segunda-feira, 16 de abril de 2012

Marguerite Duras


A MORTE DO JOVEM AVIADOR INGLÊS (Texto Completo)
Marguerite Duras




O começo, o ponto de partida de uma história.

É a história que vou contar, pela primeira vez. A história deste livro.

Creio que é uma direção do escrito. É isso, o escrito dirigido, por exemplo, para você, do . qual ainda não sei nada.

Para você, leitor:

Isso se passa em uma aldeia bem perto de Deauville, a alguns quilômetros do mar. Essa aldeia se chama Vauville. O distrito é o de Calvados.

Vauville.

Foi lá. É a palavra escrita na tabuleta da porta.

Quando fui lá pela primeira vez, seguia o conselho de amigas, comerciantes de Trouville. Elas me falaram sobre a capela adorável de Vauville. Então nesse dia vi a igreja, pela primeira vez, sem ver nada disso que vou contar.

A igreja é de fato bem bonita e mesmo adorável. À direita há um cemitério pequeno, do século dezenove, nobre, luxuoso, que lembra Père-Lachaíse, muito enfeitado, como uma festa imóvel, parada, no centro dos séculos.

Do outro lado dessa igreja se encontra o corpo do jovem aviador inglês, morto no último dia da guerra.

E no meio da relva há um túmulo. Uma laje de granito cinzento claro, muito bem polida. Eu não a vi logo de saída, essa pedra. Eu a vi quando soube da história.

Era uma criança inglesa. Tinha vinte anos.

Seu nome está inscrito na laje.

No início ele era chamado de o jovem aviador inglês.

Era órfão. Estudava em um colégio de província ao norte de Londres. Ele se alistou, como fizeram muitos jovens ingleses.

Eram os últimos dias da guerra mundial.

Talvez o último, é possível. Ele tinha atacado uma bateria alemã. De farra. Como atirou sobre a bateria, os alemães responderam. Acertaram no garoto. Tinha vinte anos. .

O garoto tornou-se prisioneiro de seu avião. Um Meteoro de um só assento.

Foi assim mesmo. Ficou prisioneiro do seu avião. E o avião caiu no topo de uma árvore da floresta. Foi ali - acreditam as pessoas da aldeia - que ele morreu, durante aquela noite, a última  da sua vida.

Durante um dia e uma noite, na floresta, todos os habitantes de Vauville velaram seu corpo. Como antes, nos tempos antigos, como teriam feito antes, velaram-no com velas, preces, cânticos, lágrimas, flores. E depois conseguiram retirá-lo do avião. E extraíram o avião da árvore. Foi demorado, difícil. Seu corpo tinha se tornado prisioneiro do emaranhado de aço e da árvore.

Desceram-no da árvore. Foi muito demorado. No final da noite, estava encerrado. O corpo, uma vez trazido do alto da árvore, foi levado até o cemitério e logo em seguida cavaram a cova. Foi no dia seguinte, imagino, que compraram a laje de granito clara.

Esse é o começo da história.

Ele está sempre ali, o jovem aviador inglês, naquele túmulo. Sob a laje de granito.

No ano seguinte à sua morte, veio alguém para vê-lo, esse jovem soldado inglês. Trouxe flores. Um homem velho, inglês também. Veio até ali para chorar sobre o túmulo desse garoto e rezar. Disse que era professor daquele garoto em um colégio ao norte de Londres. Foi ele quem revelou o nome do garoto.

Foi ele também quem disse que o rapaz era órfão. Que não havia ninguém a quem comunicar sua morte.

Todo ano ele voltava. Durante oito anos. E sobre a laje de granito, a morte continuou a se eternizar.

Depois, nunca mais voltou.

E ninguém mais na face da terra se lembrou da existência dessa criança selvagem, e louca, alguns diziam: esse garoto doido que, sozinho, ganhou a guerra mundial.

Só restaram os moradores da aldeia para lembrar e cuidar do túmulo, das flores, da laje de pedra cinzenta. Creio que durante anos ninguém soube da história exceto as pessoas de Vauville.

O professor tinha dito o nome do garoto.

Esse nome ficou gravado sobre o túmulo:

W.J. Cliffe.

