domingo, 22 de abril de 2012

Alexandre Magno da Silva

Há um tempo perdido o vento nunca fora tão forte. Suas raízes envolviam a terra, agrupando-se juntas em um abraço de agonia. Sua consciência vegetal despertara lentamente dias antes com o silvo da ventania que já vinha longínqua e em toda a sua força natural, acalentada por uma longa vida, teve medo com o declínio repentino das próprias forças. Sabia que seria a sua última tempestade e sentiu curiosidade: de onde ela viria? O que a alimentava? O que havia visto em seu longo trajeto até aqui, neste lugar esquecido pelo mundo e pelo homem?

Havia nuvens em todo o espaço atmosférico a sua volta e elas corriam oprimidas pela força selvagem de mãos invisíveis cujo aperto era irresistível. Chocavam-se umas as outras gritando eletricidade e vertendo um desabamento intempestivo por toda a terra. Ela observava suas folhas soltando-se uma a uma e voando para longe dela como fios de cabelo feitos da mais pura prata e seus nervos comprimiam-se em conjunto para agarrar o solo como um doente ao seu colchão nos instantes de estertor. A dor que sentia não era maior do que a sua capacidade de esperar.

A água descia das encostas formando uma corrente de aço que a obrigava a se contorcer em direção contrária, usando todo o seu peso descomunal para não ser carregada. Uma a uma, as raízes mais profundas iam cedendo vindo dar a luz natimortas. Aves adejavam até o mais recôndito do seu interior procurando abrigo e calor, a maioria exausta diante da luta violenta contra o vento e a chuva. As pequenas criaturas encolhidas e perfiladas emitiam um canto de pavor e pesar. Ela podia sentir o peso da existência de cada uma delas assim pousadas sobre seus ombros. Era preciso esperar.

A longa duração da vida desvendara-lhe o segredo da espera. O seu tempo girava em ciclos, como o de todas as criaturas sobre a terra, mas ela aprendera que para todos os seres sencientes há uma relação subjetiva com as circunstâncias, formada pelo que está vivo em cada um. Haviam coisas ao seu redor que ela aprendera a amar, observando-as com vagar. Muitas dessas coisas ela acabou tomando-as como parte de si própria, numa tentativa de confundir-se com o mundo. Ainda muito jovem, descobriu que pensar sobre uma razão de existir lhe parecera coisa inútil, mas, com o passar do tempo, lhe era cada vez mais nítida a impressão de que a sua finalidade como criatura entre criaturas era persistir e perseverar, por algum motivo exterior a ela. A sua condição natural lhe reservara uma vida longa de tal modo que ela podia observar atentamente cada mudança que sofria com o passar dos anos, o que a contentava. Mas ela aprendeu a lastimar a breve vida do mundo que a cercava. E a amá-lo também por isso.

A cada minuto que transcorria a tempestade se intensificava. Como se os céus estivessem em total desacordo com a terra, lutavam ambos como titãs pelo direito às criaturas de cada lado e por força das circunstâncias as quais ela não era responsável, estava em meio a tudo. Fora jogada naquele ermo entre sementes, a dela a única obstinada o bastante para se fortalecer e vingar. De tal forma o fez que se tornou a mais longeva e a maior em beleza e força. Ela levara séculos para ver desabrochar em si cada pequena transformação, não havia uma única emoção que não tivesse perscrutado com a curiosidade de um pássaro que observa crescer as próprias asas. Aprendera a ficar de tal forma absorta em si mesma que para abrir os olhos passavam-se dias, no entanto, tudo o que aprendia e observava ficava guardado para sempre no mais profundo da terra na qual arrancara a própria vida, e se tornara sábia, por gratidão ao tempo vivido. Em meio à algaravia da batalha entre céus e terra ela tinha consigo um único pensamento: aguardar.

E ela esperou, durante quatro dias e cinco noites, esperou.

A dor que sentia era tal qual a de um navio açoitado por vagas incólumes em meio a vastidão do mar. Jogada de um lado para outro ela sentia o peso de si própria consumindo sua força interior. Como se puxada pelos cabelos era arrastada para baixo emudecida em meio a algazarra das ventanias. Galhos se soltavam e ao longe eram arremetidos e sua casca se partia aos poucos fazendo nascer o suplício do fim. Uma descarga elétrica alcançara o chão próximo queimando as raízes mais distantes. Pedaços de madeira eram arrancados por um machado cujo som podia ser ouvido trabalhando incansavelmente ao longo das noites e dos dias. Como nascera muda, muda sofria a conclusão de si mesma.

Na terceira noite, voltou a fechar os olhos para poupar energias e relembrar por um último instante a vida que tivera. Na quarta noite, sonhou que era um ramo levado por uma pomba em meio ao céu claro. Na quinta noite temeu estar enlouquecendo quando se deu conta que o seu corpo não era mais seu. Era a hora.

Durante quatro dias e cinco noites, esperou.

Quando enfim avistou o céu se abrir e pequenos raios de luz solar foram brincar de iluminar as gotas que caiam de suas folhas ela estava pronta para finalmente aceder. Tinha visto a luz, por um último instante, menos que breve para a sua tão longa vida. De longe pode-se ouvir o seu desabamento como se único, estrondoso e repentino trovão atravessasse o sol do meio dia. Em seu lugar, menos que repentinamente, nasciam flores sem parar, como se um veio d’água pudesse rebentar brotando para sempre.

Fonte:http://palavraguda.wordpress.com

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