quinta-feira, 19 de março de 2015

Enrique Vila-Matas

Leio as palavras do poeta Ullán sobre Marguerite Duras e é como se a estivesse vendo agora: “Marguerite perguntava sem parar. E era o eco e o filtro do que ela mesma se perguntava. Enfiava nisso cizânia e persuasão, melodrama e comicidade. Exigia de viva voz que lhe desse a razão, quando na verdade náo a desejava. Ia do copo ao cigarro, da tosse espasmódica às intermináveis pausas. Retorcia suas mãos carregadas de anéis, brincava com os óculos ou improvisava algum agrado leve com a ajuda do foulard. Ria e chorava amiúde. Com facilidade? Quem sabe! De fato, ali se sabia cada vez menos. Menos, de qualquer modo, do que ela queria saber”.

Eu a recordarei sempre como uma mulher violentamente livre e audaz, que encarnava em si mesma e com sentido de urgência — com seu inteligente uso, por exemplo, da libertinagem verbal, que em seu caso consistia em sentar-se numa poltrona de sua casa e, com verdadeira ferocidade, despachar com gosto — todas as monstruosas contradições que reúne o ser humano, todas essas dúvidas, fragilidade e desamparo, individualidade feroz e busca do desconsolo compartilhado, enfim, toda essa grande angústia que somos capazes de desdobrar frente à realidade do mundo, essa desolação da qual são feitos os escritores menos exemplares, os menos acadêmicos e edificantes, os que não estão propensos a dar uma correta e boa imagem de si mesmos, os únicos de quem não aprendemos nada, porém também os únicos que têm a rara coragem de se expor literalmente nos seus escritos - onde despacham com gosto - e que admiro profundamente porque somente eles vão fundo e me parecem escritores de verdade.

(Enrique Vila-Matas, Excerto de "Paris não tem fim")

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