sábado, 19 de janeiro de 2013

George Bernanos

EXCERTO DE "SOB O SOL DE SATÃ"

Não era a paz, pois a verdadeira paz
é o equilíbrio das forças
e a certeza interior que dela brota
como uma chama.
Quem encontrou a paz não espera mais nada,
e ele, ele estava na expectativa de algo novo
que romperia o silêncio.
Não era o cansaço de uma alma exausta
que encontra o fundo da dor humana e ali repousa,
pois ele desejava mais.
E tampouco era a anulação de um grande amor,
pois no desligamento de todo o ser
o coração ainda está em vigília
e quer dar mais do que recebe...
Mas ele não queria nada:
ele esperava.

A princípio foi uma alegria furtiva,
inalcançável,
como que vinda de fora,
rápida, insistente,
quase inoportuna.
O que temer ou o que esperar
de um pensamento não formulado, instável,
do desejo leve como uma centelha?...
E contudo, assim
como no arrebatamento da orquestra
o maestro percebe a primeira
e imperceptível vibração da nota errada,
porém tarde demais para deter sua explosão,
assim também o vigário de Campagne não duvidava
de que havia chegado aquilo que ele esperava
sem conhecer.

Através das vidraças embaçadas,
o horizonte sob o céu apresentava
apenas um contorno vago, quase obscuro,
e, todavia, no pequeno aposento,
aquele dia de inverno tinha uma claridade leitosa,
imóvel, cheia de silêncio,
como se fosse vista através da água.
E, com certeza absoluta,
o abade Donissan sabia
que aquela inatingível alegria era uma presença.

Esvaecida a angústia, pouco a pouco
surgiram-lhe na lembrança pensamentos
que antes a haviam suscitado,
mas esses pensamentos agora
não tinham força para atormentá-lo.
Após um primeiro impulso de horror,
sua memória amedrontada deixou-os
aflorar um a um, com prudência,
depois apoderou-se deles.
Ele se inebriava ao senti-los domados,
inofensivos, transformados
nos humildes servos
de sua misteriosa alegria.

De repente,
tudo lhe pareceu possível,
e o mais alto degrau fora galgado.
Eis que uma mão o arrancara
do fundo do abismo,
onde se julgara preso para sempre,
e levara-o para tão longe
que ali reencontrava sua dúvida,
seu desespero, suas próprias falhas
transfiguradas, glorificadas.
Haviam-se aberto as fronteiras do mundo
onde cada passo à frente
é pago com um esforço doloroso,
e o fim chegava-lhe
com a rapidez do raio.

Essa visão interior foi breve,
mas deslumbrante.
Quando terminou, pareceu
que tudo ficava sombrio de novo,
mas ele vivia e respirava
na mesma luz suave, e a imagem entrevista,
depois perdida,
deixava atrás de si
um pressentimento inefável,
em lugar de uma certeza
cuja volúpia,  ele sentia,
lhe teria partido o coração.
A mão que o conduzira
afastava-se ligeiramente,
mantinha-se perto, ao seu alcance,
não o deixaria mais...
E o sentimento dessa misteriosa presença foi tão vivo
que ele bruscamente virou a cabeça,
como para encontrar  o olhar
de um amigo.

Obs.: Dei a este texto o meu ritmo. Por favor, não o reproduza nesse formato.... É fragmento de um romance, prosa poética. Não resisti à tentação de versificá-lo.

[Sob o Sol de Satã, tradução de Hildegard Feist, Rio de Janeiro: Ed. Globo,  1987, pp. 102-103]



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