domingo, 11 de março de 2018

Roberto Juarroz

ENCONTREI O LUGAR JUSTO ONDE SE PÕEM AS MÃOS

Encontrei o lugar justo onde se põem as mãos,
a um só tempo maior e menor do que elas mesmas.

Encontrei o lugar
onde as mãos são tudo o que são
e também algo mais.

Mas lá não encontrei
algo que estava certo de encontrar:
outras mãos esperando pelas minhas.



ASSIM NÃO PODEMOS

Assim como não podemos
sustentar por muito tempo um olhar,
também não podemos sustentar por muito tempo a alegria,
a espiral do amor,
a gratuidade do pensamento,
a terra em suspensão do cântico.

Não podemos nem sequer sustentar por muito tempo
as proporções do silêncio
quando algo o visita.
E menos ainda
quando nada o visita.

O homem não pode sustentar por muito tempo o homem,
nem tampouco o que não é o homem.

E ainda assim pode
suportar o peso inexorável
do que não existe.



UM AMOR PARA ALÉM DO AMOR

Um amor para além do amor,
por cima do rito do vínculo,
para além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.
Um amor que não necessite de regresso,
e nem tampouco de partida.
Um amor não submetido
às labaredas do ir e vir,
do estar acordados ou adormecidos,
do chamar ou do calar.
Um amor para estar juntos
ou para não estar
mas também para todas as posições
intermediárias.
Um amor como abrir os olhos.
E talvez também como fechá-lo



















SOBRE ROBERTO JUARROZ

Fonte: Estadão
Tradutor: Pedro Gonzaga

sábado, 3 de março de 2018

Mário Cesariny


VISTO A ESTA LUZ

Visto a esta luz és um porto de mar
com reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te uma ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre como não querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade

[In Poemas de Londres]


 

Eugénio de Andrade

DO OUTRO LADO Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrej...