domingo, 2 de dezembro de 2012

Adriana Lisboa

RETIRO
Mesmo o verde do deserto é marrom. Corvos voam sobre a estrada enquanto Angela me conta que perdeu todos aqueles a quem amou. Minha pele está seca, descarna no rosto e nos dedos das mãos.

Disseram-nos para tomar cuidado com as cobras-cascavel. Também avisaram que uma viúva-negra foi encontrada ontem no banheiro.

Esta é a Grande Montanha Escondida. Descemos pela estrada empoeirada até Melru Lane, onde há aquelas casas espalhadas, sem muros, com bandeiras no jardim. Americanos gostam muito de bandeiras. Uma das casas parece um brechó e tem cabaças amarradas numa árvore seca, uma imensa Pantera Cor-de-Rosa de papelão, um mexicano de barro dormindo embaixo de seu sombrero, um monte de quinquilharias pelo jardim. Nessa casa não há bandeiras.

Na volta, estão nos esperando para trabalhar na cozinha. O monge simpático pergunta meu nome. Que bonito, comenta, para depois acrescentar que antes de ser ordenado chamava-se Adrian.

Cantamos. Depois vamos dobrar panos de prato azuis sob o sol.

[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 81]

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