sábado, 17 de agosto de 2013

Hélia Correia

29.

«Que o meu corpo não seja», escreveu ele,
«Levado, entregue a túmulo inglês.»
Mas foi. Que pode um voto, que podia
Um último poema, dito a custo,
Por quem se ergueu do leito nessa casa
Que o fogo em breve iria destruir,
O que pode o desejo contra a ordem?
Que segurou nos braços essa Grécia
A quem ele deu tudo, quando as urnas,
A do corpo e a das vísceras embarcaram?
Ficou, pois já o tinham oferecido
Em pedaços, ao povo, o órgão duplo,
O da inspiração, esse em que o ar
Transportador da musa, se demora
No milagre da química, esse, sim,
Perdido para sempre, ali ficou.


In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio d´água, 2012



rachelle

Nenhum comentário: