segunda-feira, 18 de março de 2013

Maria de Lourdes Hortas

ENQUANTO NÃO SABES, PETRUS
Enquanto não sabes
que as baleias não são peixes,
que as estrelas não são lanternas de anjos
ou buracos de fechaduras do infinito,
que o trovão não é Deus que está ralhando,
nem são Pedro arredando móveis no céu,
que a chuva não é o mesmo santo despejando cântaros
sobre a terra,
que as nuvens não são mares suspensos, cabeças de avós,
rebanhos, fantasmas, mas vapor - só vapor condensado.

Enquanto não sabes que tudo é fenômeno
como, por exemplo, o arco-íris,
espectro solar.

Enquanto não sabes o que é
fenômeno, Ltda, ONU, verbos e provérbios,
química, teu nome, sobrenome & Cia.
cores, alfabeto, psicologia.

Enquanto não sabes ver televisão
e olhas a Lua — Bolacha Maria -
que — não sabes — é satélite da Terra,
telhado de ébrios
e nau de poetas.

Enquanto não sabes o que é poesia,
crença ou ceticismo
e a diferença
de Banco maiúsculo e banco de praça.

Enquanto não sabes o que é comunismo,
megatons, foguete,
gregos e troianos.

Enquanto não sabes dar corda ao relógio,
só tu sabes tudo,
pois chegaste há pouco
da cidade-enigma.

(Logo esquecerás.)
Quano já souberes
falar convenções,
ler definições,
apertar botões,
lembra-te que és Petrus
e sobre esta pedra
tua mãe se reconstruirá.

(in AROMAS DA INFÂNCIA) 

 POEMA DE DESPEDIDA AO QUE PARTE PARA O MUNDO
Neste átrio para o mundo viste passar nove luas.
Agora estás pronto e eu te digo adeus porque não poderás voltar.
Aqui tens o teu farnel para a viagem.
Nele eu pus tudo, sem nada esquecer:
teus olhos, tuas mãos, teu cérebro,
teus nervos, teu sangue, tua vocação, teus sentimentos,
tuas palavras, teu nome, tua vida inteira
com atitudes a vestir em cada ocasião.

Aqui tens tua bagagem.
Vai devagar, sozinho, ao leme de tua nave.

De ti eu me despeço:
para este átrio onde nove luas passam silenciosamente
não há caminho de regresso.

(in FIO DE LÃ)

In: Palavra de Mulher (Poesia Feminina Brasileira Contemporânea), Rio de Janeiro: Ed. Fontana, 1979, pp. 184-185

Sobre a autora: Maria de Lourdes Mateus Hortas nasceu na Vila de São Vicente da Beira, Beira Baixa, Portugal, a 4 de Dezembro de 1940. Na terra natal viveu até Outubro de 1950, quando, acompanhando a família (seus pais, Manuel Hortas e Maria Amélia Hortas e sua irmã Maria Daniel), emigrou para o Brasil (Recife, estado de Pernambuco), onde vive até hoje.


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