto é um modo de ser. É um estado-coisa. De dia é tórrido e sem nenhuma piedade. É a terra-coisa. A coisa seca em milhares e milhares de trilhões de grãos de areia. De noite? Como é gélido esse lençol de ar que se crispa trêmulo de frio intensíssimo de uma intensidade quase insuportável. A cor do deserto é uma-não-cor. As areias não são brancas, são cor de sujo. E as dunas, que como ecos se ondulam femininas. De dia o ar faísca. E há as miragens. Vê-se — por tanto querer ver — um oásis de terra úmida e fértil, palmeiras e água, sombra, enfim sombra para os olhos que ao sol doido se tornam verde-esmeralda. Mas quando se chega perto — bem: simplesmente não era. Não passava de uma criação do sol na cabeça descoberta. O corpo tem pena do corpo. Eu sou uma miragem: de tanto querer ver-me eu me vejo.
Ah, os areais do deserto do Saara me parecem longamente adormecidos, intransformáveis pelo passar dos dias e das noites. Se suas areias fossem brancas ou coloridas, elas teriam “fatos” e “acontecimentos”, o que encurtaria o tempo. Mas da cor que são, nada acontece. E quando acontece, acontece um rígido cacto imóvel, grosso, intumescido, espinhento, eriçado, intratável. O cacto é cheio de raiva com dedos todos retorcidos e é impossível acarinhá-lo: ele te odeia em cada espinho espetado porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva: leite de mãe severa. Para suavizar essa minha vida que pinga lenta de gota em gota — tenho o poder da miragem: vejo oásis úmidos que se desvanecem quando chego perto para buscar abrigo materno. Uma vida dura é uma vida que parece mais longa. Mas, mesmo assim, me surpreendo como é que hoje já é maio, se ontem era fevereiro? Cada minuto que vem é um milagre que não se repete.

Eu não tenho uma só resposta. Mas tenho mais perguntas do que outro homem pudesse responder.

A expressão “jardim molhado” me dá uma alegria suave e um cântico espalhado de mim para mim. Também me umedecem as palavras “poço” e “caramanchão”. Ah pudesse eu descrever a alegria mansa que me provocam, só então eu seria uma escritora. Ficaria tonta de prazer.

Ângela não escreve. Ela geme. —.

Eu queria escrever luxuoso. Usar palavras que rebrilhassem molhadas e fossem peregrinas.  Às vezes solenes em púrpura, às vezes abismais esmeraldas, às vezes leves na mais fina macia seda rendilhada. Queria escrever frases que me extradissessem, frases soltas: “a lua de madrugada”, “jardins e jardins em sombra”, “doçuras adstringentes do mel”, “cristais que se quebram com musical fragor de desastre”. Ou então usar palavras que me vêm do meu desconhecido: trapilíssima avante sine qua non masioty — ai de nós e você. Você é a minha vela acesa. Eu sou a Noite.

In Um Sopro de Vida (Pulsações), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 4a. ed, 1978, pp. 108-110

Carlos Drummond de Andrade


AMOR E SEU TEMPO
AMOR é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se toma a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É  isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
(As Impurezas do Branco)

QUERO
Quero que todos os dias do ano 
todos os dias da vida 
de meia em meia hora 
de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo, 
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior 
e no seguinte, 
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra 
nem sei de outra maneira a não ser esta 
de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado: 
amor na raiz da palavra 
e na sua emissão, 
amor
saltando da língua nacional, 
amor 
feito som 
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo, 
inexoravelmente sei 
que deixaste de amar-me, 
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
(As Impurezas do Branco)



sábado, 25 de agosto de 2012

Alejandra Pizarnik

MORADAS
Na mão crispada de um morto,
na memória de um louco,
na tristeza de uma criança,
na mão que busca o vaso,
no copo inatingível,
na sede de sempre.

In Poesía Completa, Barcelona: Editorial Lumen, 2000, p. 205

COLD IN HAND BLUES
e o que dirás
vou dizer pouca coisa
e o que farás
vou esconder-me na linguagem
porque
tenho medo

In Poesía Completa, Barcelona: Editorial Lumen, 2000, p. 263

NUM EXEMPLAR DE "LES CHANTS DE MALDOROR"
Sob meu vestido ardia um campo com flores alegres como crianças da meia noite.
O sopro da luz em meus ossos quando escrevo a palavra terra.
Palavra ou presença seguida por animais perfumados; triste como só ela mesma, formosa como o suicídio; e que me sobrevoa como uma dinastia de sóis.

In Poesía Completa, Barcelona: Editorial Lumen, 2000, p. 275


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Lucinda Persona

CALABOUÇO
Vida
lavrada na ata cotidiana
síntese do sentimento das realidades perdidas
(e amadas inutilmente).

Estou agora como gosto de estar
entre meus objetos e os escombros
do silêncio noturno. Aqui, nesta sala
neste universo com princípio e fim
onde nada se transforma
de uma hora para outra
e qualquer visita é improvável.

