quinta-feira, 14 de março de 2013

Lélia Coelho Frota

EMPECILHO
Dura efígie que interfere 
em seu mais ínfimo gesto
artifício negador
suprimindo amenidades
armazenadas em azul
cor de flor primaveril.

Artifício volantim
equivocando emoções
(eis a troca sub-reptícia!).
Onde era lume, o fastio
resignado dos legumes
disciplinados em horta.

Sol, que não era, mas um
florim esculpido em blau
irradiando cordura
para as gentes sem paixão
é planeta moderado
a medir luz, donativo.

Fino cicio da grama
sugerindo proporções
de amar que se harmonizassem
ao segredo da paisagem
é verde epitáfio, e talha
sob placidez nossa face
devaneio choro talhe.

Violinha sonantinho
para nosso pé dançar
é pífaro intermitente
convidando a meditar.

Minuto que atrairia
o poema, a flor arisca,
se estilhaça no tinteiro
atrasa a memória pouca:
é fascículo incompleto
o livro que esmeraríamos
limitados, pobres, tensos,
desmedidamente avaros
fixos em lenta dolência
de navio sob pilhagem
a tentar fugas na brisa
mas contido no pesado
calado de sua rota
cor, velame, referência.

É partícula de tédio
e desencontro, letreiro
de nítidos argumentos
carreando senso ao denso
panejamento de amar.
É trave, é pílula grave
que assimilamos, desgosto
mudo, severo, pausado
a afiar no coração
seu dente de interferência
madureza e abstenção.

[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 56]

Siron Franco

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