segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Maria do Sameiro Barroso

O INCÊNDIO PURO
Nascer, quando orquídeas de sangue flutuam
nas tuas mãos, silvas pelos muros,
exultante, a febre, a água, a imensidão,
as pálpebras fechadas,
Rogério Ribeiro
a música despenhando-se pela boca, pela erva,
no galope silencioso da lua, do orvalho,
a apoteose secreta lavrando a pele, os lírios,
a tuberosa lassidão.

Nas resinas da noite, nascer, na tua boca,
o pranto, o riso, a agonia.
Nascer, a face toda, o canto aceso, a areia,
o barro, o canto dos pássaros,
o perfume das árvores, das flores
(tílias, laranjeiras),
o já vivido, o nunca vislumbrado,
a gota sonolenta, as rédeas soltas,
os corcéis de seda percorrendo a terra,
o mar, os veios, a pedra,

o sonho inteiro. 

TATUAGEM
Cabeleira de sangue, vinho de tâmaras, substâncias
mágicas.
E nós, tatuados um no outro, perdidos para sempre.
Dá-me a tua mão. Quem sabe?
E doces serão as roseiras, a vertigem da noite,
a crineira de névoa,
ou os versos que escrevo, sobre verde malaquite,
nos torreões de sono.

Cabeleira de sangue, cabeleira de fogo, linfa cindida,
crineira errante.
Mágicas eram as serpentes líquidas.
E nós vivíamos entre as algas, as plantas venenosas,
os leves colibris.
Nesse tempo, eu gostava de sumo de maçã,
morangos, cogumelos.
Tu falavas de jasmim.

Cabeleira de sol, crineira de gelo, vinho nocturno.
E nós, tatuados nas estrelas,
as cigarras escrevendo os seus hinos
sobre os nossos corpos,
suas vozes rimando, como textos,
o mar embalando os búzios do sonho.

Cabeleira obscura, cabeleira negra, cabeleira
fresca.
E nós, acordando sobre os jardins de orvalho,
nada sabíamos das nuvens, da ímpar fusão,
do jasmim de névoa.

Algo precisava de se cumprir.

Sobre Maria do Sameiro Barroso

Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, pp. 52-53.


AS CENTELHAS DO LUME
Como o fulgor dos oceanos, revivo um corpo,
o seu nome, o lume que nos insectos lateja,
quando a chuva preenche a terra, o seu tumulto,
em busca das aves que partem,
na febre migratória de conhecer o fogo, o céu.

O conhecimento é então a comunicação aberta,
vertida no éter dos sonhos.
Na boca, salpicada de mar,
o húmus é a habitação dos grandes relógios,
o amor, a grande ambição do tempo,
o céu o seu umbigo mágico,
que o sol acompanha,
com suas guitarras de luar.

Na volatizada estrela, há um tremor
que a música fere, nas centelhas esquecidas,
sob os vulcões onde o coração resplandece,
na terra incendiada,

coberta de mágicos perfumes.

Poemas da Noite incompleta, Ed. Escrituras: São Paulo, 2010, p. 114. 

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