sexta-feira, 15 de março de 2013

Maria do Sameiro Barroso

COMO UM DITIRAMBO
Desperto, num limiar sonâmbulo, imóvel, quase opaco,
como se o mar me acordasse, nas suas lâmpadas,
e no seu fulgor me enredasse, nos seus búzios claros 
de ardor e doçura.
Entre ossadas, cimento e música, uma árvore brilha,
entre as muralhas irredutíveis de outro tempo.
No sabor de mangas, coco, a lua acorda-me,
cheia de cristais pendentes, qual árvore enamorada,
leito de gatos macios, silêncio onde um suspiro
se extingue, num novo rumor, que de novo se inicia.
No limiar da bruma, as névoas separam-se.

Como um ditirambo, a luz soletra a rota de Dioniso,
Alexandre, à beira do Hidaspes.
Nos vitrais exóticos, à luz de um candelabro,
vislumbro anis, alaúdes, elefantes de magia.
Na noite, acendem-se as jóias obscuras de secreta
alquimia.
Junto das árvores, onde os pássaros cantam,
pela manhã, a erva-doce preenche o espaço, a boca,
a névoa, onde o peito de asas sôfregas respira.

Há pouco, ânforas vazias eram os meus olhos
e amuletos de luz eram as palavras que segredavam
os navios brilhantes, que alguma palavra selou.
Há pouco, num instante apenas nasceria, se no leito
dos teus rios me banhasse,
numa só noite viveria, se no corpo das algas me espraiasse,
e, num só gesto morreria, se de tuas cisternas de cristal
me apartasse.
Nas torrentes de murmúrios e mel, há um rio
onde anémonas de sangue se associam,
para dizer as palavras transparentes.

Nos desertos onde pairam a lua e hibiscos, o céu murmura
as areias límpidas, as sombras que se desprendem
e as ânforas que se enchem-se, de novo,

no liquor luminoso de preciosos sinais.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


FANTASIA SOBRE UM TEMA BÍBLICO
Escurecem os jardins, as fontes, as cisternas,
apenas a noite e esta mulher, para mim, Saul,
coroado de treva.
Da sombra, igual ao sheol , recebo as insígnias sagradas,
do espírito divino me chega o lírio tenebroso,
a unção da morte,
e qual rebanho entre as macieiras, repouso em ti,
mulher de En-Dor,
porque as harpas tocam e as fontes vivas reclamam
o meu nome,
o meu sangue, o teu silêncio mo diz,
por isso prossigo, por isso me fortaleço
e no teu seio me demoro.
Em ti bebo a sede eterna, porque as harpas sempre
se pareceram com mulheres e as mulheres
com nenúfares, acedendo à noite incandescente,
de nardos e ciprestes.

Amanhã regressarei às pastagens celestes,
Antes sorverei o teu rútilo mel, nos teus umbrais
perfumados,
breve mandrágora, estrela entre os cardos.

secreta flor colhida em En-Gaddi.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


FRAGMENTOS HELÉNICOS
O mar, o vinho e os seus reflexos (as baías do Egeu),
a cal, o húmus, um sol de espigas plenas,
o mistério das coisas simples,
um mundo de dimensões perfeitas.

Depois, as mãos, as raízes, os muros, as manhãs
odorosas.
Uma sílaba exacta semeando um átrio,
a Primavera úbere, o mosto quente de Setembro,
o vinho cristalino, o sabor dos frutos,
cristais de Outono,
Inverno, uma rosa túmida, Eugénio de Andrade.

Como quando li, pela primeira vez
e a poesia me envolveu,
em suas sílabas nocturnas, luminosas,

como girassóis primordiais.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


Para os amigos do outro lado do Atlântico: 

MAGNÓLIA ATLÂNTICA
É de vida que o poeta se nutre, de poemas que vai beber 
aos rios,
por isso as suas palavras são carne, fruto, seiva, essência,
constelação brilhante, semeada entre os livros.
É de vida que o poeta se nutre, do cântico dos pássaros,
de vivências exóticas.

Do outro lado do Atlântico, há brisas doces, água de coco,
palmeiras estivais, e a vida recorta-se, em toda a sua luz,
construindo do nada a sua essência.
Na luminosidade dos dias, releio o Memorial de Aires,
e as lágrimas aguardam, pacientes, num jazigo,
entre momentos lépidos, passados entre Shelley,
Thackery, e Fidelia, qualquer coisa a lembrar Beethoven.

Gosto quando as narrativas se enredam e me enredam,
entre uma carta de alforria, uma referência a Heine,
os jacarandás, o cheiro do café,
ou uma reflexão sobre a abolição da escravatura.

É assim o Brasil; entre araras e araucárias,
também se pode ler Goethe, Fausto (o Prólogo do Céu),
nas brisas mornas, feitas de pedras soltas, limas,
jacarandás, limões de açúcar,
quando o cheiro a tinta das tipografias atravessa as praças,
as ruas, os cafés, o céu perfumado e o vasto oceano,

onde refulge o sal precioso da magnólia atlântica.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009



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