sábado, 30 de março de 2013

Henrique Dória

SOMOS APENAS ÁGUA
Somos apenas água dentro
Da ânfora.
É da ânfora a nossa forma
A nossa luz e a nossa sombra.

Estamos para ser
Bebidos
Ser o alimento das rosas
E a saliva do cão

-o bico da rola
que abre a música dentro do cristal.

Somos para ser despejados na rua
Ou, tão só, nos perdermos dentro dos tubos escuros
Misturados em urina e fezes.

E, no entanto, a água que somos
Torna brancas as escadas de mármore
E tantas vezes arde
Até ao incêndio.

CEDO
Cedo
Foste atirado
Para as florestas de chumbo
Onde todos nos iremos encontrar
Sem nos conhecermos.

Galerias de água negra 
Se abriram nos teus olhos 
Quando círculos e círculos 
Te sorveram.

Não
Não era hoje o dia mais propício
Para morreres
Com um doce coágulo de sol
Na fronte.

QUE A ESCADA TE SIRVA 
Que a escada te sirva
Para alcançares o Monte Ararat.
Que a vieira te sirva
Para beberes o mar.
Todos somos o teu bordão.

Planta uma árvore 
Sobre o mar vermelho
Planta-a dentro do triângulo
Planta-a 
Para que cresça sobre o fel sufocado 
Entre a lua e o sol.

DESPEDE-TE DA CASA
Despede-te da casa
Para ires ao encontro do bosque do mundo
Despede-te do espelho
Para ires ao teu encontro
Despede-te de ti
Para ires ao encontro do branco-nada.
Antes de partires tapa com lenços negros
Os orifícios do teu corpo
Tapa-os com lenços vermelhos

E envolve-te em argila marinha

Se queres que o teu caminho
Seja um poema mais tarde.

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