terça-feira, 30 de junho de 2015

Laura Riding

POR CAUSA DAS ROUPAS
Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.

A cabeça é um mundo
E o corpo um outro —
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.

Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum. Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.

A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos.

[In Mindscapes Poemas, Seleção, tradução e Introdução Rodrigo Garcia Lopes, Iluminuras, São Paulo, 2004, pp. 117-119]


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Diogo Cardoso

*
Amei o porco guardado nos olhos da mulher. Era janeiro e a nascente de tudo era fora das chuvas. Amei o porco e ele amava a traça no homem em mim. Vivíamos de desespero e água, e o esquecimento nos nutria a fome. Era janeiro e como não haveria de ser se o sol queimava as águas guardadas no verão? Era um rosto num olhar e ao novo já era outro o mesmo rosto. E eu era traça, pulga, rainúnculos e fibras. E ainda assim, água, amei o porco nos olhos da mulher guardado.

* *
Por duas vezes gritei e o que saia de minha boca eram raízes extremas. Duas vezes, não mais que duas. Da primeira, sete aves visitaram-me os lábios e com a certeza de quem assassina, comi-as todas. Farto, sentei as raízes em minha desolação. Não podia mais ser grito, não podia – queria apenas o silêncio perpétuo dos ânus venais. Isso foi há muito tempo, quando ainda os deuses nasciam com os pés atados à terra e as árvores eram tecidas de carnes mortas infantis. Da segunda, padeço ainda hoje das raízes saídas do sexo e do sonho impossível dos voos de pássaros dos quais sinto toda a fome.

* * *
Os caranguejos sangraram a perna do homem que sem esperanças adiava a fome. Tudo era um só lodaçal vermelho com cheiro de morte e frutos do mar. Os filhos choravam o tempero da lama, e os olhos umidamente amolecidos do pai pediam perdão. Era uma tarde de horizonte rubro e gralhas estridentes animavam o céu. Enquanto o homem padecia nas profundezas do lodo, sob a crueldade móvel de exoesqueletos, as crianças, obedientes, viravam as costas e de cabeças humildemente baixas tomavam o rumo de volta ao exílio.

* * * *
Ele comia sabugos mortos na estrada. Em sua imundice, ele mastigava aquela matéria seca e árida de areia e saliva. Um coelho, puro e limpo em sua brancura, prostra-se indiferente ao lado daquela podridão humana. O homem, diante da bola branca pulsante, tomado por uma compaixão quase satânica, oferece-lhe um de seus sabugos. O bicho indiferente distancia-se num salto, sutil pluma de galinha que reza. O homem sente-se ultrajado, diminuído à última unha que lhe resta nos dedos, a cada sabugo morto caído sobre a terra. Num rompante, certo de sua miséria, exato em sua redenção, o homem consome a pureza no coelho com uma mordida certeira que lhe parte cabeça e corpo.

Um peixe nada em todo o esquecimento. De que lodo é matéria a memória?

Diogo Cardoso é bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Participou de diversos projetos literários, dentre eles o sarau Faça pArte, em parceria com o departamento de cultura da prefeitura de São Bernardo do Campo, Leitores itinerantes, sob curadoria de Tarso de Melo, e foi um dos curadores do projeto Clarice Lispector.

Fonte: Portal Vermelho




domingo, 28 de junho de 2015

Guilherme Antunes

PRECARIEDADE
entre as tristezas, pousam-me as fragilidades:
ciência da precariedade de todas as coisas.

impermanência e despedidas como inevitáveis temas
do lado oposto do sentir.

reunindo pecados afastei-me do sol para ver melhor
tudo quanto me põe a viver parece cansaço

e por ser-me o destino um assombro
e sorrir-me sempre o passado,
te aguardo para sempre na memória das ruínas.

COLO
Pudesse eu dar colo ao mundo todo,
para egoísta esquecer-me a dor inteira,
e das tantas metades muitas
que ainda muito me lembram tanto
a voz do teu amor
preguiçoso,
no meu céu
das manhãs
de quase
junho.

RITUAL
estava espalhada pelos dias toda a tua falta,
arrastando nos pés o peso da tua ausência.
a saudade me era uma oferenda das manhãs e de todas elas

percebi: a tristeza era um ritual

COSTUREIRO
poeta é costureiro:
confecciona amores para os olhos
desaperta a vida nas palavras

do texto ao têxtil
da palavra ao fio

costura para fora, encantamentos
(não trabalha sob encomenda)

traz o poema aos dedos
e ainda que por vezes se alfinete
garante seu ofício

pois sabe que a poesia jamais estará
fora de moda.

