sábado, 15 de setembro de 2012

Mário Faustino


ONDE PAIRA A CANÇÃO RECOMEÇADA
Onde paira a canção recomeçada 
No capitel de acanto de teu lar?
Onde prossegue a dança terminada 
Nas lajes de meu tempo de chorar?
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia 
Conto os astros que faltam no horizonte 
Da praia soluçante onde passeia 
A espuma de teu fim, pranto sem fonte. 
Oh juventude, um pálio de inocência 
Jamais se estenderá sobre outra aurora 
Mais clara que esta clara adolescência 
Que o lupanar da noite hoje devora:
Que vale o lenço impuro da elegia Sobre teu rosto, lúcida alegria?


EGO DE MONA KATEUDO
Dor, dor de minha alma, é madrugada 
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada 
Memória arfante donde alguém que chamo 
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega 
Noite ambulante. E escuto-te o mugido, 
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amor, enquanto luzes, puro, 
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro, 
Ouvindo as asas roucas de outro dia 
Cantar sem despertar minha alegria.

In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, pp. 88-89

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