sábado, 18 de agosto de 2012

Marguerite Duras

 EXCERTO DE "ESCREVER"
 A solidão também quer dizer isso: ou a morte, ou o livro. Mas antes de tudo quer dizer álcool. Quer dizer uísque. Até agora, nunca fui capaz, nunca mesmo, realmente nunca, ou talvez fosse preciso procurar bem longe... nunca fui capaz de começar um livro sem terminar. Nunca fiz um livro que não fosse minha razão de ser na hora em que está sendo escrito, e isso vale para qualquer livro. E em toda parte. Em todas as estações do ano. Essa paixão, eu a descobri aqui em Yvelines, nesta casa. Eu tinha afinal uma casa onde me esconder para escrever livros. Queria viver nessa casa. Para quê? Começou desse jeito, como uma brincadeira. Talvez escrever, disse a mim mesmo, quem sabe eu sou capaz? Já havia começado livros que deixara de lado. Esquecera até os títulos. Le Vice-consul, não. Eu não o abandonei, penso nele muitas vezes. Em Lol V. Stein não penso mais. Ninguém pode conhecê-la, L. V. S., nem vocês nem eu. E mesmo aquilo que Lacan disse a respeito do livro, eu nunca cheguei a entender direito. Lacan me deixava atordoada. E aquela sua frase: “Ela não deve saber que escreve, nem aquilo que escreve. Porque ela se perderia. E isso seria uma catástrofe.” Esta frase tornou-se, para mim, uma espécie de identidade de princípio, um “direito de dizer” totalmente ignorado pelas mulheres.

Achar-se em um buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita pode nos salvar. Achar-se sem assunto para o livro, sem a menor ideia do livro significa achar-se, descobrir-se, diante de um livro. Uma imensidão vazia. Um livro eventual. Diante de nada. Diante de algo semelhante a uma escrita viva e nua, algo terrível, terrível de ser subjugado. Acho que a pessoa que escreve não tem a ideia de um livro, tem as mãos vazias, a mente vazia, e dessa aventura do livro ela conhece apenas a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, distante, com suas regras de ouro, elementares: a ortografia, o sentido.

Le Vice-consul é um livro que gritou, sem voz, por todo lado. Não gosto desta expressão, mas quando releio o livro eu a reencontro, qualquer coisa desse tipo. É verdade, o vice-cônsul berrava todo dia... mas de um lugar secreto para mim. Como se reza todo dia, ele todo dia berrava. Isto é verdade, gritava com força e pelas noites de Lahore ele disparava nos jardins de Shalimar para matar. Não importava quem fosse, mas matar. Ele matava por matar. A partir do momento em que não importava quem fosse, a índia inteira podia se achar em estado de decomposição. Ele berrava em casa, na Residência Oficial, e quando estava sozinho na noite negra de uma Calcutá deserta. Ele está louco, louco de inteligência, o vice-cônsul. Ele mata Lahore todas as noites.

Nunca o encontrei em outro lugar, não o encontrei senão dentro do ator que o representava, meu amigo, o genial Michael Lonsdale — mesmo em seus outros papéis, para mim, ele ainda é o vice-cônsul da França em Lahore. É meu amigo, meu irmão.

É no vice-cônsul que eu acredito. O grito do vice-cônsul, “a única política”, ele também registrou-se aqui, em Neauphle-le-Château. Foi aqui que ele a chamou, a ela, sim, aqui. Ela, A. M. S. Anna-Maria Guardi. Foi ela, Delphine Seyrig. E todas as pessoas do filme choravam. Eram lágrimas livres, sem noção do sentido que possuíam, inevitáveis, as lágrimas verdadeiras, as lágrimas da gente da miséria.

Chega um momento na vida, e acho que isso é fatal, do qual não se pode escapar, no qual tudo é posto em dúvida: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Não as crianças. As crianças jamais são colocadas em questão. E essa dúvida cresce a nossa volta. Essa dúvida existe sozinha, é a dúvida da solidão. Nasce daí, da solidão. Já se pode nomear a palavra. Acho que muita gente não é capaz de suportar isso que estou dizendo, fugiriam. Talvez este seja o motivo por que todos os homens não são escritores. Sim. Esta é a diferença. Esta é a verdade. Nada além disso. A dúvida é escrever. Portanto, é também o escritor. E com o escritor o mundo inteiro escreve. Sempre se soube isso.