MULHER
Mulher, se queres me amar peço: ama com força, com os dentes, ama com as unhas, com os olhos, o quadril, as tempestades, ama com tuas vísceras, tua ira, ama como se viesses a criar os deuses todos. Ama com a intensidade das marés sob a lua cheia. Ama a aliviar-me da minha própria e finita condição; a dar-me vida e aniquilar-me ininterruptamente. Ama para afastar o ar ou matéria qualquer que nos afaste a boca. E bebe de mim, come de mim, sorva saliva como alma a diluir na tua. Ama para escrever-nos o futuro e apagar-nos o passado. Ama como uma neurose, como doença, e como a cura. Ama como tua maior ambição e o teu mais nobre desapego. Ama como a dor jubilosa do orgasmo, e cale o tempo entre as tuas pernas, cale a dúvida entre os teus gemidos. Lambe-me o queixo e a paz que estendemos entre os lençóis. Ama para interrupção suave do tempo, para o cessar brusco do mundo. Apertar o peito, dilatar pupilas, derramar o sonho, incendiar a lágrima, o sangue, vencer a morte.

Deita-me na cama dos absurdos, e brinda-nos o amor.

DESTITUÍDO
o homem bebia.

o homem bebia para esquecê-la tanto quanto para lembrá-la.
o álcool como a tirar-lhe a lembrança para devolvê-la depois. ou o contrário disso.
o álcool para desinfetá-lo das fundas dores e lustrar o seu recente amor antigo.

o homem bebia para ficar mais longe do ontem.
aos goles, acentuava as inexatidões.

com as palavras de bêbado, falava para se ouvir.
enchendo a garrafa de flores a fazer-lhe um jardim para o descanso.

"quando melhorar, quero ser longe" - dizia.

era o homem como todos nós: tolo.
apenas destituído de sua lucidez.

CORRENTES
Estar é um improviso e ser é permanência, mas uma permanência descuidada por nós. Somos uma fragilidade desatenta às marés que nos atingem incessantemente. Não sabemos se as correntes nos levarão à terra firme ou nos afogarão de vez. Por isso desejamos as sempre mesmas e já conhecidas correntes. Acostumados com suas direções, sabemos pelo hábito para onde nos levarão. E então fazemos do imenso oceano, nossa particular e limitada lagoa, a navegarmos em círculos como se fosse tudo, como se fosse o bastante. E assim tememos as demais pois não sabemos o que será de nós para além das paisagens que não conhecemos. O medo nos desenraíza ao mesmo tempo em que nos prende no mesmo lugar. O não-saber nos apavora e nos desequilibra. Mas quem sabe se permitirmos que a ondulação do ir e vir das coisas mesmas não nos leve àquele lugar, real, e inédito onde possamos aportar e encontrar descanso, mas que por ora só alcançamos no espelho da poesia?

INFERNO
Eu irei para o inferno. Com passagem só de ida e sem chances de cancelamento. Eu irei para o inferno e chegarei com honrarias de um chefe de Estado, com o prestígio de um líder religioso, como o ganhador de um prêmio Nobel. Receberei as mais calorosas boas vindas, camarote com porcelana chinesa e mil toalhas brancas. Serei finalmente um sucesso, celebrado pela minha incoerência, festejado pela competência em ser emocionalmente incompetente. Serei aplaudido de pé pelos meus desperdícios: de tempo, do outro, de mim. Serei abraçado por todos os amores que por capricho joguei fora. Autógrafos por todas as chances que por orgulho descartei. Serei aclamado por acreditar nos deuses mais pagãos - como o sofrimento - e dar minha vida toda a ele em sacrifício. Serei notícia pela minha cegueira existencial, manchete pela exímia habilidade em transformar frustrações em raiva e destruição. Ganharei medalhas por me arrepender muito mais vezes do que ter feito melhor. Creio até que ganharia a chave da cidade se lá fosse uma. Serei palestrante a contar como coleciono todas as contradições do mundo e exijo coerência de todos que me cercam. Serei convidado à jantar para explicar como nego meus erros e transformo responsabilidade em culpa para jogar nos outros. Ganharei prêmios pelo vitimismo e troféus por escolher as palavras certas para dizer coisas erradas. Darei aulas por andar em círculos e deixar o que me serve escapar por um triz; por convenientemente acreditar que a vida é injusta e o mundo me é um eterno devedor, podendo com meu ressentimento cobrar a todos das maneiras mais infantis. E antes da minha primeira entrevista coletiva, chorarei nos bastidores. Por não ter roupa que usar, pois ir para o inferno é ficar nu. Diante de si mesmo. E não saber lidar com a vergonha que nos despiu e nos contou que costumamos nos colocar sozinhos no inferno para não sermos mandados para lá.

