quinta-feira, 28 de março de 2013

Lélia Coelho Frota

AUTOGRAVURA, EM ÁGUA FRÁGIL II
Pelo que fui de riso claro
no estágio de uma primavera
pela doída confidência
impressa em água curiosa
e navegada por estranhos
em sua vã mansuetude
urdiu o tempo o comentário
que para vós é minha imagem:
apenas jovem ocorrência
de olhos risonhos na paisagem.
E com mineira e atra constância
passeio os córregos delgados
em meandro pervago no trilho
dos novilhos de chocolate.
Coração entre mar e Minas
de ligeiro favônio aceno
brinco entre vossa habilidade
de não saber-me (mar ou Minas)
e de tanta fragilidade
efígie de água me desmancho
frêmito leve de suspiro
para surgir no vau tranquilo
do Rio Verde mapeado na
concreta cidade dos morros
onde o universo se resume
no olhar explícito dos bois
e no severo circunlóquio
dos homens pelo território
cinábrio de seu cafezal —
feudo em que o arame é geografia
única de interna valia
e o que o excede é horizonte
onde a atenção não se ilimita:
já é outra jurisdição.
Rios vermelhos e vermelhas
estradas de barro ferido
pelos arados sonolentos
casas de barro, bois de barro
oco, paixão e anjos barrocos
desfazendo-se no passado
como em lenta câmara rubra
a resumir tudo em difusa
mancha de quem encara o sol.
Mas é na ternura do barro
que se molda a fisionomia
das longínquas tardes de infância
e dos atalhos em surdina
onde o segredo era ciência
de perdular-se e não exaurir-se:
mina que sempre revertesse
um imutável diamante.
E como imprimir à feitura
(assim tão sobre o purpurino)
de minha paisagem madura
o tom que lhe ameiga o contorno
e responde pela moldura
que esmerilha em amorosa luz
mesmo a fidúcia solitária
de quem soma seus desconfortos?
Só descerrando em talho doce
certa líquida anatomia
do espelho antigo que escorria
em nós o humor e os estuários
da reserva que é sentimento
das Gerais em qualquer instância
e sobrepaira em absoluto
diário cerrado, nostálgico,
as noruegas do silêncio
onde itinero em singradura a
 nave azul deste poema
com leme aberto em madrigal
que atravessa na cerração
mares que nunca saberei
em perdida viagem — meu próprio
longo exílio sem remissão.

Juan Carlos Boveri

[In Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 119-120].


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