domingo, 8 de dezembro de 2013

Marianne Moore

PROPRIEDADE
é palavra conforme
aquele acorde
que a ave emitiu
e Brahms ouviu,
executado à base da garganta;
é o miúdo pica-pau penugento
que sobe a árvore em espirais —
qual mercúrio, mais e mais;

um canto breve
de pardal que é
no mais pequeno
um grão de feno —
reticência afinada com o rigor
da força na fonte. Propriedade
é o Solfegietto de Bach —
e gaita-de-boca e baixo.

Espinhas em
abetos, em
negro arvoredo
junto ao penedo
à beira-mar batido pelas ondas —
têm-na; e um halo de lua e a firmeza
alegre de Bach, só que em tom
menor. É um entendimento
gato-e-coruja-
aos-dois-lambuja.
Vem, vem. É o dito
dado por dito;
não graciosa desdita. É resistência
humilde, como a da espiga da cauda-
de-raposa. Brahms e Bach, não;
Bach e Brahms. Ter gratidão

antes a Bach
por tudo, bah!
Peço perdão;
pois ambos são
involuntários amores-perfeitos
isentos de auto-exame; enegrecidos
porque assim nasceram.

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 125-127].


Barbara Kelley


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