sábado, 14 de julho de 2012

Marguerite Yourcenar

EXCERTO DE "COMO A ÁGUA QUE CORRE"
A história de Ana adquiriu daí em diante a monotonia de uma prova longamente suportada. O senhor de Wirquin cedo abandonara o lado espanhol para reincorporar-se à França, o que aumentou o desdém que Ana lhe votava. Muitas vezes, a guerra saqueara suas terras; foi preciso salvaguardar tanto quanto possível os camponeses, o gado, os bens móveis, mas tais preocupações em comum não os reaproximaramo De seu lado, o marido de Ana não perdoava ao sogro o fato de haver dispersado sua fortuna em fundações piedosas; os bens quase fabulosos em razão dos quais, ao menos em parte, contratara essa aliança, nada mais eram que miragens. Entre Ana e ele, a polidez substituía a ternura, sentimento que ele não julgava, aliás, necessário em suas relações com uma mulher. De início, Ana suportara suas atenções noturnas com repulsa; depois, o prazer vez por outra nela se insinuara à sua revelia, mas limitado a uma parte baixa e estreita de sua carne, jamais lhe fazendo vibrar todo o ser. Foi de bom grado que Ana soube em seguida ter o marido arranjado amantes que dela o afastaram.

Algumas gravidezes, toleradas com resignação, deixaram-lhe sobretudo a lembrança de longas náuse-as. Contudo, ela amava os filhos, mas com um amor animal que diminuía quando estes dela não tinham necessidade. Dois meninos morreram em tenra idade; ela lamentou sobretudo a mais jovem, cujos traços infantis recordavam-lhe os de Miguel, mas com o tempo esse desgosto também passou. O mais velho, homem de guerra e de corte, debatia-se com os credores que lhe deixara o pai, morto em duelo após uma nebulosa questão de honra. Sua filha era religiosa em Douai. Poucos meses após a morte do senhor de Wirquin, um amigo do defunto que escoltava Ana d'Arr as a Paris, onde se encontrava seu filho, aproveitou-se de uma parada ocasional da viagem para assediar a viúva ainda bela; muito cansada para lutar, ou talvez solicitada pela própria carne, Ana o recebeu nem com mais nem com menos emoção do que experimentara no leito conjugal. Ele não deu nenhuma importância ao ocorrido, e partiu para reincorporar-se a seu regimento na Alemanha; na verdade, nada disso importava. Durante as raras permanências de Ana no Louvre, a rainha se entusiasmou por aquela espanhola de alta estirpe, com a qual lhe agradava entreter-se em seu idioma natal. Mas a viúva de Egmont de Wirquin recusou um lugar de açafata. A pompa francesa e o luxo de Flandres, sob seus céus sempre sombrios, nada eram se comparados à lembrança dos faustos de Nápoles e a seu límpido céu.

Com os anos, o isolamento, a fadiga, uma espécie de estupor a prostrou. O consolo das lágrimas lhe era recusado; ela se consumia nessa secura como no interior de um árido deserto. Em certos instantes, delicados fragmentos do passado se inseriam inexplicavelmente no presente, sem que se soubesse de onde vinham: um gesto de dona Valentina, uma gavinha de videira ao redor da polia de um velho poço no pátio de Acropoli, uma luva de dom Miguel esquecida sobre a mesa e ainda quente de sua mão. Parecia então que uma tépida brisa soprava: ela quase desfalecia. Depois, durante longos meses, o ar lhe faltava. O ofício dos mortos, entoado toda noite ao longo de quase quarenta anos, à força de repetido, perdia de repente todo o sentido. O rosto do bem amado lhe aparecia às vezes em sonho, nítido até o menor detalhe do buço acima dos lábios; o tempo restante jazia decomposto em sua memória como o próprio dom Miguel em sua tumba, e ora lhe parecia que este jamais existira a não ser nela, ora ela impunha a um morto, de maneira quase sacrílega, que continuasse a viver. Assim como outros se fustigam para reanimar seus sentidos, Ana se flagelava para reavivar o seu luto, mas sua dor exaurida nada mais era que uma lassidão. Esse coração mortificado recusava-se a sangrar.

