terça-feira, 28 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade


AMOR E SEU TEMPO
AMOR é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se toma a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É  isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
(As Impurezas do Branco)

QUERO
Quero que todos os dias do ano 
todos os dias da vida 
de meia em meia hora 
de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo, 
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior 
e no seguinte, 
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra 
nem sei de outra maneira a não ser esta 
de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado: 
amor na raiz da palavra 
e na sua emissão, 
amor
saltando da língua nacional, 
amor 
feito som 
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo, 
inexoravelmente sei 
que deixaste de amar-me, 
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
(As Impurezas do Branco)



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