segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Ana Luísa Amaral

GAUGUIN FOTÓGRAFO
Estas quase-noites das estampas:
azuis escuras, o sol às réstias louras
e mares cor de safira

Nem Gauguin e as angústias
que eram dele
tinham destas cores

Fosse Gauguin fotógrafo,
o seu comércio a estampa
(que não dores):
deitava-se na areia-cor-de-areia,
mimando o paraíso numa noite
que fosse de dormir

NARRAÇÕES (OU NEM TANTO)
I
«Na folha verde,
a aranha, de mansinho,
pé ante pé,
faz ninho»

Narrar o verso assim.
E porque não?
Porque não: rima curta e
corte em verso?
Em vez de rendilhado-
— teia azul:
um pedaço de rede
sem bordado.
Onde o verso, cansado
de regurgitar,
engolisse as laçadas
do bordado
em pontos de rimar.

II
Além de que as aranhas
não caminham
sub-repticiamente.
Mas criam de repente
uma avalanche
de patas e montanhas, 
que provoca tamanhos
terramotos.

A folha verde:
o palco mais de dentro,
epicentro mais fácil
e propício
para o bulício azul.

Catástrofe de nervo
e de sentido.
E o insustentável
mais ruído:
buracos no tricot

(In Queixas ou resignações)

PAUL GUAUGUIN

Nenhum comentário: