sábado, 29 de setembro de 2012

Cecília Meireles

EVELYN
Não te acabarás, Evelyn.

As rochas que te viram são negras, entre espumas finas;
sobre elas giram lisas gaivotas delicadas,
e ao longe as águas verdes revolvem seus jardins de vidro.

Não te acabarás, Evelyn.

Guardei o vento que tocava
a harpa dos teus cabelos verticais,
e teus olhos estão aqui, e são conchas brancas,
docemente fechados, como se vê nas estátuas.

Guardei teu lábio de coral róseo
e teus dedos de coral branco.
E estás para sempre, como naquele dia,
comendo, vagarosa, fibras elásticas de crustáceos,
mirando a tarde e o silêncio
e a espuma que te orvalhava os pés.

Não te acabarás, Evelyn.

Eu te farei aparecer entre as escarpas,
sereia serena,
e os que não te viram procurarão por ti
que eras tão bela e nem falaste.

Evelyn! — disseram-me, apontando-te entre as barcas.

E eras igual a meu destino:

Evelyn — entre a água e o céu.
Evelyn — entre a água e a terra.
Evelyn — sozinha — entre os homens e Deus.

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 244-245

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