segunda-feira, 28 de maio de 2012

Guerá Fernandes

OS RATOS NÃO ESCONDEM SEU OLHAR

Acordou e estava sozinho. Abriu a janela. A cidade também abandonada. O lixo maior, invadindo as ruas. Não gostava de viver do lixo. Era pior se sentir parte dele. No espelho parou pela primeira vez. Estático. Onde estavam as palavras? Pouca coisa ele havia dito como se ainda rastejasse. Nada ouviu de fato. Ele não conhecia o mundo por mais terrível que ele fosse. Ele diria pra si mesmo. Desafiou-se e começou a experimentá-las.
– Medalha! Medalha…
Não era uma palavra assim tão bonita. Nunca tinha visto uma medalha. Nem um general. Conteve-se. Queria novas palavras. Refletida no espelho uma barata olhava em sua direção. Adivinhou os olhos dela. Atentamente. Ameaçada ela fugiu. Ele nem se mexeu.
– Uma barata nua voou desaparecendo…
Ele se perdeu. Não sabia como prosseguir. Não tinha tantas palavras para sair emendando umas nas outras. Ademais não gostava de baratas. A mãe orientava sobre a importância das baratas. As mais fortes. As últimas. Sobrevivendo a todos. Multiplicando-se nos caos. Elas sim veriam a queda dos edifícios suspensos. E mesmo depois elas estariam ali como se não tivessem fim. O fim é banquete dos urubus, aprendeu com o irmão.
– Urubu!
Disse com força. A própria palavra subia para as alturas. Aprendeu também a admirá-los entre os catadores. Alimentando-se dos catadores quando ao lixo se entregavam sem vida. Os urubus desafiam até mesmo o sol. E todos temiam o sol. Aproximando-se gigantescamente sobre o que sobrou da Terra. O urubu realmente tornava o céu mais bonito. O sol embora pulasse sempre de um lado para outro dava a impressão de estar sempre naquele mesmo lugar em que estava no exato momento.
– O urubu é lindo voando no céu!
Ficou triste de repente. O que seria do céu quando os urubus não existissem mais. As baratas viveriam mais que os urubus. Elas com seu vôo pequeno. De um ponto a outro sem nenhuma graça. Fugindo. Apenas isso.
– As baratas fogem mesmo quando estão voando.
Então ele entendeu o segredo das baratas. Elas nos ensinam a fugir.
- Ratos…
Riu. Pensou plural. Um atrás do outro. Ligados pela mesma direção. Sabiam aonde ir. Iam. Os ratos não voltavam. Viu que isso era seu e estava feliz. As baratas da mãe, os urubus do irmão. Seriam dele os ratos. Era.
- Os ratos são meus!
E ele possuiu o que lhe pertencia.
- Os ratos não escondem seu olhar.
Estava gostando do que estava dizendo. Bonito mesmo é quando tudo parece novo. As palavras repetidas aqui e ali. As mesmas. O que agora parecia tão novo! Até mesmo as ruas passaram a fazer sentido. Era preciso ir. E voltar como se fosse. É uma questão de olhar. As palavras. Então era isso. Estava descobrindo um mundo de coisas. E ele que esperou tanto tempo pelo irmão sempre catando entre os urubus. Como um urubu. Senhor da podridão. Altivo. Sagrado. E ele não era nada. Ele não sabia. Como não. Agora essa palavra indo atrás dos ratos. Pois bem. Seguiria os ratos pelas ruas. Riu de novo e mais forte. No silêncio seguinte se deu conta de que possuía uma imagem. Quem era? Estaria condenado a ser o irmão de alguém que já tinha partido?
Quando a mãe retornou, ele se voltou como quem queria saber. A pequena Diana dormia agarrada às suas pernas. Ela estranhou a atitude. Respondeu passando por ele como se pedisse silêncio. Ele esperaria. E desta vez a mãe não teria como fugir. Esteve o dia inteiro diante do espelho. Tinha palavras próprias. Ruas inteiras a sua espera. Seguiria os ratos.
O toque de recolher soou. O sol se pondo. Nem baratas nem urubus. Seguiria os ratos. Eles que vasculham as noites sem temer os caminhos que devem seguir. Ele que sempre esperou agora iria. Nem tão grande nem tão pequeno. Mas um piscar de olhos. Não enfrentaria gangues, mas jamais seria pego por elas. Sem temer os esgotos com seus mortos. Sem precisar de portas. A mãe que se demorasse. Ele agora já ia cheio de palavras descobrindo ruas. Ele já tinha um olhar. Mesmo dentro da noite. Sem medo. Iria. Estava decidido já existindo em si. Sozinho como a noite. E para dentro dela ele foi como um rato…

Guerá Fernandes
Fragmento de “O POÇO”, 2010
In: guerafernandes.blogspot.com.br/

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