terça-feira, 31 de julho de 2012

Marguerite Duras

Excerto de "Yann Andréa Steiner"
Quando você começou a falar de livros, captei, por trás do olhar atento, do raciocínio lúcido, perfeito, uma espécie de urgência que você não conseguia moderar, como se precisasse agir depressa para chegar a dizer tudo o que decidira dizer e também tudo o que decidira não dizer. Tudo o que você queria dizer antes que subitamente «parecesse a evidência, a coisa, terrível, iluminadora, essa decisão que você tinha tomado: conhecer-me antes de se matar.
Naquele momento eu não soube de você mais do que isso.
Muito mais tarde, você falou. Disse que sem dúvida era verdade, sim, mesmo ficando obscuro, acrescentou: Como para você, de um outro modo. Você não pronunciou a palavra, mais tarde compreendi que mesmo por dentro você devia silenciar sobre ela, a palavra, essa palavra dita em seu sorriso: escrever.

E depois caiu a noite. Eu lhe disse: Você pode ficar aqui, pode dormir no quarto do meu filho, que dava para o mar, a cama estava feita.
Que se quisesse tomar um banho, também podia.
E da mesma forma, se preferisse sair.
E também, por exemplo, podia comprar um frango frio, uma lata de creme de castanhas, creme de leite para acompanhar, frutas e queijo e pão. Que era isso que eu comia todos os dias, para simplificar minha vida. Disse-lhe também que podia comprar uma garrafa de vinho para você.
Que eu bebia menos em certos dias. E nós dois rimos.

Logo depois de sair, você voltou. O dinheiro, disse, gastei com o ônibus, não tenho mais nada, tinha esquecido.

Você devorou tudo com apetite de criança, que então eu não sabia lhe ser habitual.
Muito depois você me disse que ainda tinha fome ao sair da mesa. Mesmo depois do creme de castanhas, que você comeu todo, com o creme de leite, sem reparar.

Foi talvez naquela noite, com você, que recomecei a beber. Bebemos as duas meias-garrafas de Côtes du Rhône que você comprara na Rue des Bains. Era falsificado, intragável. Bebemos as duas meias-garrafas desse vinho da Rue des Bains.

Na primeira noite você dormiu no quarto que dá para o mar. Nenhum ruído veio dali, como quando eu estava sozinha. Você devia estar muito cansado, depois de dias e dias, de meses, daqueles anos de chumbo talvez, aqueles, áridos, trágicos anos diante do emprego do futuro e também daqueles anos do calvário desta mesma solidão do desejo púbere.

[In Yann Andréa Steiner,tradução de  Maria Ignez Duque Estrada Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, pp. 14-15].

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