terça-feira, 12 de março de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen

TRANSPARÊNCIA
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres


POEMA
A minha vida é o mar o Abril a rua 
O meu interior é uma atenção voltada para fora 
O meu viver escuta 
A frase que de coisa em coisa silabada 
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro 
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações 
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade 
Pois nenhum outro senão o mundo tenho 
Não me peçam opiniões nem entrevistas 
Não me perguntem datas nem moradas 
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente 
Cada dia preparada

[In OBRA POÉTICA,   AlfragideCaminho, 2011, pp. 524-525].

Cláudia Simões


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