Sempre que o velho falava sobre o garoto, chorava.

No oitavo ano, ele não veio. E depois não veio nunca mais.

Meu irmão mais novo morreu durante a guerra do Japão. Morreu sem nenhuma sepultura. Atirado em uma fossa comum por cima dos últimos corpos. E é uma coisa tão terrível de se pensar, tão atroz, que não se pode suportar, e até ter passado por isso, é impossível saber como é. Não se trata da mistura dos corpos, em absoluto, é o desaparecimento desse corpo na massa dos outros corpos. É o seu, o seu próprio corpo, atirado na fossa dos mortos, sem uma palavra, sem uma frase. Exceto aquela da prece de todos os mortos. .

Para o jovem aviador inglês, não foi esse o caso, pois os moradores da aldeia cantaram e rezaram de joelhos sobre a grama ao redor do túmulo, e ficaram ali a noite inteira. Apesar de tudo, isso me lembrou aquela fossa de cadáveres nas imediações de Saigon, onde está o corpo de Paulo. Mas agora creio que lá existe outra coisa. Acho que um dia, mais tarde, bem mais tarde, mais tarde ainda, não sei bem, mas já sei que sim, bem mais tarde, reencontrarei, eu já sei que sim, algo de material que vou reconhecer como um sorriso suspenso no buraco dos olhos. Os olhos de Paulo. Lá, há algo mais do que Paulo. Para que isso se torne um acontecimento tão pessoal, essa morte do jovem aviador inglês, há mais do que aquilo que eu acredito haver.

Eu não saberia nunca dizer o que é. Nunca se vai saber.

Ninguém.

Isso me reporta também ao nosso amor.

Existe o amor do irmão mais novo e existia o nosso amor, nosso, dele e meu, um amor bem forte, oculto, culpado; um amor de todos os instantes. Adorável ainda depois da morte. O jovem morto inglês era todo mundo e era também ele mesmo. Era todo mundo e ele. Mas todo mundo não nos faz chorar. E depois essa vontade de ver o jovem morto, de verificar, sem conhecêlo nem um pouco, se seu rosto estava bem, aquele buraco, na extremidade do seu corpo sem olhos, essa vontade de ver seu corpo e ver como estava seu rosto de morto, dilacerado pelos punhais do Meteoro.

Será que ainda era possível ver alguma coisa assim? Isso aflige o pensamento. Nunca pensei que fosse escrever uma coisa dessas. Isso dizia respeito a mim e não aos leitores. Você é meu leitor, Paulo. Pois eu lhe digo, eu lhe escrevo, é verdade. Você é o amor da minha vida inteira, o gestor da nossa cólera diante daquele irmão mais velho, e isso ao longo de toda a nossa infância, da tua infância.

O túmulo está só. Como ele viveu. O túmulo tem a sua idade de morte ... como dizê-lo ... não se sabe ... o estado da grama, e também do jardinzinho. Também contou a proximidade do outro cemitério. Mas, na verdade, como dizê-lo?

Como unir o garotinho que morreu com seis meses, cujo túmulo está no alto do terreno gramado, e esse outro garoto de vinte anos? Continuam ali, os dois, e seus nomes, e suas idades. Estão sós.

E depois vi outra coisa. Sempre depois, a gente vê as coisas.

Vi o céu com o sol através das árvores, elas também mortas nos campos, mutiladas, as árvores negras. Vi que as árvores ainda estavam negras. E depois a escola municipal, ela também estava ali. E ouvi as crianças cantando: "Nunca te esquecerei." Para você. Só. Na origem disso tudo, havia, outrora, aquela pessoa qualquer e aquela criança, minha criança, meu irmãozinho, e mais alguém, o garoto inglês. Parecidos. A morte também batiza.

Aqui estamos muito longe da identidade. É uma morte, uma morte de vinte anos que irá até o final dos tempos. É só. O nome, não interessa mais: era um garoto.

Dá para ficar ali.

Dá para ficar ali, naquele ponto da vida de um garoto de vinte anos, o último morto da guerra.

Não interessa qual seja a morte, é a morte. Não importa qual seja o garoto de vinte anos, é um garoto de vinte anos.

