quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lélia Coelho Frota

SALA CECÍLIA MEIRELES

Cecília,
tua casa agora é uma ilha 
frente ao jardim antigo. Obeliscos 
próximos perfeitamente te guardam 
e anunciam, entre a família das árvores, 
tua pureza solitária, a erguer-se em cal.

Cecília,
tua casa agora é navio 
de argamassa e alvenaria 
branco e azul, musical.

Cecilia
de sete jardins 
suspensos 
habita agora a escala 
absorta
dos sons a que se move seu navio.

Navio de grande calado 
êle singra a Lapa, feudal, 
e a figura de proa, sabemos 
invisível, deixa estendal 
de finos gestos, formosuras, 
olhares claros, refloridas 
frases de leve doutorado 
a exercer visões profundas 
sob uma graça oriental.

Cecília, entre lótus,
Meireles,
frontispício de dois acordes 
é a ideal anfitriã 
que venturosa propicia 
ao visitante uma precisa 
música, um retrato 
trágico ou risonho, máscara 
oportuna a animar-se entre 
as quatro palavras mágicas 
de sua sala de visitas.

Cecília, Cecília, padroeira 
de teu navio sensitivo 
por largos mais amplos que esse 
de tua casa transitiva 
vem buscar-nos, singra conosco 
rumo àquele ditoso país 
de cordilheiras e murmúrios 
que já habitavas à distância 
por um espelho de suspiros 
e ausência — lá onde o tempo 
era redondo e o pensamento 
um acidente feliz.

Visita teus visitantes 
com os ares da tua graça, 
com jeito de quem não quis 
sobrevoa-nos pela Praça 
Paris, ó maga de fugas 
precipita-nos pelo teu mar absoluto 
adentro,
intransigente Cecília sem luto, 
a proferir na alvura, 
alta (poesia)
a indestrutível palavra cintilume.

[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, pp. 159-160].



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