quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Mariana Ianelli

O ENREDO DO CÃO
Nenhuma oração foi necessária
Para dizer como tua angústia se pôs nua,
De coxas nuas, desnutridas e surradas.
De quanta monotonia este enredo é feito
Que prevê a escuridão das tropas de combate
Mas não lamenta a tua consciência enfraquecida,
Teu brilho moreno se apagando,
Porque maior é o repouso do corpo, e mais precioso,
Quando o sangue já se esvaiu desperdiçado ...
De quanta sabedoria este enredo é feito
Que restaura um exército de sua culpa e sua couraça
E desenrola a bandeira da trégua sobre ti
No instante em que nada mais te contentava ...

Ter o sono brutal será também teres te apagado um pouco,
Mas afinal toda vida que fulgura, para fulgurar consome.


Nas galerias ocultas do medo eu me contive,
Não ousaria elevar meu grito de inocência.
Tantas vezes ostentei os meus cuidados
Em conservar o rebanho e os campos de trigo
Como se todos habitassem um só corpo
Que a ocasião da felicidade protegesse
E foi num sopro que acabei exterminado,
Vivendo entre a espada, o luto e uma elegia.
O pastoreio que difundia minha glória pelos montes
Não perdurou como eu imaginava,
Um fenômeno tenebroso vingou sobre minha fé
E o caos no céu encobriu as minhas idades.
Para mim estava aberto um só atalho
Onde os desenganados jamais dormem,
Uma confusão de braseiro, infâmia e dissonância
Que fui obrigado a tolerar desde o princípio
Sob o pavor de uma tragédia ainda mais dura
Que me dobrasse em partes irreconciliáveis,
Perdidas do eixo do meu peito manso,
Perdidas da minha condição elementar de humanidade.
Eu não sabia que um argumento verdadeiro é pouco
Se avaliado dentro de um extenso jogo de discursos,
Não compreendia as armadilhas do fogo,
Nem carecia de um motivo para cantar.
Fui um dos imprestáveis que devolveu a carne à orgia,
Que se hospedou na cave das madonas libertinas,
E não por divertimento ou bizarria,

Mas porque a invalidez havia me assaltado até a vertigem
E todo brilho de areia que por ventura eu entrevisse
Emanava para mim de alguma aurora doentia.
Hoje sou o errante que civiliza o vácuo.
Tenho olhos que miram a exuberância da erva-doce
Mas dela só enxergam um grosso punhado de sarça.
Um rival entre os parentes,
Qualquer anônimo dentro do meu pesadelo,
Os braços da fome emergindo dos meus panos,
Imundice que desperta de um puro sentimento,
O revés da alma, antes meu conteúdo imenso,
Seiva subindo pelo organismo, seiva descendo,
Uma caça devorada pelo abutre, ainda quente,
Estas ruínas que transporto inutilmente.
Nem promessa de luz, nem melancolia:
Um fantasma já não medita sobre o seu tempo.
Enquanto limpo o meu terreno do joio,
O maldito se aproxima, muito cavalheiresco,
E com as patas em torno do cabo da forquilha
Ele sugere me ajudar com o arado.
Eu me pergunto se acaso este veneno
Que se espalha com perigosa lentidão
Descerá tão fundo ao limite da inclemência
Até me transformar num vadio
A quem nada importa ter-se habituado à desgraça.
As idéias que antigamente me agitavam
Não produzem mais nenhum brilho exultante
Porque a minha prisão neste lugar do Oriente
Contesta toda possibilidade de amor

E induz qualquer pequeno gesto de brandura ao ódio.
De outrora só restou a matriz do indivíduo
Que disseminava aos ventos o seu afinco,
Sua identidade missionária e sua completa retidão.
As regalias da serenidade,
A juventude na orla viçosa dos campos,
O fruto do labor amealhado por anos,
Tudo se pulverizou com a minha queda.
Temo pela evasão do pensamento lúcido,
Eu enfraqueço tão apressadamente,
Coberto de humilhações, aleijado.
Quase permito que o corvo encontre em mim
Um porto para a sua miséria peregrina.
No entanto, estes membros são todos nudez,
Por nenhuma contenda eu pegaria em armas:
A minha razão é a singular vara da batalha.
Já não peço o contrário desta noite - eu silencio.
Venham os comandos dianteiros da artilharia,
A chuva insurgente de invernada, o seu granizo,
Caiam todos sobre mim: eu subsisto.
Não devo profanar as minhas conquistas, se as perdi,
Nem temer se me reduzem a um insensato que delira.
Porque suportei o incêndio e a sangria
E foram mensagens torturantes que aceitei,
Sem por isso professar a minha nostalgia,
Porque me deitei no pó e ali me calei por sete dias,
Mereço encurtar as fronteiras do destino:
- Este é o meu único pedido.

Do livro Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, pp. 19-23.





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