Não faz tempo (eu que estou
no imenso calabouço de uma noite)
tive uma assombração de sol
fui à cozinha e vi mamões maduros
adormecidos na fruteira.
Os mamões têm sementes negras
sementes negras e úmidas
em seu calabouço
e que amanhã poderão estar livres
dar novos mamoeiros eu, não
e o mundo é assim. 
(Sopa escaldante - 2011)


In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, p. 110


Lucinda Nogueira Persona é paranaense de Arapongas.  Escreve desde a infância. Fez estréia na poesia com a obra Por imenso gosto (São Paulo: Massao Ohno, 1995), com a qual obteve Prêmio especial do Júri "Concurso Cecília Meireles", União Brasileira de Escritores.  Participou da antologia de contos Na margem esquerda do rio: contos de fim de século (São Paulo: Via Lettera, 2002). Colabora com jornais mato-grossenses (A Gazeta, Diário de Cuiabá, A Folha do Estado) escrevendo resenhas, crônicas e contos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Léon de Greiff

EXCERTO DO POEMA "ALLEGRO AGITATO"
(...)
Amar-te-ei com amor infinito,
Noite Eterna;
amar-te-ei com amor transitório,
Noite em Fuga;
Amar-te-ei com seráfico amor,
Noite Virgem;
amar-te-ei com amor desordenado,
Noite em Brasas;
amar-te-ei com amor cerebral, imaterial, fosforescente, irradiante,
oh Noite Metafísica;
sob a rósea luz de Vênus acendida,
amar-te-ei, Noite Insaciável;
amar-te-ei sob a proteção da romântica Selene,
Noite Diana;
infiel,  amar-te-ei,
Noite Proclive;
intempestivo, amar-te-ei,
Noite Vertiginosa;
glacial, amar-te-ei,
Noite Fria;
furtivo, amar-te-ei,
Noite Cautelosa:
amar-te-ei cantando minha paixão aos gritos,
Noite Desafiadora;
calado,  amar-te-ei,
Noite Muda.

Acolherás meu espírito e meu corpo,
meu sangue, meu coração, todo meu ser
- muitos -, Noite Copiosa:
meu espírito e meu corpo, meu sangue, meu coração, todo meu ser,
- únicos - , Noite Única,
Noite, Noite Predestinada...!

Busco teu refúgio, oh Noite, oh Formosa Noite,
Noite veloz - toda sutil encanto -,
oh Noite toda amor, toda supraterrena delícia...

Esta é a Noite, a Fraterna Noite,
Noite Amante, Noite Lustral.... minha Noite em êxtase...!
(do livro Variaciones alredor de nada - 1936)

Tradução livre do original espanhol: Antonio Damásio Rêgo Filho

Léon de Grieff, poeta colombiano. 






terça-feira, 21 de agosto de 2012

Terêza Tenório

POEMACESO
Não morrerei de Amor enquanto exista
todo o mar que se estende até a lua
e me devolve a mim não mais sombria

o rosto do amado. Não morrerei
nesta manhã de sol e alegoria
cheia de luz e pássaros selvagens

em direção ao sul que acesa é a vida
e avesso da morte. Não morrerei
pois sou livre e sem nome. Em pleno dia

a solidão se esvai junto à penumbra
e dissolve no tempo a sua magia.

Assim não morrerei de Amor
embora eu tenha para sempre a alma vazia.

(Sincretismo — a poesia da geração 60, org. Pedro Lyra, Rio de Janeiro: Topbooks, 1995)


DOS AFOGADOS DO RECIFE
Esta dama do mar rasgou os seios
e a febre consumiu a seiva e a lágrima
Imerso em maresia o rosto líquido
buscou dentro da noite os afogados

À textura da pele luminosa
barqueiros ribeirinhos naufragavam
Seus úmidos interiores cheiram a musgo
baronesas e aquáticos nenúfares

Esta dama do mar ardeu-se à sombra
da nossa fome e ausência de Paixão
Adormecida à luz da lua sonha

que nascem dos seus flancos pontes cálidas
sobre os rios acesos do verão quando ela sensual retorna às águas

(Ibidem)

Poemas publicados na coletânea "Roteiro da Poesia Brasileira, anos 70", seleção e prefácio de Afonso Henriques Neto, Ed. Global, São Paulo, 2009, pp. 153-154

Sobre Terêza Tenório

Alphonsus de Guimaraens Filho

NOITE
Noite feita de um acúmulo de noites,
noite das noites, por que me penetras?
Induzido por ti cheguei até estas cercas espessas
e não sei ir além. Noite mais noite que qualquer, por que
me segredas
mais que teu frio, mais que o frio das tuas estrelas?
Eu não sei te dizer senão que és e estás, mas que te desconheço
como o homem desconhece o seu caminho por mais caminhos que tenha
desvendado.

Sei que és inatingida, por mais que vá até ao fundo do teu silêncio
incendido de chamas pálidas e suaves.
Sei que nunca serás, por mais que estejas sendo, perturbadora
noite em que os símbolos desmaiam
e apenas fica uma linguagem que nunca decifrarei e todavia entendo,
ou pelo menos julgo entender enquanto me arrebatas
em cordas tensas de um instrumento de que irrompem árias que
julgamos captar e nunca serão ouvidas
aqui, ou em nenhum mundo.

In:  Suplemento Literário do "Minas Gerais", Belo Horizonte, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 4 de outubro de 1980, ano XIV, n. 731, p. 3

domingo, 19 de agosto de 2012

Renata Pallottini

DECLARAÇÃO DE ÚLTIMA VONTADE
Quando eu estiver pra morrer 
levem-me depressa a Madrid, 
avisem Juan Carlos e Sofia 
e preparem o Teatro Real.
Flores vermelhas e amarelas,
tapetes pendurados nas janelas
e os reis — tão acertados, tão repousantes.
Tanto, a essa altura já será vitoriosa 
a revolução socialista...
Por que não posso morrer monárquica?
Por que não posso me enterrar antiga?
É um velho desejo, um conflito insopitado.

