domingo, 22 de abril de 2012

Alexandre Magno da Silva

Calado ficou. No instante. E o instante o prendeu, como a um inseto em âmbar. Não podia se mover além do alcance do olhar e o momento repentino lhe causou surpresa além da expressão. Alegria sentiu. Um estremecimento. A pele de tudo o que o cercava podia ser atravessada facilmente com todos os sentidos e além deles um sentimento complexo e profundo. E por fora, e por dentro de todas as coisas animadas e inanimadas, havia uma luz que pulsava incessantemente como uma estrela distante que se observa com cuidado. Calado como quem faz amor no escuro e se prende no ritmo da respiração para não perder uma gota do precioso instante em que o gozo é compartilhado repentinamente apenas pelo prazer de o sustentar, equilibrar e amortecer até as franjas dos lençois. Um instante que finalmente se apreendeu muito além da mais ordinária epifania. Eis o verdadeiro silêncio e a mais espessa mudez. Era como comungava a própria travessia quando o esgotamento espargia-se da última fronteira da alma. Era o que entendia por espiritualidade. E era o amor devotado que tinha pelas coisas que já não eram mais.


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