sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Olga Orozco


LAMENTO DE JONAS
Este corpo tão denso com que fecho todas as saídas,
este paletó de sombras costurado às minhas duas asas
não me impede de ir até o fundo de mim:
uma noite fechada onde se refletem todas as miragens da noite,
umas águas absortas onde molha seus pés a esfinge de outro mundo.

Aqui costumo encontrar vestígios de outra idade,
fragmentos de panteões não dissolvidos pelo sal de meu sangue,
oráculos e faunas aspirados pelas cinzas de meu porvir.
Às vezes aparecem continentes voando, plumas de outras roupagens submersas;
Às vezes permanecem quase como o anúncio da ressurreição.

Mas é melhor não estar.
Porque aqui há armadilhas.
Alguém brinca de não estar quando eu estou
ou me observa das tocas de cada solidão.
Alguém simula um fosso entre o sonho e a pele para que me
deslize até o último abismo dos outros.
 Ou me induz a escavar debaixo de minha sombra.

É difícil sair.
Me tampam com um muro que só corre em direção ao nunca, jamais;
me escolhem para morrer lentamente;
me amaram às veias de um organismo cego que me exala e
me aspira sem cessar.

E o coração no entanto,
onde o coração, o tambor de saudades
que convoca em trevas a todos os relevos?
Para não falar deste corpo,
deste guardião opaco que me transporta e me retém
e me lança consigo em uma náusea dos pés à cabeça.

Sou meu próprio refém,
o lento refugio do veneno do verdugo,
o pacto com a morte.
E quem acaso disse que este seria um lugar para mim?


Fonte: Olga Orozco, Poesía Completa, Adriana Higaldo Editora: Buenos Aires, 2011, pp. 162-163.
Tradução: José Pires Cardoso e Antonio Damásio Rêgo Filho 




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