quinta-feira, 16 de abril de 2015

Rainer Maria Rilke

Estou no mundo tão só, e ainda não só o bastante
para cada hora sacralizar.
No mundo eu me vejo débil demais
e ainda assim não débil o bastante
para diante de ti ser uma coisa
obscura e esperta;
vontade eu tenho e quero acompanhar minha vontade
a caminho da ação.
Quero nos calmos e de certo modo irrequietos tempos
quando algo se aproxima
estar entre os que sabem,
ou sozinho.
Eu quero espelhar-me sempre em tua forma total
e jamais estar cego ou velho em demasia
para aguentar tua imagem oscilante e pesada.
Quero me desdobrar.
Em parte alguma quero estar curvado,
pois sempre que me curvo estou mentindo.
E quero que todos os meus sentidos
sejam, diante de ti, bem verdadeiros. Quero me descrever
como a uma imagem que eu tivesse visto
tanto de perto quanto de longe,
como uma palavra que eu compreendo,
como meu vaso de todos os dias,
como o semblante de minha mãe,
como um navio
que me conduzisse
através da mortífera tormenta.

 [In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]


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