Não é mais, de jeito nenhum, a morte de qualquer um. Continua sendo a morte de um garoto.

A morte de qualquer um é a morte inteira.

Não importa que seja todo mundo. E não importa quem possa tomar a forma atroz de uma infância em marcha. Essas coisas são sabidas nas aldeias, me foram contadas por camponeses com a brutalidade de um acontecimento que se tornou aquele acontecimento,· um garoto de vinte anos morto em uma guerra com a qual ele se divertia.

Talvez também por isso ele tenha ficado intacto, esse jovem inglês morto, tenha se aferrado a essa idade, terrível, atroz, a de vinte anos.

Fiquei amiga das pessoas da aldeia, sobretudo da velha que toma conta da igreja.

As árvores mortas estão lá, loucas, congeladas em uma desordem fixa, de tal modo que o vento não as procura mais. Elas são inteiras, mártires, são negras, o sangue negro das árvores mortas pelo fogo.

Esse passante tornou-se sagrado para mim - esse jovem inglês, morto com vinte anos. Ele sempre me faz chorar.

E depois o velho senhor inglês que vinha todo ano para chorar sobre o túmulo desse garoto, lamentei não tê-lo conhecido para conversar sobre o garoto, o seu riso, os seus olhos, suas brincadeiras.

O garoto morto foi adotado pela aldeia inteira. E a aldeia o adorou. O garoto da guerra terá sempre flores sobre seu túmulo. Continua o desconhecido: a data do dia em que isso cessará ..

Em Vauville, volta a minha memória do canto da mendiga. Esse canto bem simples. Aquele dos loucos, de todos os loucos, em toda parte, os cantos da indiferença. O canto da morte fácil. Da morte pela fome, dos mortos nas estradas, nos fossos, em parte devorados por cães, tigres, aves de rapina, ratos gigantes dos pântanos.

O mais difícil de suportar é o rosto destruído, a pele, os olhos arrancados. Os olhos esvaziados dos sinais da vida, sem mais olhar. Fixos. Virados para o nada.

Isso tem vinte anos. A idade, a cifra da idade pára com a morte, terá sempre vinte anos, tornou-se isso. Não sabe. Não olhou.

Quis escrever sobre o garoto inglês. E não posso mais escrever sobre ele. E escrevo, vocês vêem, assim mesmo, escrevo. É porque escrevo que não sei que isso pode ser escrito. Sei que isto não é uma narrativa. É um fato brutal, isolado, sem nenhum eco. Os fatos são suficientes. Contarei os fatos. E o velho que sempre chorava, que veio durante oito anos, e que, em certo momento, não veio mais. Nunca. Ele também viu-se apanhado pela morte? Sem dúvida alguma. E depois a história terminaria para a eternidade, da mesma forma que o sangue do garoto, os olhos, o sorriso do garoto tolhido pela boca descolorida da morte.

As crianças da escola cantam que há muito tempo o amavam, esse garoto de vinte anos, e que nunca vão esquecê-lo. Cantam assim depois do meio-dia.

E eu choro.

Existia o crepúsculo do azul dos olhos dessas crianças da escola.

Havia essa cor azul no céu, esse azul que era o mesmo do mar. Houve todas as árvores que foram assassinadas. E havia também o céu. Eu o olhei. Ele recobria todas as coisas na sua lentidão, na sua indiferença de todo dia. Insondável.

Vejo os lugares ligados uns aos outros. Exceto a continuidade da floresta, que desapareceu.

Não quis mais voltar. E ainda assim chorei. Eu via o garoto morto em toda parte. O garoto morto de brincar na guerra, de brincar de ser o vento, de ser um inglês de vinte anos, heroico e belo. Que brincava de ser feliz.

Ainda vejo você. O próprio garoto. Morto como um passarinho, de uma morte eterna. A longa morte que virá e a dor do corpo dilacerado pelo aço do avião, ele suplicava a Deus que o fizesse morrer depressa para não sofrer mais.

Chamava-se W. J. Cliffe, sim. É isto que agora está escrito sobre o granito cinzento.