Levem-me para a Praça Isabel Segunda 
(antes, Praça da Ópera)
e deixam que o povo venha vender castanhas no meu enterro
— Esse povo, para sempre dividido
entre a revolta e o amor ibérico às bandeiras.

Mas se alguém me quiser ainda viva
pra responder por malfeitos 
ou retribuir um beijo
bastará que ordene à banda pra atacar “La Revoltosa”.
Em dez segundos estarei de pé 
com um cravo na orelha e um touro vivo no coração.

Sobre Renata Pallottini

[In: PALAVRA DE MULHER, Rio de Janeiro: Ed. Fontana Ltda., 1979, p. 122]

sábado, 18 de agosto de 2012

Marguerite Duras

 EXCERTO DE "ESCREVER"
 A solidão também quer dizer isso: ou a morte, ou o livro. Mas antes de tudo quer dizer álcool. Quer dizer uísque. Até agora, nunca fui capaz, nunca mesmo, realmente nunca, ou talvez fosse preciso procurar bem longe... nunca fui capaz de começar um livro sem terminar. Nunca fiz um livro que não fosse minha razão de ser na hora em que está sendo escrito, e isso vale para qualquer livro. E em toda parte. Em todas as estações do ano. Essa paixão, eu a descobri aqui em Yvelines, nesta casa. Eu tinha afinal uma casa onde me esconder para escrever livros. Queria viver nessa casa. Para quê? Começou desse jeito, como uma brincadeira. Talvez escrever, disse a mim mesmo, quem sabe eu sou capaz? Já havia começado livros que deixara de lado. Esquecera até os títulos. Le Vice-consul, não. Eu não o abandonei, penso nele muitas vezes. Em Lol V. Stein não penso mais. Ninguém pode conhecê-la, L. V. S., nem vocês nem eu. E mesmo aquilo que Lacan disse a respeito do livro, eu nunca cheguei a entender direito. Lacan me deixava atordoada. E aquela sua frase: “Ela não deve saber que escreve, nem aquilo que escreve. Porque ela se perderia. E isso seria uma catástrofe.” Esta frase tornou-se, para mim, uma espécie de identidade de princípio, um “direito de dizer” totalmente ignorado pelas mulheres.

Achar-se em um buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita pode nos salvar. Achar-se sem assunto para o livro, sem a menor ideia do livro significa achar-se, descobrir-se, diante de um livro. Uma imensidão vazia. Um livro eventual. Diante de nada. Diante de algo semelhante a uma escrita viva e nua, algo terrível, terrível de ser subjugado. Acho que a pessoa que escreve não tem a ideia de um livro, tem as mãos vazias, a mente vazia, e dessa aventura do livro ela conhece apenas a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, distante, com suas regras de ouro, elementares: a ortografia, o sentido.

Le Vice-consul é um livro que gritou, sem voz, por todo lado. Não gosto desta expressão, mas quando releio o livro eu a reencontro, qualquer coisa desse tipo. É verdade, o vice-cônsul berrava todo dia... mas de um lugar secreto para mim. Como se reza todo dia, ele todo dia berrava. Isto é verdade, gritava com força e pelas noites de Lahore ele disparava nos jardins de Shalimar para matar. Não importava quem fosse, mas matar. Ele matava por matar. A partir do momento em que não importava quem fosse, a índia inteira podia se achar em estado de decomposição. Ele berrava em casa, na Residência Oficial, e quando estava sozinho na noite negra de uma Calcutá deserta. Ele está louco, louco de inteligência, o vice-cônsul. Ele mata Lahore todas as noites.

Nunca o encontrei em outro lugar, não o encontrei senão dentro do ator que o representava, meu amigo, o genial Michael Lonsdale — mesmo em seus outros papéis, para mim, ele ainda é o vice-cônsul da França em Lahore. É meu amigo, meu irmão.

É no vice-cônsul que eu acredito. O grito do vice-cônsul, “a única política”, ele também registrou-se aqui, em Neauphle-le-Château. Foi aqui que ele a chamou, a ela, sim, aqui. Ela, A. M. S. Anna-Maria Guardi. Foi ela, Delphine Seyrig. E todas as pessoas do filme choravam. Eram lágrimas livres, sem noção do sentido que possuíam, inevitáveis, as lágrimas verdadeiras, as lágrimas da gente da miséria.

Chega um momento na vida, e acho que isso é fatal, do qual não se pode escapar, no qual tudo é posto em dúvida: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Não as crianças. As crianças jamais são colocadas em questão. E essa dúvida cresce a nossa volta. Essa dúvida existe sozinha, é a dúvida da solidão. Nasce daí, da solidão. Já se pode nomear a palavra. Acho que muita gente não é capaz de suportar isso que estou dizendo, fugiriam. Talvez este seja o motivo por que todos os homens não são escritores. Sim. Esta é a diferença. Esta é a verdade. Nada além disso. A dúvida é escrever. Portanto, é também o escritor. E com o escritor o mundo inteiro escreve. Sempre se soube isso.