BLOG DE GUILHERME ANTUNES

BY PISITH SONG

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Dušan Matić

DIANTE DA TEMPESTADE

Que seja a noite novamente assim como desejais
Eu nada sei mais
Nada compreendo mais
À noite pegajosa e agroamarga só se aconchega
A noite e a noite e a noite.

Em vez do ouro e do mal e do bem e da parede de desespero
Que não tem mais fim e onde com a cabeça bato a cada instante
Um encantamento sem forma um entendimento sem grito
Pela longa noite que se aproxima
Um olhar e uma visão risível e turvieterna

Além do sangue que corre entre todas as dores e todas as dores
Não há altura que possa medir-lhes a profundidade.

Esquece tuas lembranças esquece teu esquecimento
Como o viajante esquece distraído o lenço na estação desconhecida
a ponte chagosa das chagas do mundo estende-se por sobre esses
[precipícios

Por sobre esse horror e barro
Em que se despedaça o hábito de luz em lágrimas irresgatáveis

Eis aí na clareira deste tremor sem fundo que eu vele e durma
Quebradiço e tristonho e só
Em nada me auxilia a audácia.

Dušan Matić - Poeta sérvio, nasceu em 1898, em Tchúpria e morreu em Belgrado, em 1979.

[In Poesia Iugoslava Contemporânea, prefácio, tradução e notas de Aleksander Jovanovic, São Paulo: Meca, 1987, p. 35]


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Cláudio Castoriadis

OLSEN
sem pressa, resenhou planuras de alcantilas
quase como se quisesse ser indecidível
na qualidade de respingo ao contrário
disposto em séculos

é o que estás a ver
as devas estão surdas
e, no seu estômago, estiletes engatilham
dispostos em forma de decotes redobrados

***
CITY AND COLOUR
congregávamos numa constelação enigmática
enquanto eu contava os trocados
você fazia diagnósticos sobre meu humor
fazia uso da verticalidade ao seu dispor
sempre pelos astros inabitáveis
desses, de um extremo ao outro - descontrolados
tínhamos mantimentos, cobertores, comida, abrigo
tínhamos cabelos tumultuados
parafusos cambiantes
tínhamos a gente

eu carregava crônicas na mochila
carregava o clima dallas green
aquele do city and colour...

***
AERIALS
e, cantava uma infinidade de corinas
dessas que não conseguimos
em definitivo
a priori
sabe como é
diferente daquelas que constituem
a natureza por necessidade lancinante
percorrendo onde restava percorrer
de costas com sua camisa xadrez
interpolando hipsters flanelados

e o que sobrou
ficou c/ os standards
esquemas semânticos, lânguidos, palhetas
cães de aluguel e engenheiros diacrônicos

***
MESMO DORMINDO NUMA FRASE DE EFEITO
no momento mais tranquilo da noite
coisas impossíveis escalam ruídos
florestas, obreiros, gencianas
afloram no desfiladeiro
antúrios fecham as paredes
recompõem a eternidade
com sua modesta
moldura
a noite é feita
de melodias articuladas
vc falava disso tudo
debruçada numa frase de efeito

lembra?
você explicava
que o som mais próximo
poderia ser o mais inaudível
rodopiando sobre o próprio single

(risos)

eu esperava seu sono
virar prosa
narrativa
não
poesia

por isso lembro
de como você adorava os sons emoldurados
dos acordes despertos nas molduras tricotadas
de quando em sempre você acompanhava o realejo do tio lauro
você tinha razão, os sons não são sucessivos, são simultâneos

Blog do Autor

By Çizi-Yorm


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sebastião da Gama

HORA VERMELHA

Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.

Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).

E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.

SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA

By Russ Potak

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Danilo Kiš

LIXO

Restos humanos e de animais: unhas, cabelos
Cabelos femininos que crepitaram sob o contato elétrico do
pente,
Micas de calos cortados com gilete
Escuras pústulas de feridas
Pelos de pernas narizes orelhas
Musgo perfumado de axilas femininas
Crânios de peixe
Leques abertos de caudas
Pentes de corte duplo das espinhas de peixe
Cabeças de galinha escalpeladas
Penas negras úmidas
Pés de galinha de escamas em cera
Ossos de animais de tutano sugado
Enodoadas entranhas verdes de ave
Tubos de ossos de peixes — mostruários de agulhas
Balões duplos de bexigas de peixe
Mordidas em maçã
Caroços de ameixas pêssegos melancias
Caroços de cerejas como vitamina
Carbono amarrotado com números
Fruto podre que vermes roem feito carne humana
Piteiras roídas de cerejeira de plástico de âmbar
Piteiras de dedos amarelecidos
Giletes azuis envelopes azuis de giletes passagens de bonde
etiquetas
Renda de papel de fitas de teleimpressoras
Restos de renda engomada
Cartuchos dourados vazios de carmim — cartuchos de
espingarda
Cascas de ovos que geraram monstros bicudos sem asa sem
cauda 
Tampas de garrafa de cerveja
Cacos de vasos quebrados
Esteira, palha apodrecida,
Bandeira negra de guarda-chuva
Esqueleto de pássaro de guarda-sol
Guardanapos com a estampa da máscara mortuária dos lábios
Sacos de papel vazios que conservam dentro de suas rugas
grãos de cristal feito concha envolta em carne mole
Cenoura cortada com anéis verdes no centro e cada vez mais
avermelhados
Favas de ervilha — lábios cortados
Lâmpadas queimadas — ovos de ave-no-cio, fios
Cartões de sócio com os dez mandamentos em que ninguém mais
crê
Punhos amarelados
Gravatas de seda — caules arrancados de flores aquáticas
Tubos de pasta de dente espremidos
Rolhas
Fotografias batidas ao luar
Cravos que apodrecem terrivelmente
Tulipas narcisos gladíolos
Lírios que conferem ao monturo de lixo a solene aparência de
cemitério
Pregos fechos de roupas grampos agulhas parafusos grampos de
cabelo
Rolos ruivos de fio de cobre
Canetas esferográficas vazias
Teias de aranha meia de náilon
Luva sem par
Cadarços chapas de fogão pequenos discos
Velhos sapatos que aos poucos enverdecem feito relva
Desenhos infantis sóis e céus em que a chuva deixa sua
assinatura transformando-os em obras-primas
Capas berrantes de livro — útero sangrento das musas da
poesia
Grampos de cabelo abertos como bicos de papagaio
Rolos de papel-crepom molhados
Fios enferrujados
Restos rendados de lápis apontados
Cascas de noz — crânios de pássaro partidos
polpas podres de noz similares a cérebros humanos
tubos de palha e suas
meias arrancadas de papel para cigarro
Escovas de dente em que restaram apenas raízes em gengivas
de vidro
Caixas de lata de cartolina
Tubos de ensaio de vidro onde havia aspirinas — ervilhas
maduras
Garrafas de leite cerveja coca-cola
Garrafas de gargalo minúsculo — sanguessugas
Garrafas-cromorno garrafas-flauta garrafas-ocarina
Garrafas desventradas como peixes
Garrafas com estrias verdes
Garrafas que rescendem a bagaço e vômito
garrafas com maçã no focinho — leitões mortos
garrafas com gargalo entintado — boca de moleque de escola
Cascas de laranja — pele de mulher entre as omoplatas
Casca de pão azedado em água suja como na boca desdentada de
anciães
Metades espremidas de limões
Molas-espirais de cascas de maçã
Cascas de melancia — carne de cavalo atacada por grandes
moscas negras
Cascas de banana — membro masculino esfolado
Cascas de batata cortadas simplesmente sem economia como
se corta o pão
Rolos marrom de poeira
Cinzas de cigarro
Pontas de cigarros amassadas — grandes vermes brancos nascidos do lixo
Preservativos em cujo interior viscoso homúnculos apodrecem
Porcelana ondulada de pratos quebrados
Jornais amarrotados que atrasam até um mês e meio
Plástico, vidro inquebrável
Rolos de algodão com sangue e pus coalhados
Botões de chifre de lata de madrepérola
pedaços de gaze — como se tivessem sido arrancadas da moldura
tampões em que floresce a flor da feminilidade
faixas de gaze com pelos dourados de raízes brancas
Poesias (também esta)
Envelopes de ventre roxo arrancado
Selos rubros amarelos azuis verdes
Selos sobre os quais estadistas poetas e conquistadores do
espaço estufam o peito
Selos aprisionados pelo contato da língua assim como os
amantes são aprisionados
Selos que enlouquecem os filatelistas dispostos a embalsamá-
los
Selos carimbados feito reses
Selos debruados de renda
Selos em que flores florescem e leões rugem
Selos com carimbos de cidades
Selos com datas como nas caixas de leite pasteurizado para
que o lixo sempre esteja mais fresco
Cartas escritas nos trens sobre os joelhos
Cartas escritas em grandes máquinas de escrever com dedos flexíveis dedos
de datilógrafas dedos de onde escorreu
manteiga