É preciso atravessar o jardim da igreja e ir  para a escola pública que permanece ali, no mesmo lugar. Ir na direção dos gatos, esses doidos, incríveis, esses bandos de gatos, de uma incrível e cruel beleza. Esses gatos chamados "cascos de tartaruga", amarelos como labaredas avermelhadas, como sangue, brancos e negros. Negros como as árvores enegrecidas para sempre pela carga de bombas alemãs.

Há um rio ao longo do cemitério. E depois, ao lado, há ainda árvores mortas, do lado oposto ao lugar onde está o garoto. As árvores queimadas que gritam contra o vento. É um ruído muito forte, um tipo de varredura estridente, do fim do mundo. Dá muito medo. E depois cessa, de repente, sem que se saiba o que era. Sem razão, parece, sem a menor razão. E então os camponeses dizem que não é nada, que são as árvores que guardaram na sua seiva o carvão de suas chagas.

O interior da igreja é admirável, de fato. Tudo se reconhece. As flores são flores, as plantas, as cores, os altares, os bordados, os tapetes. É admirável. Como um quarto momentaneamente abandonado, à espera dos amantes que não vieram em razão do mau tempo.

Com essa emoção, se quer chegar a algum lugar. Escrever sobre o exterior, talvez, limitando-se a descrever, talvez, descrever as coisas que estão ali, presentes. Não inventar outras. Não inventar nada, nenhum detalhe. Não inventar de modo algum. Nada. Não acompanhar a morte. Que fique em paz, afinal, que pelo menos por uma vez não se olhe para isso desse ângulo.

As estradas que vão para a aldeia são caminhos antigos, muito antigos. São da pré-história. Estão ali desde sempre, parece, é o que se diz, eram rotas de passagem obrigatórias rumo ao desconhecido, trilhas e nascentes e praias onde era possível se proteger dos lobos.

Nunca aconteceu de me ver transtornada a tal ponto pela morte. Capturada por inteiro. Presa na sua viscosidade. E agora, para mim, todos os lugares, acabou, não vou mais lá.

Resta Vauville, esse jogo de amarelinha, resta a decifração dos nomes inscritos em alguns túmulos. Resta a floresta, a floresta que a cada ano progride na direção do mar. Sempre preta, de fuligem, pronta para a eternidade que virá. .

O garoto morto era também um soldado da guerra. E podia muito bem ter sido um soldado francês. Ou americano.

Fica a dezoito quilômetros da praia do Desembarque.

As pessoas da aldeia sabiam que ele era do norte da Inglaterra. O velho inglês lhes havia contado sobre esse garoto, o velho não era o pai do garoto, o garoto era órfão, devia ser seu professor, ou talvez um amigo dos pais. O homem amava aquele garoto. Como se fosse seu filho. Tanto quanto um amante, talvez, quem sabe? Foi ele que disse o nome do garoto. O nome foi inscrito sobre a laje cinzenta. W. J. Cliffe.

Não posso dizer nada. Não posso escrever nada.

Haverá uma escrita da não-narrativa. Um dia isto virá. Uma escrita breve, sem gramática, uma escrita de palavras sozinhas. Palavras sem apoio de uma gramática. Extraviadas. Ali, escritas. E logo deixadas de lado.

Eu queria expor o cerimonial que se criou em tomo da morte do jovem aviador inglês. Sei alguns detalhes: toda a aldeia se envolveu, redescobriu um tipo de iniciativa revolucionária. Sei também que o túmulo foi feito sem autorização. Que o prefeito não se envolveu. Que Vauville tornou-se uma espécie de festa fúnebre em torno da adoração do garoto morto. Uma festa livre de lágrimas e de cantos de amor.

Todas as pessoas da aldeia conheciam a história do garoto. E também a história das visitas do velho, aquele velho professor. Mas nunca falam da guerra. A guerra era para eles aquele garoto assassinado com vinte anos.

A morte reinou sobre a aldeia.

