sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Laís Correa de Araújo


CARTA
Quisera escrever-lhe com uma letrinha
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um “eternamente sua”,
mas quem sabe se você me quererá para sempre?

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 28

FIM
Acabemos tudo, amor. Houve um sonho. 
O luar toca sua música branca 
na harpa da trepadeira.
Que seja assim. Dentro da noite 
como os grilos. E simples e sensatamente. 
Provemos a paz. Há paz nos meus cabelos, 
serei tua e irás. Com naturalidade.
Que importa que meu travesseiro 
fique hoje úmido e humano?

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 34

CINEMA
O peso quente do escuro,
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos, 
exagerado como folhas de árvore, 
e eu tive de despejá-lo em outra boca.

Depois uma bala de coco apagou 
o gosto de violência da penumbra 
e a luz me entregou a impressão 
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.

In INVENTÁRIO 1951/2002, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 35


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