Ao alcançar a casa dos sessenta, dona Ana deixou o domínio ao filho e entrou como pensionista para o convento de Douai, onde a filha tomara o hábito. Outras damas da nobreza aí terminavam seus dias. Pouco após a chegada de Ana, preparou-se um quarto para urha tal madame de Borsêle, uma das amantes pelas quais se arruinara Egrnont de Wirquin. O tempo que essas senhoras não consagravam aos ofícios religiosos era consumido em bordados, em leitura em voz alta de cartas que lhes enviavam os filhos, em pequenas refeições ou finas ceias que ofereciam umas às outras. A conversa girava em torno dos costumes e maneiras de sua juventude, dos respectivos méritos dos maridos defuntos ou dos atuais confessores e dos amantes que gabavam ter tido, ou não tê-los tido. Mas todas voltavam sempre, com uma insistência repugnante e quase grotesca, a seus males corpóreos visíveis ou ocultos. Era quase como se o fato de exibir assim suas doenças se tornasse para elas uma nova forma de impudicícia. Uma certa surdez impedia que dona Ana lhes ouvisse as frases, permitindo-lhe furtar-se àquela promiscuidade. Cada uma tinha sua serviçal, mas ocorria que essas moças eram negligentes ou que, por uma ou outra razão, as despedissem, e as irmãs conversas nem sempre eram suficientes para atender às pensionistas. Madame de Borsêle era obesa e quase inválida; Ana ajudava-a por vezes a pentear-se, e a beldade de outrora batia palmas quando se lhe aproximavam o rosto do espelho. Ou, então, se lastimava ridiculamente porque se tinham esquecido de deixar-lhe ao alcance a caixinha de confeitos. Ana se erguia então do lugar onde estava, o que não fazia senão com esforço, achava a caixinha e deixava que madame de Borsêle se entupisse de doçuras. Certa vez, uma velha pensionista, ao voltar do refeitório, vomitou no corredor. Nenhuma servente lá se encontrava no momento; Ana lavou as lajes.

As religiosas admiravam a mansidão de Ana para com sua antiga e escandalosa rival, sua austeridade, sua humildade, sua paciência. Mas nela não havia nem mansidão, nem austeridade, nem humildade, nem paciência. Ana estava, muito simplesmente, alhures.

Ela voltara à leitura dos místicos: Luis de León, frei Juan de la Cruz, a santa madre Teresa, os mesmos que lhe lia outrora, ao sol dos meios-dias, um jovem cavaleiro todo de negro. O livro ficava aberto sobre o vão da janela; sentada sob o pálido sol de outono, Ana pousava de quando em vez sobre uma linha os olhos fatigados. Ela não tentava decifrar o sentido, mas aquelas longas frases ardentes faziam parte da música amorosa e fúnebre que acompanhara sua vida. As imagens de outrora raiavam de novo em sua juventude imóvel, como se dona Ana, em seu declínio insensível, começasse a esperar o sítio onde tudo se reúne. Dona Valentina não estava longe; dom Miguel resplandecia no clarão de seus vinte anos; estava muito próximo. Uma Ana de uma vintena de anos ardia e vivia, ela também a mesma, no interior daquele corpo de mulher gasto e envelhecido. O tempo derrubara suas barreiras e rompera seus grilhões. Cinco dias e cinco noites de uma violenta felicidade outra vez inundavam com seus ecos e reflexos todos os confins da eternidade.

Sua agonia, contudo, foi longa e penosa. Ela esquecera o francês; o capelão, que se gabava de saber algumas palavras de espanhol e um pouco de italiano dos livros, vinha às vezes exortá-la em um desses dois idiomas. Mas a agonizante não o escutava nem o compreendia senão a custo. O padre, conquanto ela não o visse mais, continuava a apresentar-lhe um crucifixo. Por fim, o rosto devastado de Ana se distendeu; ela baixou lentamente as pálpebras. Ouviram-na murmurar:

- Mi amado ...

Julgaram que ela falasse a Deus. Talvez ela falasse a Deus.


In YOURCENAR, M. Como a Água que Corre, Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1983, pp. 72-76, trad. Ivan Junqueira

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