Também acho que sem esta dúvida primordial sobre o gesto da escrita não existe solidão. Ninguém jamais escreveu a duas vozes. Foi possível cantar a duas vozes, e também tocar música, e jogar tênis, mas escrever não. Jamais. De saída, fiz livros chamados de políticos. O primeiro foi Abahn, Sabana, David, um dos que me são mais caros. Creio que isso é um detalhe, o fato de um livro ser mais ou menos difícil de guiar do que é a vida comum. A dificuldade é uma coisa que simplesmente existe. Um livro é difícil de guiar, na direção do leitor, na direção da sua leitura. Se eu não tivesse escrito, teria me tornado uma alcoólatra incurável. Trata-se de um estado prático, achar-se perdido sem poder mais escrever... É aí que se bebe. A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que perder, aí é que se escreve. Ao passo que o livro está ali, e grita, exige ser terminado, exige que se escreva. A pessoa se vê obrigada a se colocar a seu serviço.

É impossível escapar de um livro, antes que ele esteja afinal escrito — ou seja: sozinho e livre de você que o escreveu. É tão insuportável quanto um crime. Não acredito nas pessoas que dizem: “Rasguei meu manuscrito, joguei tudo fora.” Não acredito nisso. Ou o que estava escrito não existia para os outros, ou não era um livro. E sempre se sabe quando não é um livro. Se chegará um dia a ser um livro, não, isso nunca se sabe. Nunca.

Quando ia me deitar, cobria o rosto. Eu tinha pouco de mim mesma. Não sei como não sei por quê. E por isso bebia álcool antes de dormir. Para me esquecer de mim. Isso passa num instante pelo sangue, e depois vem o sono. A solidão alcoólica é angustiante. O coração, sim, é isso. De repente ele começa a bater ligeiro demais.

Tudo escrevia quando eu escrevia na casa. A escrita estava por todo lado. E quando via os amigos, às vezes mal os reconhecia. Houve muitos anos assim, difíceis, para mim, dez anos talvez, foi quanto durou. E quando os amigos, mesmo os mais queridos, vinham me ver, também era terrível. Não sabiam nada de mim: me queriam bem e vinham por gentileza, acreditando que me faziam bem. E o mais estranho era que eu não pensava em nada disso.

Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior à vida. E sempre a reconhecemos, é aquela das florestas, tão antiga quanto o tempo. O medo de tudo, algo distinto e ao mesmo tempo inseparável da própria vida. Encarniçado. Não se pode escrever sem a força do corpo. É preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita. É uma coisa gozada, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, é o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, os gritos dos cães. É a vulgaridade maciça, desesperadora, da sociedade. A dor, é também Cristo e Moisés e os faraós e todos os judeus e todas as crianças judias, e é também a bondade mais violenta. Sempre, acredito nisso.

Esta casa em Neauphle-le-Château, comprei-a com os direitos da adaptação do meu livro Un Barrage contre le Pacifique para o cinema. Ela me pertencia, ela estava em meu nome. Essa compra precedeu a loucura da escrita. Uma espécie de vulcão. Acho que esta casa é assim para muitos. Ela me consola de todas as dores da infância. Quando a comprei, soube logo que tinha feito alguma coisa importante, para mim, e definitiva. Alguma coisa só para mim e para meu filho, pela primeira vez na vida. E me dediquei à casa. Limpei-a. Fiquei bastante “ocupada” com ela. Depois, quando embarquei nos meus livros, me ocupei menos.

A escrita vai muito longe... Até se acabar. Às vezes é algo insustentável. De súbito, tudo adquire um sentido em relação à escrita, é de deixar a gente doida. As pessoas que conhecemos não as conhecemos mais, e aquelas que não conhecemos, achamos tê-las visto antes. Não há dúvida de que eu estava já simplesmente, e um pouco mais que os outros, cansada de viver. Era um estado de dor sem sofrimento. Não tentava me proteger dos outros, sobretudo das pessoas que me conheciam. Não era triste. Era desesperado. Eu tinha embarcado no trabalho mais difícil da minha vida: meu amante de Lahore, escrever sua vida. Escrever Le Vice-consul. Precisei dedicar três anos a este livro. Não podia falar do assunto porque a menor intrusão no livro, a menor informação “objetiva” teria apagado tudo do livro. Uma outra escrita, corrigida, teria destruído a escrita do livro e o que eu sabia de mim em relação ao livro. Essa ilusão que se tem — e que é justa — de ser o único que escreveu o que está escrito, seja uma nulidade ou uma maravilha. E quando lia os críticos, a maior parte do tempo eu me achava sensível ao fato de que se dizia que aquilo não se parecia com nada. Quer dizer que aquilo vinha ao encontro da solidão inicial do autor.