As mulheres choravam, não podiam se conter. O jovem aviador desaparece, morre de uma morte verdadeira. Caso cantassem essa morte como um exemplo de outras, não seria a mesma história. Essa discrição sublime das mulheres, que fez, segundo creio - mesmo que não esteja inteiramente certa disso -, com que o garoto fosse colocado do outro lado da igreja, ali onde ainda não havia túmulo algum. Ali onde ainda só existe o seu túmulo. Ao abrigo do vento louco. Elas tomaram o corpo do garoto, lavaram-no e puseram-no naquele lugar, dentro do túmulo, o da laje de granito claro.

As mulheres não contaram nada sobre isso. Se eu estivesse ali com elas, junto, para fazer o que elas fizeram, creio que nunca poderia escrever sobre isso. Afirmo que esse sentimento fantasticamente forte que experimentei, de estar comprometida com o caso, talvez não se produzisse. É a emoção que retoma ainda agora quando estou sozinha. Sozinha, ainda choro esse garoto que veio a ser o último morto da guerra.

Esse fato inesgotável: a morte de um garoto de vinte anos, morto pelas baterias alemãs no dia em que se fez a paz.

Vinte anos. Digo sua idade. Digo: tinha vinte anos. Terá vinte anos para a eternidade, diante do Eterno. Exista ou não, o Eterno será aquele garoto.

Quando digo vinte anos, é terrível. O mais terrível é isso, a idade. É uma banalidade essa dor que me aflige a respeito dele. É curioso, nunca a idéia de Deus se apresentou a respeito do garoto. Esta palavra fácil que é a palavra Deus, a mais fácil de todas, ninguém a disse. Não foi pronunciada uma só vez durante o sepultamento do garoto de vinte anos que tinha brincado de guerra no seu Meteoro por cima da floresta normanda, bela como o mar.

Não existe nada para dar a medida deste fato. Existem muitos fatos como este no universo. Brechas. Lá, este fato foi visto. E também se viu que o garoto morreu por ter brincado de guerra. Tudo fica claro diante da morte do garoto.

Ele estava contente, ele estava muito feliz ao sair da floresta, não via nenhum alemão. Estava contente de voar, de viver, de ter resolvido matar os soldados alemães. Adorava brincar de guerra, aquele garoto, como todos os garotos. Morto, ele era, o tempo todo, um outro garoto de vinte anos, não importa qual garoto. E depois isso tudo parou com a noite, a primeira noite. Ele tornou-se o garoto dessa aldeia francesa, ele, o aviador inglês.

Ele assinou sua morte, aqui, diante das pessoas de Vauville, que olhavam.

Este livro não é um livro. Não é uma canção.

Nem um poema. Nem um livro de pensamentos.

Mas de lágrimas, de dor, de pranto, de um desespero que não se pode conter e sobre o qual não se pode raciocinar. Cóleras políticas fortes como a fé em Deus. Mais fortes ainda. Mais perigosas porque são infinitas.

Esse garoto morto na guerra é também um segredo de cada um daqueles que o encontraram no alto daquela grande árvore, crucificado naquela árvore pela carcaça de seu avião.

Não se pode escrever lá em cima. Ou então se pode escrever em cima de qualquer coisa. Escrever sobre tudo, tudo ao mesmo tempo, é não escrever. É nada. E é uma leitura insustentável, da mesma forma que uma publicidade.

Ouço de novo o canto das crianças da escola pública. O canto das crianças de Vauville. Isso deveria ser suportável. Ainda é difícil para nós. Sempre chorei com esse canto das crianças. E ainda choro.

Já se vê menos o túmulo do jovem aviador inglês. Ele ainda é visível na paisagem ao redor. Mas já se afastou de nós, na direção da eternidade. E a sua eternidade será vivida como tal por esse garoto desaparecido.

Os locais ao redor da igreja dão acesso ao túmulo do garoto. Lá, ainda existe alguma coisa acontecendo. Encontramo-nos agora separados do fato por décadas e no entanto aqui o túmulo é um fato. Quem sabe essa solidão de um garoto morto na guerra não sejam ternas carícias sobre o granito frio da sua laje tumular? Não se sabe.

A aldeia tornou-se a aldeia desse garoto inglês de vinte anos. É como uma espécie de pureza, um luxo de lágrimas. A atenção extrema dirigida ao local de seu túmulo será eterna. Isto já se sabe.

