quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Luiza Neto Jorge

RECANTO 16
Dulcíssimo, coração do corpo, expande-se desata-se
desintegra-se pelos calcanhares de minha mãe
cansada
olha-me nos ombros
afasta-se no índico

Movimento mais que uníssono: órgão sonoro
a ressoar numa revolução
número odorífero
número de oiro negro sinal da mão que se coça
debaixo da terra
a empurrar-nos

Vestígio nosso?
Nossa absorção, respondo eu.

Tenta abrir o jacto para beijar em voo
um passageiro tenta ordenar o transito com um beijo
nos dedos destruídos
mas consegue pouco:

uma luminosidade quase cesariana
na barriga do melhor amigo.

[In Poesia (1960-19879), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 198]
By Júlio Pomar

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