domingo, 27 de janeiro de 2013

Paulo José Miranda

DA CORRUPÇÃO DOS CORPOS
À saída da cidade bizantina, depois das Muralhas de Teodósio
o mar de Mármara e as janelas (enormes laranjas brilhantes
penduradas nas altas árvores de betão e famílias no lado de lá, na Ásia)
que lembram os olhos a arder ao fim de mais um dia

depois de se largar a solda e antes de se deixar a oficina.
Com um só cigarro, restava-lhe pôr-se a andar
ao contrário dos carros, em busca de peixe e Raki.
Toda a terra é estrangeira, se não houver

uma gota de álcool e uma língua que se cale,
as pequenas coisas com que se desperdiçam os dias
e se inventa a eternidade ou uma noite de sexo à tarde.
Do Mar Negro, chegaram

um maço de cigarros e um prato de anchovas.
Juntou-se ao velho que cantava versos dolentes
acerca da corrupção dos corpos e de raparigas.
Com a neve a derreter, os carros

ficam cobertos de um gelo mal semeado
como a barba dos velhos quando acordam
com os olhos e as ruas enlameadas pelo peso dos passos.
Partilharam a mesma garrafa,

palavras sem decência alguma,
folhas de agrião a moverem-se nos lábios
e um isqueiro como dados de gamão.
Eram dois irmãos filhos de um pai inexistente,

despediram-se para nunca mais.
A beleza branca e macia da neve (que quase sempre mata)
já não cobre a noite nem de silêncio nem de vontades ferozes
de se pegar num corpo qualquer e perfurá-lo,

como se essa vida fosse o dente que nos maça.
Ainda assim não procurou a casa, seguiu as velhas ruas de Gálata
decidido a pagar para ouvir alguém fingir prazer,
como se fingir não fosse realmente natural.

(O Tabaco de Deus, Edições Cotovia: Lisboa, 2002, pp. 37-38)

***

Esforça-te para que saibam que o
[mundo começou de vez
Estende uma palavra amável ao
[transeunte
E o luxo anacrónico de um sorriso
Àquele que falar mal de ti
Perdoa – o com a ternura de falar bem
[dele
Segue pela rua não esquecendo nunca
Essa missão dura e difícil que tens
[pela frente
Ainda que te esbofeteiam te
[espezinhem te humilhem
És e serás sempre o profeta do
[humano
Aquele que anuncia a chegada do
[mundo

***

Ninguém diria que trazias o cheiro
Dos últimos começos
Da primeira apanha de frutas das
[nossas árvores
Ninguém diria que cheiravas ao
[momento
Em que por fim
O enfermo abre a janela e deixa
[entrar o ar fresco
A prometida e bela manhã tantas
[vezes sonhada
Que faz renascer a vida e seus
[atributos
Ninguém diria que serias o Sol
E sua chama acesa bem alta
Queimando a pele humana
Desgastando todos os outros animais
Deixando o dia e que girar á sua
[volta em cinzas
Ninguém diria que tudo irá acabar
Numa cova profunda e escura
De tão escura que um ou outro
[insecto
Parecerá uma estrela

Fonte: http://manuthinkerfree.blogspot.com.br

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