quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Olga Orozco

"PAVANA PARA UNA INFANTA DIFUNTA"

Para Alejandra Pizarnik

Pequena sentinela,
Mais uma vez te perdes pela fenda da noite
Munida apenas de olhos abertos e terror
Contra os invasores insolúveis no papel em branco.
Eles eram legião.
Legião encarniçada era seu nome
E se multiplicavam enquanto te desfazias até o último alinhavo,
Encurralando-te a ti mesma contra as teias vorazes surgidas do nada.
Aquele que cerra os olhos se converte em morada de todo o universo.
Aquele que os abre delimita as fronteiras e permanece ao vento e à chuva.
Aquele que anda na linha não encontra o seu lugar.
Insones como túneis para provar a inconsistência de toda a realidade;
Noites e noites varadas por uma só bala que te crava no escuro,
E a mesma tentativa de reconhecer-te ao despertar na memória da morte:
Essa tentação insidiosa,
Esse anjo adorável com focinho de porco.
Quem falou de conjuros para aplacar a ferida do próprio nascimento?
Quem falou de subornos aos emissários do futuro?
Somente havia um jardim: no fundo de tudo há um jardim
Onde se abre a flor azul do sonho de Novalis.
Flor cruel, flor vampira,
Mais ardilosa que a cilada oculta na lanugem do muro
E que jamais se alcança sem deixar a cabeça ou o resto do sangue no umbral.
Mas te inclinavas como que para cortar essa flor onde os teus pés não tinham chão,
Abismos adentro.
Pretendias trocar essa flor pela criatura faminta que te desabitava.
Levantavas pequenos castelos devoradores em sua homenagem,
Te vestias de plumas desprendidas da fogueira de qualquer paraíso possível,
Adestravas animaizinhos perigosos para roer as pontes da salvação;
Te perdias como a mendiga no delírio dos lobos;
Experimentavas linguagens como ácidos, como tentáculos,
Como cordas nas mãos do estrangulador.
Ah, os desastres da poesia, com o fio da aurora te cortando as veias,
E esses lábios exangues se envenenando da vacuidade da palavra!
E de repente não há mais.
Romperam-se os frascos.
Estilhaçaram-se as luzes e os pincéis.
Rasgou-se o papel com um dilaceramento que te faz cair por outro labirinto.
Todas as portas são para sair.
Tudo agora é o avesso dos espelhos.
Pequena viajante,
Solitária com o teu relicário de visões
E o mesmo insuportável desamparo sob os pés:
É certo que clamas por entrar com tuas vozes de afogada,
É certo que sobre ti tua sombra imensa te detém, buscando outra,
Ou que tremes diante de um inseto, cujas membranas cobrem todo o caos,
Ou te amedronta o mar, que cabe ao teu lado nesta lágrima.
Mas te digo novamente,
Agora que o silêncio te envolve duas vezes em suas asas como um manto:
No fundo de todo jardim há um jardim.
Eis teu jardim,
Talítha kum.

In Olga Orozco, Poesía Completa, Buenos Aires: Adriana Higaldo Editora: , 2011, pp. 255-257.


"Os que chegam não me encontram
Os que espero não existem". (Alejandra Pizarnik)

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