terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Maria do Sameiro Barroso

O CORPO E OS SEUS LUGARES
Fermenta a mudança, a escrita, o feltro, os filtros e as atmosferas.
Fermenta a noite, errante, com os cabelos errantes
errando, os olhos narrativos,
o corpo desencadeando a forma e a matéria, os olhos fermentando
as linhas distorcidas, as fábricas e as atmosferas;

o corpo e os seus lugares registando as formas de envolver o sangue,
os fluidos errando, enlaçados,
os ritmos loucos desatando o crânio, o peito e a duração dos meses.

Numa noite suave, os violoncelos na penumbra,
os joelhos nascendo, entre a luz e as teclas, os aulos e os clavicórdios.
Caldeiras. Morcegos bruxuleando.
Os joelhos errantes errando numa Hexenlied de Mendelssohn,
as arcas cindidas juntando as trovas e os cabelos,
os joelhos e o corpo, os versos e a minha biografia
fundindo-se, numa simbiose luminosa.

Por vezes, o corpo tem linhas, instantes, lugares e neblinas
no silêncio que anuncia o fogo,
numa atmosfera verde, sublimada, nos momentos parados,

e os poetas têm olhos fundos, onde o peito se evapora,
pelo líquen cego arrancado à convulsão dos dias,
pelas harpas que dizem o corpo e a sombra,
um hálito de estrelas, a luz errante

e as umbelas límpidas, junto às umbreiras matinais.

In “Idades Sonâmbulas”

OS AMANTES DA NEBLINA
“Et tu boies cet alcool brûlant comme la vie”
Guillaume Apollinaire


Ecutas a penumbra, as veias quentes, os pântanos soltos,
a turva região, a cabeça lentíssima,
um caudal de lava que começa pelos olhos e invade
os lençóis negros.
Rarefeito é o ar e o corpo cria as suas dádivas,
as trepadeiras assinalam-te, trazendo o eco das regiões
nocturnas.
O ébano retrai-se, a realidade transforma-te.
Voam para longe os atormentados pássaros
que o olhar dilacera.
Olho os feixes magnéticos, os figos dulcíssimos.
As lareiras criam raízes terríveis e envolvem o corpo
numa língua exótica, numa evidência de musas.
E invento-te, a ti, amante da neblina,
porque Novembro é um silêncio atroz, uma casa nas nuvens,
um gemido que acorda e invade os lençóis negros,
sobre uma evidência putrefacta.
As pérolas são longos e meditabundos silêncios.
Com elas enlouqueço.
Os pulsos escondem-se na penumbra.
Talvez pelos círculos, os laços, a sucessão das bagas,
de romãs e crisântemos.
Talvez pelos círculos, as palavras e as luzes se fechem,
em uníssono, num álcool incessante,
com o respirar das candeias.


In "Amantes da Neblina"
Pierre Bonnard

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