quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ingeborg Bachmann

EM VERDADE
Para Ana Ajmátova
Para aquele que nunca ficou sem palavras, 
eu vo-lo digo, 
aquele que só sabe ajudar-se a si mesmo 
com as palavras, 

este não pode ser  ajudado 
nem pelo caminho curto 
nem pelo caminho longo.

Fazer sustentável uma única frase,
agüentar  o ding-dong das palavras.

Que ninguém escreva esta frase
que não a assine.

               *****

NADA DE DELIKATESSEN
Já não gosto de nada.

Devo 
enfeitar uma metáfora 
com uma flor da amendoeira?
Crucificar a sintaxe 
sobre um efeito de luz?
Quem vai quebrar a cabeça 
por coisas tão supérfluas?

Eu aprendi a ser sensata 
com as palavras 
que há 
(para a classe mais baixa).

Fome, 
desonra, 
lágrimas 

trevas.

Com os soluços depurados,
com a desesperança
(e desespero da desesperança)
por tanta miséria,
pelo estado dos enfermos,  o custo da vida,
darei um jeito.

Não descuido da escritura,
mas de mim mesma.
Os outros sabem 
Deus sabe 
o que fazer com as palavras.
Eu não sou o meu assistente.

Devo aprisionar um pensamento 
e levá-lo à cela iluminada de uma frase?
Alimentar olhos e ouvidos 
com bocados de palavras de primeira?
Investigar a libido de uma vogal,
descobrir o valor diletante das nossas consoantes?

Mesmo com 
a cabeça apedrejada, 
com o espasmo de escrever nesta mão
sob a pressão de trezentas noites 
devo romper o papel, 
varrer as urdidas óperas de palavras, 
destruindo assim : eu, tu e ele, ela, 
nós, vós?

(Que seja. Que sejam os outros).

Que se perca a minha parte.

Tradução do espanhol: Alejandro Carvajal


Otto Mueller



                       

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