Cartas escritas com mãos infantis
Cartas escritas com mãos trêmulas de ancião
cartões-postais escritos com esferográfica em terraços de
bistrôs
Cartas com a logomarca de hotéis famosos
Cartas de amor que a chuva transforma em tragédia 
Cadernos de estudante que precisam ser guardados para a
velhice

cartões fúnebres a respeito dos quais nada se pode dizer
salada verde repolho verdura sempreverde
pimenta-do-reino aneto cravo couve-flor
Mordidas de maçã (de novo)
Cachos de lilás desmantelados como os pulmões arrancados de
um fumante
trapos elásticos colarinhos
panos impermeáveis lenços de musselina seda
Rosas
Rosas que ficam bem tanto no lixo quanto no poema
rosas que começam a feder como gente
rosas em que pousam moscas
rosas embrulhadas pelas mãos úmidas da vendedora em finos
papéis farfalhantes
rosas guardadas como peixes dourados em vasos de cristal
rosas cuja água foi trocada feito compressa sobre a testa do
enfermo
rosas amarrados com fios feito criminosos
rosas com as articulações dos ungulados
rosas com folhas similares às rosas artificiais
rosas que me fizeram acordar às 3,30 da madrugada para que
não as esquecesse até amanhã

Budapeste, 1966

[In Céu Vazio: 63 Poetas Eslavos, organização, estudo introdutório, notas biográficas e tradução Aleksandar Jovanović, São Paulo, Hucitec, 1996]



domingo, 21 de junho de 2015

Rainer Maria Rilke

Não creias, artista, que seja o trabalho o que te põe à prova. Não és o que pretendes ser nem és a pessoa por quem este ou aquele te toma, por estar mal informado, enquanto ela não se tornar natureza para ti, de modo que não possas fazer outra coisa senão conservar-te nela. Trabalhando assim, és a lança arremessada com maestria. Leis recebem-te das mãos da lançadora e precipitam-se contigo no alvo. O que seria mais seguro que o teu voo?

Consista a tua prova, porém, no fato de que nem sempre és arremessado. No fato de que a arremessadora Solidão há muito não te escolhe; olvida-se de ti. Este é o tempo das tentações, quando te sentes inutilizado, incapaz (Como se o manter-se preparado não constituísse ocupação bastante!). Então, quando estás deitado de uma maneira que não é tão pesada, as distrações exercitam-se em ti e procuram descobrir alguma outra coisa a que te possas dedicar. Como

se te tomasses a vara de um cego, uma dentre as barras de uma grade ou o bastão do equilibrista. Ou, ainda, elas se erguem e plantam-te no solo do destino, de modo que te aconteça o milagre das estações e faças brotar pequenas folhas verdes de felicidade...

                      Então, oh, férreo ser: deita-te pesadamente.
                      Sê uma lança. Sê uma lança. Sê uma lança!

(In Rainer M. Rilke, O testamento, tradução Tércio Redondo, São Paulo, Globo, 2009)


sábado, 20 de junho de 2015

D. H. Lawrence

VI

Ser ou não ser ainda é a questão.
Esse desejo ansioso de ser é a fome fundamental.
E para mim mesmo eu posso dizer “quase, quase, oh, por pouco”.
Mesmo assim alguma coisa perdura.
Alguma coisa não perdurará sempre.
Pois o essencial já é completude.

O que perdura em mim é para ser conhecido enquanto conheço.
Eu a conheço agora: ou talvez conheça minha própria limitação
em relação a ela.
Mergulhando como fiz, sobre, sobre a beira do abismo
caí finalmente de ponta-cabeça dentro do nada, mergulhando na
completa e áspera extinção;
cheguei, como se diz, ao não saber,
morri, como se diz; cessei de conhecer; superei-me.
O que posso dizer mais, exceto que eu sei o que é superar-me?
E um tipo de morte que não é morte.
E ir um pouco além dos limites.
Como se pode falar, quando há um silêncio na nossa boca?

Suponho que ela, finalmente, está completamente além de mim,
Ela é completamente não-eu, essencialmente.
É a isto que chegamos.
Uma curiosa agonia, e um alívio, quando toco aquilo que não sou eu
em qualquer sentido,
fere-me de morte com o meu próprio não-ser; limitação definitiva,
inviolável,
e alguma coisa além, muito além, se você compreende o que
significa isso.
E a parte maior do ser, este superar a si mesmo,
este ter tocado a margem do além, e sucumbir, e mesmo assim
não ter sucumbido.

