domingo, 11 de dezembro de 2016

Luís Henrique Pellanda

Balcão de desejos

Já escrevi, uma vez, que as padarias à noite são como balcões de desejos simples, iluminados. A ideia é romântica, mas me agrada. Me faz lembrar uma história que sempre conto a meus amigos, nem sei com que intenção, pois nunca soube o que significa. Talvez eu espere que eles próprios descubram um sentido para ela, e depois o revelem para mim. Vou contá-la aqui também, e se algum de vocês tiver um palpite, fique à vontade para se manifestar.

Há poucas semanas, vi uma mulher, grávida de seus sete, oito meses, entrar numa dessas padarias do Centro, de camisola e chinelos de pano, lá pelas quatro da manhã, horário em que o estabelecimento está lotado de trabalhadores da madrugada. E sua aparição, tão limpa e maternal, foi um choque. De banho tomado e cabelos úmidos, cheirando a baunilha, a mulher se dirigiu a outra, bem mais nova que ela, quase uma menina, que no balcão matava o seu X-salada, cuidando para não borrar o batom com a maionese.

Foi rápido demais, a recém-chegada não deu aviso nenhum. Apenas estalou um tapa violento na cara da moça que mastigava o sanduíche. Estranhamente, a ofendida não reagiu, ainda bem. Só varreu com os olhos o chão do lugar, em busca de alguma coisa perdida, um brinco talvez, ou uma piranha. Achou o que queria perto de mim, entre os meus pés: um naco de hambúrguer fugido de sua boca. E me olhou por um segundo, desolada, como se pedindo desculpas por aquele desperdício de carne.

A padaria, quieta. Na porta, o homem das fichas foi o único a se envolver, cobrando explicações da agressora, o que foi isso, minha senhora? Alisando a barriga, a gestante esclareceu, sorrindo:
Foi só um desejo que eu tive.

E caiu fora. Ninguém soube dizer quem era, e nunca mais foi vista.

Quando conto esse episódio a meus amigos, eles duvidam de mim. Acham improvável uma mulher entrar com chinelinhos de pano naquela padaria, àquela hora. Acham inacreditável que ela tenha dado o tapa na moça sem que a outra revidasse, ao menos verbalmente. Acham que inventei a lírica justificativa da agressora para a sua atitude descabida.

Concordo com eles, é absurdo, mas proponho uma saída: não foi exatamente a mulher quem entrou na padaria, e sim a projeção de um de seus sonhos. Eles riem da minha evasiva e perguntam como, nesse caso, eu teria visto a personagem. Me defendo com a única resposta possível: não sei, pois nunca estive naquela padaria de madrugada.

Pela manhã, sim, ou mesmo no começo da noite. Gosto de lá, porque sempre que me aproximo do balcão, a atendente quer saber:
O que o senhor deseja?

É uma abordagem rara e perigosa. Em geral não perguntamos uns aos outros os nossos desejos, isso bagunçaria demais o mundo. Assim, para manter um mínimo de ordem nesta cidade, me forço a responder, humilde:
— Eu desejo pães.

25 de setembro de 2014 

[In O detetive à deriva, 2016]

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