terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Luiz Ruffato

Bom Jesus do Norte, 9h35min
Carlos acende um cigarro.
— Mãe, a senhora lembra daquela torta de biscoito-maria?
— Lembro...
— Depois que o Fernando morreu a senhora nunca mais fez...
— Desgostei...
— Mas, mãe, o Fernando não era seu único filho...
— Mas é ele que se lambuzava todo, de tanto que apre­ciava...
— A senhora ainda sabe a receita?
— Não sei...
— Quando a gente voltar, a senhora faz pra mim?
(uma vez papai bateu na porta da tulha porque quando casei com o adalberto a gente não tinha nem onde morar então pa­pai falou que emprestava a tulha pra gente se esconder da chuva e do sol e foi lá que nasceu o fernando no meio da pa­lha seca de noite eu ficava vigiando pra espantar os ratos os ratos podiam morder o coitadinho uma vez papai bateu na porta da tulha era de manhã cedinho o adalberto tinha aca­bado de sair pra roçar o pasto o papai falou naquele portu­guês esgrouvinhado filha vim aqui despedir de você que é a minha filha adorada que me compreende despedir? é eu vou embora nica não agüento mais a rabugice da sua mãe brigou com a mamãe de novo? é aquelas implicâncias dela vi o papai montar no cavalo os olhos vermelhos e sair a galope na di­reção de rodeiro comecei a chorar fui lá dentro de casa a ma­mãe estava calmamente assando um bolo mamãe o papai foi embora? e ela em italiano foi na rua fazer o armazém de tarde ele volta depois que os meninos comeram o angu-com-leite papai chegou apeou do cavalo cabeça baixa olhou pra mim envergonhado e entrou na sala arrastando a botina papai gos­tava muito de mim era severo não me deixou estudar você não vai precisar disso não nica pra lavourar tem que saber é lidar com enxada não com lápis mas era eu que contava e guardava o dinheiro dele era a mim que ele recorria quando estava triste ou tinha que tomar uma decisão importante o meu casamento foi o único em que ele soltou foguete)
— Sabe que eu lembro direitinho da vovó, mãe?
— Lembra?
— Como se fosse hoje.
— Mas você era tão criança quando ela morreu...
— Nem tanto, mãe... eu tinha uns dez, onze anos... Quando ela acordava, passava um tempão penteando os cabelos pra fazer um coque...
— Você lembra disso?
— E lembro também que ela só usava vestido preto. Era luto?
— Não sei... Até onde vejo, desde sempre ela só vestiu preto...
— Ela não falava nada em português, mãe?
— Nada, coitada... Nunca aprendeu... Nem uma pa­lavra...
— A senhora sabe italiano?
— Ih, já esqueci...
— Mas a senhora sabia?
— Em criança...
— Não lembra mais nada?
— Só a reza...
— A reza a senhora lembra?
— Lembro... O Dio, Padre Buono e misericordioso...
— Coitada da vovó... Do quê que ela morreu?
— Solidão.
— Solidão? Ninguém morre de solidão, mãe...
— Ela morreu. Depois que venderam o resto da fazen­da, ela ficou pulando de casa em casa. Até com a gente ela passou um ano... Mas não conseguia conversar com nin­guém. Ninguém mais sabia italiano. Os filhos não tinham paciência de puxar pela memória... Os netos remedavam ela... Passava tempos sem abrir a boca. Até que começou a secar, secar... Um dia acharam ela murchinha, de bruços, na cama...


[In Mamma, son tanto felice, São Paulo, Record, 2005, pp. 62-64]


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