[In William Blake & D. H. Laurence, Tudo que vive é sagrado, seleção, tradução e ensaios Mário Alves Coutinho, 2a. ed. , Crisálida, Belo Horizonte, 2010]

BY Brian Anstee


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Geir Campos

ACALANTO

Exaustos de fotografar a vida
em seus sessenta aspectos por minuto,
adormecem os olhos no aconchego
de crepúsculo antigo e sempre novo:
as imagens do dia, prisioneiras
entre as dobras das pálpebras, discutem
argumentos possíveis para um sonho.

(In Rosa dos rumos, 1950)

CANTAR DE AMIGO

O claro pão
que repartimos
dá-nos um título:
companheiros.

A indagação
que aprofundamos
faz de nós, artesãos,
camaradas.

O olhar sem visgo,
a voz precisa,
o gesto mundo,
eis-nos: amigos.

Quantos, que marcham pela vida
como quem carrega uma estrada,
terão amigo, companheiro e camarada?

(In Canto Provisório, 1960)

SOBRE GEIR CAMPOS

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Tadeusz Różewicz

QUEM É O POETA

Poeta é aquele que escreve poemas
e aquele que não escreve poemas

poeta é aquele que arrebenta grilhões
e aquele que coloca grilhões em si próprio

poeta é aquele que crê
e aquele que não consegue crer

poeta é aquele que mentiu
e aquele que foi iludido

poeta é aquele que comeu da mão
e aquele que decepou as mãos

poeta é aquele que parte
é aquele que não consegue partir 

O RETORNO DO POETA

Adormeci
como um jovem

caia a neve na noite

acordei como
um velho poeta

entre nós
havia um prado verde
coberto de cinzas

sonhei estar escrevendo poemas

nos jardins aparados da poesia
novamente apareceram anões
rosas e linguistas

Majero su nariz...
y su vida
ri-me despreocupado
ela consertou o nariz...
e a sua vida

Sonhei que lia poesias
no México
que Janek Zich
com um colibri sobre a cabeça
fala espanhol

Vi
o dourado Tepotzotlán
refletiu-se nos espelhos 
dia e noite
caía gota a gota
no oceano no céu

Voei sobre o Atlântico
numa mala de coletânea de poesias
Face
creme de barbear giletes
salame papel higiênico
algodão óleo café envelopes
meias malhas cigarros
anel de prata
deus chuvas sabão
fósforos do hotel El Presidente
endereços você tem asas
pule
acordado
lia anônimos
esqueci-me
o que é a poesia
outros poetas escreviam
os meus poemas

[In Céu Vazio: 63 Poetas Eslavos, organização, estudo introdutório, notas biográficas e tradução Aleksandar Jovanović, São Paulo, Hucitec, 1996]




quarta-feira, 17 de junho de 2015

Laura Riding

ENCARNAÇÕES
Não renegue,
Não renegue, coisa vinda de coisa,
Não renegue nessa vaidade nova
O velho pó original.

De que cova, de que passado de carne e osso
Sonhando, sonhando jazo
Debaixo da maldição auspiciosa,
Enfeitiçada, viva, esquecendo minha matéria-prima...
A morte não me permite um instante para lembrar

Temendo que, tal pedra de estátua transmutada demais,
Grão por grão eu recorde o pó original
E, olhando para baixo num degrau da memória, repita:
Eu nunca fui isso.

ORGULHO DA CABEÇA
Fosse encaixada em outra parte e não assim,
Girando em seu soquete privado e preciso
Como sol encaixado numa junta da montanha...
Mas, aqui, inclinando e soprando em meu pescoço,
Sem precedente na natura
Nem nas belezas da arquitetura,
Esvoaçando meu cabelo como um campo de milho,
Semeada ao acaso num canto esquecido da colina,
Minha cabeça está no topo de mim
Onde vivo mais e a maior parte do tempo,
Onde minha face lança um olhar introspectivo
Para o que está fora de mim,
E encara o desafio de outras coisas
Com desdém, por ser o que é.

Deste lugar de honra, gema
Do continente maior e preguiçoso bem abaixo,
Eu, ídola da cabeça,
Uma autocrata sentada, cruzando minhas intenções,
Olho e me preocupo com o resto com bondade,
Despacho os riachos de sentido para baixo
Para que explorem a selvagem terra semidesperta,
Tremendo continente desta ilha mínima,
E a civilizem o melhor que possam.