[In Escrever.  Trad. Rubens Figueiredo, Rio de Janeiro,  Ed. Rocco,  1999, pp. 18-24]


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade

TRISTE HORIZONTE
 Por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia
 e continua, branda: Volta lá.
Tudo é belo e cantante na coleção de perfumes
das avenidas que levam ao amor,
nos espelhos de luz e penumbra onde se projetam
os puros jogos de viver. Anda! Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto,
o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser.
Não o passado cor-de-cores fantásticas,
Belo Horizonte sorrindo púber e núbil sensual sem malícia,
lugar de ler os clássicos e amar as artes novas,
lugar muito especial pela graça do clima
e pelo gosto, que não tem preço, de falar mal do Governo
no lendário Bar do Ponto.
Cidade aberta aos estudantes do mundo inteiro, inclusive Alagoas,
"maravilha de milhares de brilhos vidrilhos"
mariodeandrademente celebrada.
Não, Mário, Belo Horizonte não era uma tolice como as outras.
Era uma provinciana saudável, de carnes leves pesseguíneas.
Era um remanso muito manso
para fugir às partes agitadas do Brasil,
sorrindo do Rio de Janeiro e de São Paulo: tão prafrentex, as duas!
e nós lá: macio-amesendados na calma e na verde brisa irônica...
Esquecer, quero esquecer é a brutal Belo Horizonte
que se empavona sobre o corpo crucificado da primeira.
Quero não saber da traição de seus santos.
Eles a protegiam, agora protegem-se a si mesmos.
São José, no centro mesmo da cidade,
explora estacionamento de automóveis.
São José dendroclasta não deixa de pé sequer um pé-de-pau
onde amarrar o burrinho numa parada no caminho do Egito.
São José vai entrar feio no comércio de imóveis,
vendendo seus jardins reservados a Deus.
São Pedro instala supermercado.
Nossa Senhora das Dores, amizade da gente na Floresta,
(vi crescer sua igreja à sombra do Padre Artur)
abre caderneta de poupança,
lojas de acessórios para carros,
papelaria, aviário, pães-de-queijo
Terão endoidecido esses meus santos
e a dolorida mãe de Deus?
Ou foi em nome deles que pastores deixam de pastorear para faturar?
Não escutam a voz de Jeremias
(e é o Senhor que fala por sua boca de vergasta): "Eu vos introduzi numa terra fértil,
e depois de lá entrardes a profanastes.
Ai dos pastores que perdem e despedaçam
o rebanho da minha pastagem!
Eis que os visitarei para castigar a esperteza de seus desígnios".

Fujo
da ignóbil visão de tendas obstruindo as alamedas do Senhor.
Tento fugir da própria cidade, reconfortar-me
em seu austero píncaro serrano.
De lá verei uma longínqua, purificada Belo Horizonte
sem escutar o rumor dos negócios abafando a litania dos fieis.
Lá o imenso azul desenha ainda as mensagens
de esperança nos homens pacificados - os doces mineiros
que teimam em existir no caos e no tráfico.
Em vão tento a escalada.
Cassetetes e revólveres me barram
a subida que era alegria dominical de minha gente.
Proibido escalar. Proibido sentir
o ar de liberdade destes cimos,
proibido viver a selvagem intimidade destas pedras
que se vão desfazendo em forma de dinheiro.
Esta serra tem dono. Não mais a natureza
a governa. Desfaz-se, com o minério, uma antiga aliança, um rito da cidade.
Desiste ou leva bala. Encurralados todos,
a Serra do Curral, os moradores
cá embaixo. Jeremias me avisa:
"Foi assolada toda a serra; de improviso
derrubaram minhas tendas, abateram meus pavilhões.
Vi os montes, e eis que tremiam.
E todos os outeiros estremeciam.
Olhei terra, e eis que estava vazia, sem nada nada nada".

Sossega minha saudade. Não me cicies outra vez
o impróprio convite.
Não quero mais, não quero ver-te,
meu Triste Horizonte e destroçado amor.

In POESIA E PROSA, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1992, pp. 787-789.

Laís Correa de Araújo


CARTA
Quisera escrever-lhe com uma letrinha
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um “eternamente sua”,
mas quem sabe se você me quererá para sempre?

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 28

FIM
Acabemos tudo, amor. Houve um sonho. 
O luar toca sua música branca 
na harpa da trepadeira.
Que seja assim. Dentro da noite 
como os grilos. E simples e sensatamente. 
Provemos a paz. Há paz nos meus cabelos, 
serei tua e irás. Com naturalidade.
Que importa que meu travesseiro 
fique hoje úmido e humano?

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 34

CINEMA
O peso quente do escuro,
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos, 
exagerado como folhas de árvore, 
e eu tive de despejá-lo em outra boca.

Depois uma bala de coco apagou 
o gosto de violência da penumbra 
e a luz me entregou a impressão 
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 35


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Carlos Pintado

QUARTO EM ARLES
Nada mais tocante:  a cadeira
deixada inconclusa pelo pintor
talvez imaginando o difuso
enredo da luz, o pesadelo
de viver sem uma orelha.
Nada perturba o quadro; a agonia,
nós a sentimos;  a agonia
nele não existe. A cadeira perplexa
prossegue a seu tempo inabalável  e só.
Pouco importa o cachimbo que parece
indiferente à fumaça impedida
de saltar  do desenho. Triste e só
ficará para sempre na pintura,
a cadeira que outra sorte não tem. 

