segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Giuseppe Ungaretti

OS RIOS
Agarro-me a esta árvore mutilada
abandonada nesta ribanceira
que tem o langor
de um circo
antes ou depois do espectáculo
e observo
a quieta passagem
das nuvens sobre a lua

Hoje de manhã estendi-me
num caixão de água
e como uma relíquia
ali descansei

Como uma das suas pedras
a corrente do Isonzo
alisava-me

E ergui as minhas
ossadas
e caminhei
como um acrobata
por cima da água

Junto das minha roupas
sujas de guerra
acocorei-me
e como um beduíno
verguei-me
e recebi o sol

Este é o Isonzo
foi aqui que descobri
finalmente quem sou:
uma dócil fibra
do universo

O meu suplício
aumenta
quando não me encontro
em harmonia

Mas estas mãos
ocultas
que m’amassam
oferecem-me
a rara
felicidade

mais uma vez
percorri a época
da minha vida

Estes são os
meus rios

Este é o Serchio
dele se alimentaram
durante dois mil anos talvez
as gentes da minha terra
e o meu pai e minha mãe

Este é o Nilo
que me viu nascer e crescer
e arder
sem consciência
nas longas planícies

Este é o Sena
e de novo misturei-me
no seu turbilhão
e assim me reconheci

Estes são os meus rios
contados à beira do Isonso

Esta é a minha nostalgia
com que cada rio
me trespassa
agora que já é noite
e que a minha vida parece
uma corola
de trevas

Versão de Luís Costa 

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