[In Mindscapes Poemas, Seleção, tradução e Introdução Rodrigo Garcia Lopes, Iluminuras, São Paulo, 2004]

MATISSE

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Edmond Jabès

CANÇÃO DO ESTRANGEIRO

Estou à procura
de um homem que não conheço,
que nunca foi tão eu mesmo
quanto desde que o procuro.
Teria ele meus olhos, minhas mãos
e todos esses pensamentos semelhantes
aos destroços deste tempo?
Estação de mil naufrágios,
o mar deixa de ser mar,
convertido em água gelada dos túmulos.
Mais longe, porém, quem sabe mais longe?
Uma menina canta a contragosto
e, à noite, reina sobre as árvores,
pastora em meio a carneiros.
Arranquem a sede do grão de sal
que nenhuma bebida poderá aplacar.
Com as pedras, um mundo se consome
por ser, como eu, de parte alguma.

(Tradução de Caio Meira)

terça-feira, 9 de junho de 2015

Maria do Sameiro Barroso

LUA DE FOGO

Quisera adivinhar-te num cálice branco
de açucenas,
percorrer-te entre as ondas, beber, em ti,
a maresia, a lua de logo,
a rosa inarticulada de um fonema.

Depois, amar-te, entre o rosmaninho,
o feno, a alfazema,
no paraíso dos teus braços fluir,
no teu remanso ébrio,
nascer dos relâmpagos de seda,
na lâmpada nocturna,
nas uvas do teu corpo, florir,
e colher, na chama, no secreto lume,
o fruto, a estrela,

a seiva doce do poema.

[In AREIA DO TEU NOME POESIA AMOROSA, Lisboa, 2013, p. 49]

paul klee

sábado, 6 de junho de 2015

Maria do Sameiro Barroso

14.
Nada esqueço, nem o que fui,
nem o que sou.
Falta ainda uma rosa de luz,
quer seja concha, mimosa ou papoila,
boca, beijo ou coral.
Falta ainda uma canção para irradiar
a sombra.
Imensa é a escuridão dos frutos.


E o teu rosto que tomba, radioso,
no caudal azul das minhas mãos.

15.
Há uma noite para nomear a alegria,
uma voz a conjugar a lua
e os seus símbolos obscuros,
entre cimbales que me embriagam,
taças de ambrosia e veneno.
Há uma noite para reunir o canto
e trepar às raízes roxas do vazio,
nos estiletes que a noite tange
entre os violinos e a seda,
escrevendo as linhas de enxofre,
na cinza ampla


dos laranjais perdidos.

16.
Não duvidemos das rosas efémeras,
nem da primitiva luz.
Os mendigos dormem na aurora.
Não duvidemos da lembrança enferma,
da travessia inútil, da magia suprema
das palavras fidelíssimas
Não duvidemos da morte
essa toupeira incessante,
nem da vida,
chama em movimento.
chaga aberta.
Nos rios de sombra,
ateio a minha luz,


canção dos despojos. 

17.
Viajo nos paraísos que invento.
Nas anémonas negras, leio o sonho,
o cristal.
Deito-me entre sílabas
longas e breves,
pronuncio a chave, a palavra,
o incenso.
Procuro o significado dos frutos,
a lava, a cinza, a completa memória.
Numa aurora encarnada,
os genes da sombra frutificam


em opalas iridiscentes.

[In O CORPO LUGAR DE EXÍLIO, Lisboa, 2013, pp. 14-17]






sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mariana Ianelli

ESSENCIAL

O branco há de me cobrir.
Nenhuma ótima filosofia,
nenhuma música para essa vez.
Os bárbaros conversam comigo do poço,
os mais hábeis, os mais inertes.
Minha confidência se abre para eles:
é a demolição do minuto pontual,
da cadeia insustentável de regras,
dos meus calçados infalíveis
que respeitaram sempre um certo simulacro.
Bárbaros por uma ausência profana
de ideais e arrependimentos:
o exemplo da rendição inocente.
Deveres à parte,
costumes exauridos e desígnios à parte,
o branco há de deitar sobre mim.

[In  Duas Chagas, São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 53]

By Amelia von Buren

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Alfonsina Storni

DOR 
Eu quisera nesta divina tarde de outubro
passear pela orla distante do mar.

Que a  areia dourada,  e as águas verdes,
E o puro céu me vissem passar.