Tradução livre do espanhol: Antonio Damásio Rêgo Filho e Alejandro Carvajal 

Cassiano Ricardo


ROTAÇÃO

a esfera 
em torno de si mesma 
me ensina a espera 
a espera me ensina 
            a esperança 
a esperança me ensina 
uma nova espera a nova 
espera me ensina 
de novo a esperança 
            na esfera 

a esfera 
em torno de si mesma 
me ensina a espera 
a espera me ensina 
            a esperança 
a esperança me ensina 
uma nova espera a nova 
espera me ensina 
uma nova esperança 
           na esfera 

a esfera 
em torno de si mesma 
me ensina a espera 
a espera me ensina 
           a esperança 
a esperança me ensina 
uma nova espera a nova 
espera me ensina 
uma nova esperança 
          na esfera
  

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Maria Gabriela Llansol

(XXV)
terceiro estado de espírito
             já estou calma; não menos triste;
 tentar dizer o que uma coisa é, é viver;
 eu sou feita de irregularidades definitivas, e avanço por este carreiro até aos confins da cerca, à espera que alguém passe, e me leve. Não me surpreende a presença de Coração do Urso tendo debaixo da pata o maço de folhas atadas das minhas últimas vontades; levanta a garra no ar, e para que eu finalmente me ria, bate com o maço no focinho para que eu me lembre dos sermões de Eckhart esmagando-se sobre a minha cabeça;
eu sei que é um animal vagabundo, susceptível, solitário, tranqüilo; mesmo quando faz bom tempo sai pelo cres- púsculo, sem deixar rasto nas abreviaturas de caminhos;
mas
o meu, em vez de revolver as pedras, apanhar os formigueiros, desenterrar os bolbos, e colher mirtilhos
preocupa-se comigo quando entro numa terceira fase do espírito.
   Eu sou feita de irregularidades definitivas e avanço por este caminho até aos confins da minha vontade, à espera que ele passe e me leve.

(XXVI)
o último estado de espírito
             debaixo da outra pata do Urso que, afinal, é um relevo da chaminé da sala em que trabalho durante o inverno,
há o cubo das palavras da minha língua; demora a rolar numa dança antiga e desenvolta, executada pelo urso, mas quando o ritmo adquire a segurança de deslizar, a primeira impressão que recolho é de que todas as palavras são inéditas, e não estão sós; a companhia das palavras que vêm ter comigo tem lugar no âmago de uma grande independência tal como aquela que eu aceito para a dança do Coração do Urso;
compelida a atravessar o mundo através do meu mundo, e do mundo de Copérnico e de Escarlate (refiro-me ao mundo por definir aqui presente), ora me sinto incluída no parque, ora me sinto excluída da cerca; que absurdos momentos sem confiança porque eu sei bem que Copérnico e Escarlate têm necessidade e amor determinado, pela mulher que os inclui na paisagem;

In: CONTOS DO MAL ERRANTE, Lisboa: edições rolim, 1986, pp. 52-53


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Henriqueta Lisboa

PROCISSÃO
Corpo de Deus!
Bem-vindo 
sejas à terra pelo tempo infindo, 
rochas movendo, corações ferindo,

límpidos sóis e areias
juntando ao mesmo passo nessas veias
pelas quais entre flâmulas passeias.

É a Carne, é o Pão, é o Trigo, 
é a Semente a brotar do solo antigo
para acima das nuvens ter abrigo

no firmamento da alma
que arde do próprio azul, profunda e calma,
sobre os arcos de triunfo e as verdes palmas.

É o Mediador que vem
das paredes de vidro que O retém
para o encontro primevo de Belém.

É o Verbo, o Lume, a Flor, 
o Beijo, o Nardo, o Bálsamo, o Amargor
do que se esquiva ao sangue redentor.

Cante, brilhe, floresça.
Fruto, no seu vergel amadureça, 
mantenha — Cerne — essa floresta espessa.

Pise a pedra que O adora,
beba o olhar que se orvalha à branca aurora,
roce o musgo do peito que O namora.

[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral,  Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 310] 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Jorge Luis Borges

Um sábado
Um homem cego em uma casa oca 
Fatiga certos limitados rumos 
E toca as paredes que se alongam 
E o cristal das portas interiores 
E as lombadas ásperas dos livros 
Proibidos a seu amor e a apagada 
Prataria que foi dos ancestrais 
E as torneiras de água e as molduras 
E umas vagas moedas e a chave.
Está só e não há ninguém no espelho. 
Um ir-e-vir. A mão roça a borda 
Da primeira estante. Sem querer, 
Recostou-se na cama solitária 
E sente que os atos que executa 
Interminavelmente em seu crepúsculo 
Obedecem a um jogo que não entende 
E que dirige um deus indecifrável.
Em voz alta repete e cadenciosa 
Fragmentos dos clássicos e ensaia 
Variações de verbos e de epítetos 
E bem ou mal escreve este poema.

As Causas
Os poentes e as várias gerações.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta 
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho tentando decifrar a treva.
Os amores dos lobos na alvorada.
A palavra. O hexâmetro. O espelho.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que miravam os caldeus.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonha. 
As douradas maçãs de certas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
A tela infinita de Penélope.
Dos estóicos o tempo circular.
A moeda na boca de um morto.
O peso da espada na balança.
Cada gota de água na clepsidra.
As águias, os fastos, as legiões.
César na manhã clara da Farsália.
A sombra que as cruzes deixam na terra. 
O xadrez e a álgebra do persa.
Os rastros de extensas migrações.
A conquista dos reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei pelo machado justiçado.
O pó incalculável que foi exércitos.
A voz do rouxinol na Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida no espelho.
A carta do taful. O ouro ávido.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remordimento e cada lágrima.
Definiram-se todas essas coisas
Para que nossas mãos se encontrassem. 
(História da Noite)

Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, pp. 288-290


domingo, 12 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade

OS ÚLTIMOS DIAS
Que a terra há de comer.
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço;
pare um momento; continue.

Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se:
o de enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de vôo.

Prazer de ouvir música;
sobre papel deixar que a mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
certos objetos, diferentes a uma luz nova.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como vivem, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instante,
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estátua: é um torso
de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens; que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa
                                                                                            [vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor, outra viaja, outra discute, uma última trabalha, sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento,
                                                                                                     [amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize,
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos,
lívido suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de jus-
                                                                       [tiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.

In POESIA E PROSA, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1992, 173-175

sábado, 11 de agosto de 2012

Cassiano Ricardo


METAMORFOSE
Meu avô foi buscar prata
mas a prata virou índio.

Meu avô foi buscar índio
mas o índio virou ouro.

Meu avô foi buscar ouro
mas o ouro virou terra.

Meu avô foi buscar terra
e a terra virou fronteira.

Meu avô, ainda intrigado,
foi modelar a fronteira:

E o Brasil tomou forma de harpa.

In MARTIM CERERÊ, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1983, 16a. ed., p. 127

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Carlos Pintado

UMA TELA DONDE O BOSQUE SE ILUMINA

                              No bosque de Erec e  Enid
                                              Chrétien de Troyes
  
Amanhecer que sempre chegas
e chegando permaneces impassível,
fixado ao tempo em que,  terrível e murmurando,
esconde tuas bestas.
Saber-te tão distante como o sonho
fere como a flecha que lançada
voa, fugaz, ansiosa no sonhado
tecido da tela do entressono
e contudo, ficamos contemplando
os altos pinheiros cuja penumbra
nega a breve luz, aquela que não ilumina
sequer as coisas já iluminadas.
Tudo está suspenso e muito distante
no tecido, no tempo, no instante.

Tradução livre do original espanhol: Alejandro Carvajal e Antonio Damásio Rêgo Filho

José Régio

EPIGRAMA ELEGÍACO
À pobre mãe que em choros o velava,
  «Mãe, quando é dia?» perguntava
 O filhinho doente.
Engolindo o seu pranto, a mãe sorria:
«Dorme..., não tarda aí o dia!»
Até que o inocente
Adormeceu; mas, ai! tão fundo,
Que nada deste mundo
O acordava.

E em vão a mãe, já louca, o sacudia,
E alagava o gelado rostozinho
De lágrimas que enfim não lhe ocultava...
Mãe, mas porquê tal agonia?
Pois não dizias tu ao teu filhinho
Que o dia não tardava?
Não foi o teu filhinho que morreu:
Foi o dia que enfim lhe amanheceu.

[In A Chaga do Lado Sátiras e Epigramas de José Régio, Lisboa: Portugália Editora, 1954, pp. 71-72].
By Paula Rêgo

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Fernando Pessoa


ESTÉTICA DA ABDICAÇÃO
[dat. 1913?]

CONFORMAR-SE é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sem¬pre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vence¬dor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros ho-mens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de joias.

[CONSCIÊNCIA DA MISSÃO]
[ms. 21.11.1914]

HOJE, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Gênio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caráter nato quer que eu seja; e meu Gênio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
O último rasto de influência dos outros no meu caráter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de “lançar o Interseccionismo” — a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-se de lucidez. Nasci.
(O Eu Profundo)

Obras em Prosa, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1993, p. 42

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

João Anzanello Carrascoza


 A ÚLTIMA ESTAÇÃO
No início, fazíamos amor às claras, pelos cantos da casa. Encantavam-nos o sol em nossos corpos suados, a saliva em nossas bocas, o frescor de nossos sexos. Quería­mos ver os músculos rijos, as manobras da ancoragem, o entra e sai alucinante. Ela gritava. Eu grunhia. Jorrávamos palavrões. E, se fosse noite, acendíamos todas as luzes, humilhando o escuro com nossa juventude.
Depois, veio o tempo de nos entregarmos à penumbra, escondidos das crianças. As sombras cúmplices oculta­vam nossos dentes manchados, as rugas que começavam a florescer, os primeiros cabelos brancos. No quarto fe­chado à chave, ela gemia e eu murmurava umas palavras de incentivo.
Chegou, então, a era das trevas. No breu total, esqueci­dos das longas carícias, fechamos agora os olhos e engata­mos silenciosamente, com medo da luz e seu impiedoso esplendor.