A eternidade do jovem aviador inglês está ali, presente, se pode abraçar a pedra cinzenta, tocá-la, dormir sobre ela, chorar.

Como um refúgio, essa palavra - essa, eternidade, vem à boca - será a vala comum de todos os outros mortos da região que as guerras futuras terão matado.

Talvez seja o nascimento de um culto. Deus reempossado? Não, Deus é reempossado todos os dias. A gente nunca se acha sem Deus.

Não sei como chamar essa história.

Tudo está ali, em algumas dezenas de metros quadrados. Tudo está ali naquela mixórdia de mortos, naquele esplendor de túmulos, aquele luxo, que faz desse lugar algo admirável. Não se trata do número, ali o número se dispersou, pelas planícies alemãs do norte da Alemanha, pelas hecatombes das regiões de toda a costa do Atlântico. O garoto continuou sempre sendo ele mesmo. E só. Os campos de batalha foram para longe, pela Europa inteira. Aqui é o contrário, é o garoto, o rei da morte causada pela guerra.

É um rei também: é um garoto tão sozinho na morte quanto um rei na mesma morte.

Seria possível fotografar o túmulo. O fato do túmulo. O nome. O sol se pondo. O negrume da fuligem nas árvores queimadas. Fotografar os dois rios gêmeos enlouquecidos e que urram todas as noites, não se sabe nunca por que ou para quê, como cães esfomeados, esses rios malfeitos, equívocos de Deus, mal nascidos, que toda noite se entrechocam, se atiram um de encontro ao outro. Nunca vi isso em, lugar algum.

Dementes de um outro mundo, com um barulho de ferragens, de massacre, de carroças rodando, e que buscam onde se atirar, algum mar, alguma floresta. E os gatos, a nuvem de gatos que berram de medo. Estão sempre nos cemitérios, vigiando não se sabe o quê, algum fato de natureza indecifrável, exceto quanto a eles mesmos, os gatos, sem líder. Perdidos.

As árvores mortas, os prados, o gado, tudo aqui contempla o sol do entardecer em Vauville.

O lugar em si permanece muito deserto. Sim, vazio. Quase vazio.

A zeladora da igreja mora bem perto dali.

Todo dia de manhã depois do café, ela vai olhar o túmulo. Uma camponesa. Veste o avental de pano azul-escuro que minha mãe usava em Pasde-Calais, quando tinha vinte anos.

Esqueço: há também o cemitério novo, a um quilômetro de Vauville. É um cemitério de túmulos padronizados. Há arranjos de flores grandes como árvores. Tudo foi pintado de branco. E ali não há ninguém, ninguém lá dentro, parece que não tem ninguém. Que não é um cemitério. Não se sabe bem o que é aquilo, talvez um terreno de golfe.

Ao redor de Vauville há várias trilhas muito antigas, de antes da Idade Média. Foi sobre elas que fizeram as estradas por onde passamos agora. Ao longo das sebes milenares, existem caminhos para os novos seres vivos. Foi Robert Gallímard que me revelou a existência de toda essa rede de trilhas ancestrais da Normandia. Os primeiros caminhos dos homens do litoral, os homens do norte.

Existem, sem dúvida, muitas pessoas que teriam escrito a história dastrilhas.

O que seria necessário apontar é a impossibilidade de falar sobre esse lugar, aqui, e esse túmulo. Mas assim mesmo é possível abraçar o granito cinzento e chorar por você, W. J. Cliffe.

É preciso começar ao contrário. Não falo de escrever. Falo do livro já escrito. Partir da fonte e segui-la até o ponto onde sua água se deposita. Partir do túmulo e ir até ele, o jovem aviador inglês.

Muitas vezes encontramos relatos e muito raramente se encontra a escrita.

Não existe senão um poema, talvez, e para tentar ainda ... o quê? Não se sabe mais nada, nem mesmo isso, o que era preciso fazer.

Há a grandiosa banalidade da floresta, dos pobres, dos rios enlouquecidos, das árvores mortas, esses gatos carniceiros como cães. Gatos vermelhos e negros.

