sexta-feira, 26 de abril de 2013

Isabel Mendes Ferreira

Amadeo de Souza-Cardoso 
adezembrando
decidi que morro hoje que é dezembro e morro não como as árvores que gráficas sustentam o céu. morro para dentro de um movimento desagregatório onde o eu e o tu são cumes altíssimos ensombrados de visitas tardias. nada de diferente nem sequer a diferença no seu alargar de sinais. são as sombras. elas sempre. elas muralhas imateriais resplandecentes de negrume como sangue oleoso. desço a mais interna das palavras e subo ao regaço do sono. lenta.lentamente.  sem permutas frásicas nem ombro a ombro com o sempre dito e perseguido. as ilhas são de chumbo. o chumbo é frio.  o processo de liquidação do sonho é como um animal ferido mas sangrante até à batalha final. e mesmo que o sol volte a ser autentico nunca mais serei outra. senão esta morte dezembrina do entendimento da solidão.

e de que adianta saber o caminho se este já não é senão a sombra. o declínio. o tão avulso ser debaixo das cinzas....
sempre que o chão se move movem-se as raízes da terra de ninguém. pecúlio e peculiar destino do além fora das assimetrias. antecipação do género e do fogo. decifrado o êthos como olho de vulcão a acontecer em regiões de enclaves ontológicos onde tu és casa e eu apenas cave. submersa. líquida e quase aprumática na distância que nunca foi amplexo. por graça ou destino divino escolhi um caminho paralelo. sem angelismos nem alvos autocomplacentes. sem mistérios nem signos fulgurantes. apenas o invisível como ária que não me sendo própria me veste a nuca de arrepios. e de um certo bucólico sentimento de perda.
é assim que sou chave e núcleo. mesmo que fragmentada ou vária ou apenas fio.
sempre que o chão se abre só resiste a contaminação das coincidências. a alma é uma forma romântica de ser-se único por um momento. e neste culto de ligações te afogo. de afagos. porque o dificil já foi dito e lá fora o que se move é só a ironia dos embaciamentos.
o enredo perdeu o drama. e este passou a comédia.a tragicidade já não dilacera.
resta a geografia do caminho infinitesimal.

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há sempre uma hora em que falamos para o céu. e outra em que descemos ao impreciso como se uma nave carregada de lírios nos fosse o deliro de Esmirna ou o lenço da fluidez às portas do rio que purifica o silêncio. há sempre uma hora de Borges e outra de insaciáveis serpentes. és a minha pátria. explosiva rendição de uma linhagem de sal suor e joelhos macerados de terços em vão. há esta hora mínima a encher o tempo pisado de farpas e de régios adeuses. como se mais nada a violência fosse.

(tempo é renda______________________________)

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andam lobas esfaimadas borboletas iguanas falas frases tudo numa rútila excepção na baínha de uma verdade que nunca chega a ser. andam e bastardamente matam. o alvo. em arco. sem flechas. com beijos . substâncias ardentes ardilosas cuspidas a fogo lambidas a lodo. em luto permanente. passadeira de lírios brancos com sangue.

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curvo-me aos teus pés em dois tempos narrantes e submeto-me à permanência telúrica das tuas pedras como um coração circular e sem estratégia. ergo-me deste chão como de um ventre sibilino onde tudo é raiz e o pouco não se demora. são terços de urze punhos de xisto quente rosário da memória fonte de todas as rondas e de todas as estevas. sou mais deste seio imenso que das estradas ou margens. é um pulo e uma garganta em chama uma lua que esmaga o diabo e faz do ar um pronome brilhante. regresso-te como se ao rio faltasse esta foz_____________________onde me corporizo em pedra solar. como tu terra sempre renascente. a caminho do maior heterónimo do silêncio. curvo-me à beira de ti para melhor me ser mais perto e maior. errante e peregrina de toda a linguagem.

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no imperfeito ar em que se respira também se morre vestido de pó. essa nudez alva como uma cidade sem corpo e um corpo sem país. sinais irradiantes de uma perplexidade caótica e encapelada de fogo como música ou de música como dedos separados das mãos. anoitecemos como pinhais.

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____________________disse te um dia que as palavras amarradas ao osso seriam silêncio ruidosamente insuportável se operáticas e nervosas te fossem tóxicas. ebúrneas e vertiginosas miseráveis e espectrais emprestadas a prazo mordidas e esposas do fel te seriam a anca ou apenas um guindaste de lama. sorriste. e desse sorriso nasceram flores como oxigénio. hoje o linho faz-se mosto e ao longe o discurso é mais frontal. este país de sal é uma pose. e tu repousas. como um hífen de orquídeas.é tão nu o momento.

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andam lobas esfaimadas borboletas iguanas falas frases tudo numa rútila excepção na baínha de uma verdade que nunca chega a ser. andam e bastardamente matam. o alvo. em arco. sem flechas. com beijos . substâncias ardentes ardilosas cuspidas a fogo lambidas a lodo. em luto permanente. passadeira de lírios brancos com sangue.

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Isabel Mendes Ferreira, escritora, poetisa e pintora, natural do Montijo, editou o seu primeiro livro de poesia em 1982: "Sobre as Ervas um corpo de Junho". No ano seguinte edita na Bertrand "Um Nocturno de Bach e um Relâmpago no Olhar", segue-se “Um Corpo (sub) Exposto” na Imprensa Nacional, sendo 1984 o ano de edição do livro de contos "A Mais Loura de Lisboa". Em 1990 volta à poesia com "A Pele" na Presença, “Ponto Final” na Átrium, “Cantochão” e “Vermelho Doce” na Produce e entra em duas antologias. Em 2010, regressa com "As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar" da Babel, com chancela da Arcádia. Foi cronista no "O Jornal", no "Diário de Notícias", no “Diário de Lisboa" e nas revistas "Guia", "Activa" e "Tomorrow" e ainda Copy Writer nas Agências de Publicidade, Sistema, Ogilvy, Cinevoz, Boom and Bates, entre outras. 


Fonte: vozdecelenia.blogs.sapo.pt

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