Também acho que sem esta dúvida primordial sobre o gesto da escrita não existe solidão. Ninguém jamais escreveu a duas vozes. Foi possível cantar a duas vozes, e também tocar música, e jogar tênis, mas escrever não. Jamais. De saída, fiz livros chamados de políticos. O primeiro foi Abahn, Sabana, David, um dos que me são mais caros. Creio que isso é um detalhe, o fato de um livro ser mais ou menos difícil de guiar do que é a vida comum. A dificuldade é uma coisa que simplesmente existe. Um livro é difícil de guiar, na direção do leitor, na direção da sua leitura. Se eu não tivesse escrito, teria me tornado uma alcoólatra incurável. Trata-se de um estado prático, achar-se perdido sem poder mais escrever... É aí que se bebe. A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que perder, aí é que se escreve. Ao passo que o livro está ali, e grita, exige ser terminado, exige que se escreva. A pessoa se vê obrigada a se colocar a seu serviço.

É impossível escapar de um livro, antes que ele esteja afinal escrito — ou seja: sozinho e livre de você que o escreveu. É tão insuportável quanto um crime. Não acredito nas pessoas que dizem: “Rasguei meu manuscrito, joguei tudo fora.” Não acredito nisso. Ou o que estava escrito não existia para os outros, ou não era um livro. E sempre se sabe quando não é um livro. Se chegará um dia a ser um livro, não, isso nunca se sabe. Nunca.

Quando ia me deitar, cobria o rosto. Eu tinha pouco de mim mesma. Não sei como não sei por quê. E por isso bebia álcool antes de dormir. Para me esquecer de mim. Isso passa num instante pelo sangue, e depois vem o sono. A solidão alcoólica é angustiante. O coração, sim, é isso. De repente ele começa a bater ligeiro demais.

Tudo escrevia quando eu escrevia na casa. A escrita estava por todo lado. E quando via os amigos, às vezes mal os reconhecia. Houve muitos anos assim, difíceis, para mim, dez anos talvez, foi quanto durou. E quando os amigos, mesmo os mais queridos, vinham me ver, também era terrível. Não sabiam nada de mim: me queriam bem e vinham por gentileza, acreditando que me faziam bem. E o mais estranho era que eu não pensava em nada disso.

Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior à vida. E sempre a reconhecemos, é aquela das florestas, tão antiga quanto o tempo. O medo de tudo, algo distinto e ao mesmo tempo inseparável da própria vida. Encarniçado. Não se pode escrever sem a força do corpo. É preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita. É uma coisa gozada, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, é o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, os gritos dos cães. É a vulgaridade maciça, desesperadora, da sociedade. A dor, é também Cristo e Moisés e os faraós e todos os judeus e todas as crianças judias, e é também a bondade mais violenta. Sempre, acredito nisso.

Esta casa em Neauphle-le-Château, comprei-a com os direitos da adaptação do meu livro Un Barrage contre le Pacifique para o cinema. Ela me pertencia, ela estava em meu nome. Essa compra precedeu a loucura da escrita. Uma espécie de vulcão. Acho que esta casa é assim para muitos. Ela me consola de todas as dores da infância. Quando a comprei, soube logo que tinha feito alguma coisa importante, para mim, e definitiva. Alguma coisa só para mim e para meu filho, pela primeira vez na vida. E me dediquei à casa. Limpei-a. Fiquei bastante “ocupada” com ela. Depois, quando embarquei nos meus livros, me ocupei menos.

A escrita vai muito longe... Até se acabar. Às vezes é algo insustentável. De súbito, tudo adquire um sentido em relação à escrita, é de deixar a gente doida. As pessoas que conhecemos não as conhecemos mais, e aquelas que não conhecemos, achamos tê-las visto antes. Não há dúvida de que eu estava já simplesmente, e um pouco mais que os outros, cansada de viver. Era um estado de dor sem sofrimento. Não tentava me proteger dos outros, sobretudo das pessoas que me conheciam. Não era triste. Era desesperado. Eu tinha embarcado no trabalho mais difícil da minha vida: meu amante de Lahore, escrever sua vida. Escrever Le Vice-consul. Precisei dedicar três anos a este livro. Não podia falar do assunto porque a menor intrusão no livro, a menor informação “objetiva” teria apagado tudo do livro. Uma outra escrita, corrigida, teria destruído a escrita do livro e o que eu sabia de mim em relação ao livro. Essa ilusão que se tem — e que é justa — de ser o único que escreveu o que está escrito, seja uma nulidade ou uma maravilha. E quando lia os críticos, a maior parte do tempo eu me achava sensível ao fato de que se dizia que aquilo não se parecia com nada. Quer dizer que aquilo vinha ao encontro da solidão inicial do autor.

[In Escrever.  Trad. Rubens Figueiredo, Rio de Janeiro,  Ed. Rocco,  1999, pp. 18-24]


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