quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sérgio Cohn


PATHOS
O sopro de veneno no ouvido. O jorro
impossível assaltando os olhos. Luzes
intermitentes. Tantas luzes
no azul manto escuro. Um passo,
então silêncio. Uma árvore
se sobressai no mercúrio. O verde
de tantos matizes, a cadência
dos tons. Rico universo
de uma só cor
e tantas dimensões pressentidas.
Uma árvore. Poderia chamar-lhe
Pau-ferro, Caesalpinia ferrea
mas é uma apenas uma árvore
à beira do caminho.
Catedral ao avesso, sacraliza o ao redor.
As formas tatuadas no seu tronco,
rostos tão estranhos. Uma folha cai.
É possível perceber nosso semblante
em suas nervuras, a reciprocidade
do espanto. Ou sentar-se
a observar os cristais de orvalho,
mônadas no ventre do tempo.
Uma árvore, convite.
Nela ver o mundo,
missiva do imponderável.
 
Fonte: Poetas na Biblioteca Antologia, São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2001, p. 52

Sérgio Cohn nasceu em São Paulo, em 1974. Poeta e editor da revista de poesia Azougue. 

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