A inocência da vida, sim, é verdade, ela está lá, do mesmo modo que as cantigas de roda das crianças da escola.

Existe, é verdade, a inocência da vida.

Uma inocência que faz chorar. Ao longe, há a antiga guerra, aquela que agora se fez em migalhas, quando estamos sozinhos na aldeia, em face das ãrvores mártires calcinadas pelo fogo alemão. O corpo das árvores assassinadas pela fuligem. Não, não existe mais guerra. A criança da guerra tomou o lugar de tudo. O garoto de vinte anos: toda a floresta, toda a terra, ele a substituiu, e também o futuro da guerra. A guerra foi enterrada no caixão junto do corpo desse garoto.

Estâ tranqüilo, agora. O esplendor central é a idéia, a idéia dos vinte anos, a idéia de brincar de guerra, que se tornou resplandecente. Um cristal.

Se não existissem coisas como essa, a escrita não teria lugar. Mas mesmo se a escrita está presente, sempre prestes a urrar, a chorar, são coisas que não se escrevem. São emoções dessa ordem, muito sutis, muito profundas, muito carnais, também essenciais, e completamente imprevisíveis, que podem incubar vidas inteiras dentro do corpo. A escrita é isto. É o fluxo do escrito que passa através do corpo de vocês. Atravessa. Daí partimos para falar dessas emoções difíceis de dizer, tão estranhas e que, todavia, de repente se apoderam de vocês.

Eu estava em minha casa, nesta aldeia, aqui, em Vauville. Ia lá todo dia para chorar. E então, um dia, nunca mais fui.

Escrevo em razão dessa chance de me fundir por inteiro, com tudo, essa chance de me achar no campo de guerra, nesse teatro de guerra vazio, na ampliação dessa reflexão, na ampliação que ocupa o terreno da guerra, bem devagar, o pesadelo em marcha da morte desse jovem de vinte anos, nesse corpo morto do garoto inglês de vinte anos, morto com as árvores da floresta normanda, da mesma morte que elas, ilimitada.

Essa emoção vai se estender além dela mesma, rumo ao infinito do mundo inteiro. Isso durante séculos. E então, um dia - todos sobre a terra entenderão algo como o amor. Dele. Do garoto inglês morto com vinte anos por ter brincado de guerra contra os alemães nessa floresta monumental, tão bela, se poderia dizer, tão antiga, secular, adorável mesmo, sim, é isso: adorável é a palavra.

Seria possível fazer um filme. Um filme de insistências, de retornos e de reinícios. E depois abandoná-lo. E filmar também esse abandono. Mas isso não será feito, já se sabe. Nunca será feito.

Por que não fazer um filme sobre aquilo. que é desconhecido, ainda desconhecido?

Não tenho nada nas mãos, nada na cabeça para fazer esse filme. E foi nisso que mais pensei neste verão. Porque esse filme seria, apesar de tudo, um filme da idéia inatingível e louca, um filme sobre a literatura da morte viva.

A escrita da literatura é justamente aquilo que apresenta um problema para todos os livros, para todos os escritores, para cada livro de cada escritor. E sem isso não existe escritor, não existe livro, nada. Assim, parece que se pode dizer também que, desta maneira, não existiria talvez mais nada.

A silenciosa derrocada do mundo teria começado naquele dia - o dia daquela morte tão lenta e tão dura do jovem inglês de vinte anos no céu da floresta normanda, esse monumento no litoral do Atlântico, essa glória. Esta notícia, este simples fato, esta notícia misteriosa se inscreveu na mente das pessoas ainda vivas - um ponto de onde não se pode voltar teria sido alcançado no silêncio elementar da terra. Soube-se que, a partir de então, seria inútil esperar. Isso em toda a superfície da terra e partindo deste único objeto, um garoto de vinte anos, o jovem morto na última guerra, o esquecido pela última guerra no início da vida.

E depois, um dia, não haverá nada  para se escrever, nada para se ler, não existirá senão o intraduzível da vida desse morto tão jovem, tão jovem que chega a doer.

Marguerite Duras. Escrever. Rocco: Rio de Janeiro, 1999, pp. 51-74, trad. Rubens Figueiredo



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