In: Amores Mínimos, São Paulo: Record, 2011, p. 125

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Alexandre Magno da Silva

"Em tom solene diante da folha em branco com os cabelos desgrenhados e os lábios finos inconfundíveis, eis o poeta. Num movimento amplo do braço direito, feito um regente, um verso inteiro, límpido, amplo e impenetrável, nascido como a letra pintada de única feita pelo mestre japonês. As mãos abertas diante da folha e a aproximação, a releitura, ele não tem dúvida, é a Musa. Abruptamente dá um tiro no peito dela e recomeça o árduo trabalho do verso. Acampa em volta da fogueira da inspiração, mas tira o brilho, os enfeites, a pompa e a afetação. Outro verso e mais outro. Relê em voz alta, “não, não é isso”. Recomeça, revolve as palavras uma a uma, procura livros, fuma um cigarro e olha pela janela, o tempo da chama é o tempo para a rima e eis que ela surge. “Não, rima, não. Os poetas modernos já não se interessam mais por este tipo de coisa, que o verso seja livre, como o pensamento e o sentimento”. Senta-se novamente, ajeita a cadeira, ergue o braço direito, olha para o teto e pára no ar como um beija-flor. Nada. Dá um murro na folha. “Estúpida”, esbraveja, “porque não te revelas?”. A folha é amassada e jogada à lixeira como o caroço de uma fruta. O poeta pega outra folha, praticamente a agarra, “será ela, será esta, o claro enigma da poesia está nesta folha!”. Olha desconfiado, meio que de lado, abaixa a mão direita sobre ela e sente a sua textura, como que lhe fazendo um carinho. Mas não a compra. Outro caroço, agora como se fosse da alma, é jogado ao lixo. Caminha pelo quarto, releitura de velhos amigos, Horácio, Dante, Pessoa, Drummond: declama, proclama, reclama. Senta-se, novamente, vencido. O poeta não tem nada a dizer. E do modo como fica, sentado como fica, o braço, seco, velho e gasto segurando a cabeça que pende, confusa e aborrecida, as pernas desalinhadas e os pés descalços, ele todo, no conjunto, imagem do poema perfeito, inacreditável na beleza e expressão."

© Alexandre Magno

Escritor catarinense
Blog http://
palavraguda.wordpress.com

Afonso Henriques Neto

PENSANDO MURILO MENDES
último espasmo da lua
e os sumaríssimos suspiros.
trigonometria água lustral anjos cubistas
relógio de fogo.
algo enlouqueceu
nos pássaros do olhar.
o bonde e o violão se espandongam
rangem no sangue
entardecer do tempo.
pensamento a soabrir a pálpebra
para fora da luz
antiuniverso da matéria
sem palavras.
orfeu hidrofeu catastrândula.
entre os mortos
e a congestão nasal
passeia um sacerdote antiquíssimo
e a sábia indiferença
do abismo oval.
tudo enlouqueceu
às vésperas do sonho.
todos os telhados se evaporaram
e a infância.
restou aquele menino magro
mirando a tristeza infinita
dos meteoros sem deus. 


Afonso Henriques de Guimaraens Neto nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 17 de junho de 1944, sendo filho de Hymirene Papi de Guimaraens e do poeta Alphonsus de Guimaraens Filho. Em 1954, mudou-se para o Rio de Janeiro, e seguiu depois para Brasília, onde se formou em Direito na primeira turma da Universidade de Brasília, em 1966. De volta ao Rio de Janeiro em 1972, participou intensamente do movimento político - cultural rotulado de poesia marginal e trabalhou na FUNARTE – Fundação Nacional de Arte – (1976 -1994). Desde 1976, é professor do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Em 1997, defendeu tese de doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Casado com a arquiteta Cêça de Guimaraens, tem dois filhos: Mariana e Francisco.

Alphonsus de Guimaraens Filho



Já me cansei do ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Quero ouvir outra voz, não esta que foi minha.
Quero outro sol, não este que anoitece
meu coração e o crispa e farpa e deita
âncora a cegos, barcos para os mortos.

Oscila minha voz entre o clamor
da vida ensanguentada e perseguida
pelos punhais de fogo do real.

Vou pelas ruas que não vi: não quero
ver nas fábulas mais que nas calçadas.
Quem canta? Já me canso do que cantam.
Já me canso dos cantos dissipados
como grandes hortênsias nos jardins
onde rendeiras cegas bordam harpas.

Já me cansei dos portos invisíveis.
Do silêncio das casas cor de morte,
dos quintais onde háfrutos para bocas
surtas do sulco em brasa da agonia.

Já me cansei o ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Pois se palavra sou, se sou o verbo,
quero me inocentar de quanto fere
meu desalento e solidão, criar-me
à minha própria semelhança, ter
uma certeza ao menos entre instáveis
e vacilantes coisas que me olham
como se alguma culpa lhes pesasse,
como se a minha culpa lhes pesasse.

Quero uma voz que fenda o ser e varra
essa fina poeira incandescente
em que de todo me queimei sonhando,
desconhecendo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Paulo Mendes Campos

PESQUISA

Tempo é espaço interior. Espaço é tempo exterior.
Novalis

A gaivota determinada mergulha na água
Verde. Há um tempo para o peixe
E um tempo para o pássaro 
E dentro e fora do homem
Um tempo eterno de solidão.
Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
Vi espaços claros, bosques, igapós,
O sumidouro de um tempo subterrâneo
(Patético, mesmo às almas menos presentes)
Vi, como se vê de um avião,
Cidades conjugadas pelo sopro do homem,
A estrada amarela, rio barrento e torturado,
Tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.

Senti o hálito do tempo doando melancolia
Aos que envelhecem no escuro das boites,
Vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo,
Com uma tensão de nervos feridos
E corações espedaçados.
Se acordamos, e ainda não é madrugada,
Sentimos o invisível fender o silêncio,
Um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
O tempo goteja Como o sangue.
Os cães discursam nos quintais, e o vento.

Grande cão infeliz,
Investe contra a sombra.

O tempo é audível; também se pode ouvir a eternidade.

In Melhores Poemas - Paulo Mendes Campos, São Paulo: Global Ed., 2000, 3a. ed, pp. 52-53

Madalena de Castro Campos

IMPÉRIO Onde ele dizia descoberta, ela ouvia jugo. Onde ele dizia civilização, ela ouvia barbárie. Pilhagem, extorsão, estupro, escrava...