Ser alta, soberba, perfeita, eu quisera
Como uma romana, para combinar

Com as grandes ondas, e as rochas mortas
E as extensas praias que circundam o mar.

Com passo lento, e  olhos frios
E a boca muda, deixar-me levar;

Ver como se quebram as ondas azuis
Contra os granitos e não piscar,

Ver como aves de rapina comem
Pequenos peixes e não acordar;

Pensar que as frágeis embarcações
Afundassem na água sem  suspirar;

Ver que se adianta a garganta do  ar,
O homem mais belo não querer amar;

Perder o olhar distraidamente,
Perdê-lo, para nunca mais o encontrar.

E, ereta figura, entre o céu e a praia,
Sentir o esquecimento perene do mar.

SOBRE ALFONSINA STORNI


terça-feira, 2 de junho de 2015

Dora Ferreira da Silva

DEPOIS
Sim, era o tempo. Depois — inútil consultares o relógio —
o tempo não era.Tudo pleno e íntegro: obedecíamos a um
[milagre
mais simples que as coisas usuais. A labareda encontrou o
[seu fiel
cessando de crepitar. As emoções se extinguiram
na lareira que não fora acesa em noite de verão.
O calor das coisas a si mesmo se bastara a ponto
de adormecer. E a orquestra ali estava suspensa depois do
acorde final, os músicos ausentes
algumas folhas caídas no chão de madeira morta.
O perdão da seiva antiga recendia a música de violinos
e flautas. Persistente floresta de sons, a música!
Os acordes da alma ainda ecoavam — do insípido à
[exaltação.
Persistente floresta, a alma. E tu misericórdia
há onde caibas? Exorbitas instrumentos partituras:
música pura. Silêncio que nos acolhe
e disso faz um ramo de primavera.

APAGADAS AS LUZES
Ônibus de luzes apagadas
de Volta Redonda a Barra do Pirai.
O motorista sorriu
o tempo de um adeus
e o ônibus seguiu —
barco sacolejante de operários.
Faróis de automóveis (em sentido contrário)
acendiam-lhes os olhos. Muito o sono
e a noite cresceu. Evolavam-se
os corpos de suor e incenso.
No altar do silêncio brilhava
a hóstia da comunhão.

Segui a via que liga Volta Redonda
a Barra do Pirai
com a legião cansada
dos anjos daquele dia.

ALÉM
Não me explicas
não te explico
o milagre do contato
que é de alma e é carnal
que é do espírito abissal
tudo somando o igual.
Sinto o frêmito do vento
nas plantas do beiral
desta casa provisória.
Não há linhas divisórias
que nos digam quem é qual
por tão próximos — não há espaço
para o abraço
para o ai!
Andando em duas direções
transpusemos nossa essência
um é o outro
e o círculo no entanto
determina eterno encontro.
Sem assombro dou-te um beijo
o realejo da infância
é o fundo musical.
Valha-nos Deus!
Vamos chorar? Vamos sorrir?
O agora é o por vir
que empurra e enterra o antes
para nova floração.
Só não passa nem transita esse
doido coração
não é meu
não é teu
está nu de possessivos
a imperecível carnação.
Sorrimos o mesmo sorriso
diante das megapalavras
somente cativos do Nada.
E eternamente calamos.

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, pp. 354-355]

Randall David Tipton


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Affonso Romano de Sant´Anna

SUPLÍCIO CORPORAL
Magoamos
pelo menos 3 vezes ao dia
nosso corpo
obrigando-o a comidas repulsivas.

De noite ele se vinga
sonhando (ou faxinando)
o lixo imaginário
que nele acumulamos.

Magoamos o corpo
a vida inteira
não lhe ofertando o sexo
que urge
como urge
onde urge
quando urge.

Em compensação
o cobrimos de joias perfumes, cremes e roupas
nem sempre convenientes.

Ele suporta.
O levamos a festas, esportes, celebrações exaustivas.
Ele emite sinais de desconforto.
Mas prosseguimos inclementes
chicoteando a alimária que somos. 

REMORSO
Irônico, eu digo:
“Bem que eu gostaria
que bife desse em árvore.”
Mas árvores também sangram
e não me deixariam dormir
rasgando com gemidos
minha insone madrugada.

Ainda agora descubro uma pequena mariposa
na água que restou do banho.
Estou limpo
e ela
           morta.

Com a indiferença de paquiderme
                                                       pisamos
formigas e índios, operários e mulheres
e, desatentos,
não recolhemos seus restos sequer
como troféu.

[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, pp. 104-105]

Zaira Dzhaubaeva



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...